Livro: 
Família em Contos: os Larletos
Lançado pela Cultor do Livro, em dezembro de 2009, tem capa colorida, 280 páginas, miolo com texto e ilustrações em preto e branco, formato 14 cm x 21 cm.
Onde encontrar:
O livro pode ser adquirido na Livraria Virtual da Cultor de Livros.
Sobre o livro
O livro “Família em Contos: os Larletos”, de Ariovaldo Esteves Roggerio, apresenta 38 histórias curtas e divertidas, ambientadas no Bairro do Bixiga e Região central da Cidade de São Paulo, que narram as peripécias do dia a dia da alegre e economicamente apertada Família Larleto (Lar + Leto = alegre em latim), onde o casal Júlio e Mariana vai educando a afetividade de seus 8 filhos, sendo o Zégas, de 13 anos, o mais espoleta deles.
As histórias revelam o esforço de pais que sabem formar seus filhos, e oferecem respostas para um diálogo agradável e enriquecedor sobre temas de comportamento.
A quem se dirigem os contos?
Dirigem-se a crianças, jovens e adultos
Titulos dos contos do livro:
1. O Bixiga 2. Casa ou rua? 3. A família Larleto 4. Os filhos do Júlio 5. Ele (Zégas) 6. Convalescença 7. A Itata da Avenida Paulista 8. Assim assim 9. Visitas para o jantar 10. O barbeiro 11. A matemática 12. O desodorante 13. Um caso de doping 14. O carinho 15. A vacina 16. Esse fio 17. A frase famosa 18. O melão 19. A exposição 20. Os livros 21. Aprenda a admirar 22. O golpe 23. Julieta 24. Dia chato 25. O pastel 26. A morte 27. Seu Modesto 28. O vestibular 29. A redação 30. A faculdade 31. A chaminé 32. A favela 33. O namoro 34. O Bolão 35. Duas garotas 36. Papel higiênico 37. Chicletes 38. A velha ranzinza
Comentários sobre o livro Família em Contos: os Larletos, feito por Eliane Gomes Fernandes, que faz crítica literária no blog http://leiturasdeeliane.blogspot.com/
“Bem pessoal, estou literalmente apaixonada por este livro de contos. Ariovaldo escreve lindamente, de uma maneira soberba. Ele conta a história de uma família com vários filhos de variadas idades. E nestes contos ele mostra muitas facetas desta família: os Larletos. Cada conto nos traz um tema: amizade, amor, trabalho, fé etc. E eu fiquei fascinada ao ler sobre o cotidiano de uma família simples, como a minha família, a sua e a de tantos outros. Eu me emocionei, chorei e ri muito lendo estes contos. É muito gostoso ler sobre pais que realmente procuram educar seus filhos com amor, com limites, ensinando o respeito a si próprio a ao outro também. Como sou mãe de três filhos, estes contos tocaram-me profundamente, pois também aqui em casa procuramos ao máximo educar nossos filhos para serem cidadãos respeitadores da lei, de Deus e dos seus semelhantes. Então só tenho elogios para fazer a respeito deste livro e digo para vocês que vale a pena lê-lo. Além disso, Ariovaldo escreve maravilhosamente bem, com uma linguagem as vezes difícil, com palavras por vezes desconhecidas para mim (tive que procurar diversas no dicionário), mas achei muito, muito interessante porque acabei aprendendo muito sobre a nossa tão rica língua portuguesa. É maravilhoso ver um escritor lidar tão bem com as palavras. Bem, acho que me derramei em elogios, mas isso é porque realmente amei este livro e digo a vocês que acompanham este blog que procurem adquirir Família em Contos. É um livro para se ter na biblioteca de casa e para ser lido ao longo do tempo.
Vou deixar aqui o endereço do site do livro Família em Contos, onde vocês podem ler mais contos e também ouvir, pois tem vários contos narrados em áudio". Confira: http://www.familiaemcontos.com.br/”
Crítica literária do livro "Família em Contos: os Larletos"
Por Edison Minami: Doutorando em História Social pela FFLCH-USP. Bolsista do CNPq. O presente trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – Brasil.
Há várias maneiras de descrever o livro de Esteves Roggerio. A que eu não uso é a de que é um livro piegas ou infantil demais para o público em geral, o que seria de uma superficialidade ímpar. Na verdade, o livro pode ser analisado tanto em seu conjunto como conto por conto, sempre com conseqüências interessantes.
Percebe-se um clima de nostalgia nos contos, de uma época que já passou e parece não existir mais em parte alguma, a não ser nas lembranças. Isso aparece logo na Apresentação do livro, onde Ariovaldo reivindica o resgate da vida em família e da rua como espaço do lazer sadio e do lúdico para as crianças e adolescentes. Aqui poderíamos fazer um paralelo com as nostalgias que Marshall Berman teceu em seu mais famoso livro Tudo que é sólido se desmancha no ar, quando ele reivindica a redescoberta da rua como ambiente por excelência da modernidade ocidental, no caso o estigmatizado bairro do Bronx em Nova Iorque, EUA.
No caso de Esteves Roggerio o bairro emblemático da volta da família e do lazer é o simpático Bixiga –Bela Vista, em São Paulo-, transformado pelo autor simultaneamente em bairro ideal transportado de um passado ideal, e ao mesmo tempo inserido no presente da metrópole paulistana, num esforço mental que revela também diversos flaches autobiográficos do autor. O Bixiga de Esteves Roggerio mistura prédios modernos com carrinhos de rolimã, bola de gude, pular corda, papo descontraído na porta de casa, com computadores, celulares, trânsito caótico. Outra possibilidade de análise é a de que Roggerio quer tornar o seu Bixiga um tipo ideal de molde weberiano onde os bixiguenses vivem seu lazer, trabalho, família numerosa, religião, em uma unidade de vida perfeita, ao invés de se combaterem mortalmente fracionando o homem.
Daí o motivo dos seis primeiros contos procurarem nos situar nesse bairro de Utopia, digno de Thomas Morus: Apresentação; O Bixiga; Casa ou rua?; A família Larleto; Os filhos do Júlio; Ele. Neles o autor quer nos localizar nesse maravilhoso mundo mostrando que optar por ter uma família numerosa em um bairro de trabalhadores é uma opção viável, como o é Família Larleto, com seus oito filhos.
Logo de cara poderíamos questionar o porquê de uma família tão numerosa, em uma época em que poucos casam, menos ainda optam por ter filhos, e muitos adotam animais de estimação, para depois deixar seus excrementos pelas ruas como armadilhas para distraídos. Como responderia Edith Stein em seu livro A mulher nem todos nasceram pra constituir família, mas todos podem – se quiserem – casar e constituir uma.
Essa é a chave interpretativa para a Família Larleto: um jovem casal – Mariana e Júlio - que optou por casar cedo e ter muitos filhos. Nessa família todos os membros trabalham, estudam e ajudam em casa, ou seja, não estamos diante de berço de ouro.
Um membro se destaca em especial: Zégas, o filho de treze anos que trabalha como office boy em uma grande loja de departamentos e estuda à noite. Zégas é aquele moleque feliz que todos nós já fomos um dia e nem soubemos: folga no trabalho, é péssimo na escola, briga com os garotos da rua de cima e de baixo, com as irmãs e com o caçula..., mas é o principal interlocutor das reflexões do autor; o personagem por onde passam os dilemas mais existenciais e humanos, seu alter ego. Agora é hora de falarmos mais dos contos propriamente ditos. Falar rapidamente de todos seria tarefa exaustiva, portanto selecionei alguns que mais chamaram a atenção.
"A Itata da Av. Paulista": certo dia Mariana e o filho mais novo passam de ônibus pela Av. Paulista e o pequeno avista uma estátua – Itata – e passa a falar sem parar para a mãe, chamando a atenção dos passageiros no coletivo lotado. O desconcerto do garoto é o seguinte: o que aquele homem está fazendo parado no meio da rua? A mãe se desdobra em explicar que ali não está um homem, mas uma escultura, e nem adiantaria dizer pra ele que é a figura do Libertador da Venezuela, Francisco de Miranda (obs.: Não, não foi o Hugo Chaves). O que interessa aqui são os pensamentos que afloram nos demais passageiros diante de uma cena tão acolhedora de uma mãe com seu filho de colo: é a esposa workaholic que decide ter um filho e dar mais atenção ao marido; é o professor universitário que medita sobre a simplicidade da vida, e deixa de lado sociologismos e antropologismos incompreensíveis; são os demais passageiros que se incomodam por terem sido acordados.
"A exposição": Zégas entre uma entrega e outra gosta de passear – e vice e versa. Certo dia passa por diante de uma galeria de arte com muitas pessoas e decide entrar para xeretar. Depara-se com uma grande exposição de quadros, um legítimo Vernissage com coquetel, convidados e críticos de arte a cortejar a autora. Zégas, ignorante de tudo sobre artes plásticas, fica intrigado em como interpretar aquelas misteriosas linhas, curvas e cores, e passa a olhar de lado, de cabeça pra baixo, de longe, de perto... Por fim anota no livro de convidados que a obra é horrível e incompreensível. Encorajados por tão brutais comentários, os demais convidados passam a endossar esses comentários – que na verdade eram o que todos queriam dizer, mas por respeitos humanos evitavam comentar – e levam a artista a uma copiosa crise de choro no colo de sua mãe.
"A morte": Um dos contos mais interessantes da coletânea divide-se em três partes. Na primeira, Zégas descobre que uma vizinha está com uma doença terminal e passa a se revoltar com Deus por permitir que uma menina tão pequena possa sofrer e morrer. Aqui aparece o irracional na vida humana; na segunda parte as duas mães conversam sobre o destino da menina morta e em como é importante os pais estarem presentes na vida dos filhos; na terceira e melhor parte, o próprio Zégas projeta em si mesmo a morte da vizinha e resigna-se a esperar sua própria morte. Aqui é visível o paralelo com o famoso conto de Leon Tolstói, A morte de Ivan Illich. Se na Morte toltoiana o absurdo é o homem se aceitar mortal perante o desenlace trágico, na Morte roggeriana Zégas inicia sua reflexão a partir da morte de uma pessoa próxima, mas o desfecho do raciocínio é o mesmo. A diferença é o final do conto: o de Tolstói termina com Ivan Illich conformado com seu destino; já no conto Bixiguento Zégas é animado por sua mãe – e um pote de doce – a não ficar obcecado pela morte.
"O namoro": Uma amiga de Mariana descobre que a filha de oito anos começou a namorar na escola e fica preocupada com o assunto. Confusa e sem o apoio do marido, ela busca orientação na casa dos Larletos. O que se inicia aqui é um interessante diálogo em que duas pessoas fictícias esgrimam argumentos pró e contra o namoro precoce. Aqui me vem a mente os ensaios da Antiguidade e da Renascença onde os filósofos se utilizavam do expediente do diálogo para tornar mais didática a apresentação de uma escola ou linha de pensamento. Em particular lembro de O ensaiador de Galileu, a mais conhecida obra do astrônomo a defender o Heliocentrismo e a condenar o Geocentrismo. No caso Bixiguento, as duas amigas debatem a necessidade ou não do namoro na infância e na adolescência, o sexo antes do casamento e o divórcio. Ao contrário do que muitos poderiam pensar, o tema é tratado de forma muito respeitosa e tranqüila, procurando demonstrar a importância de uma família unida para o pleno desenvolvimento de todos os seus membros, e dá opções aos pais para abrir novos horizontes aos filhos adolescentes, a fim de não se questionarem precocemente sobre um tema –o namoro- a que deveriam estar alheios na aurora da vida, para se preocuparem com ele no momento certo, ou seja, quando tiverem mais experiência de e maturidade para assumirem as conseqüências do amor.
Qual o balanço que posso fazer de Família em Contos? No geral, devo dizer que é um livro que merece uma leitura mais atenta do que poderia parecer. Mais que um ensaio sobre moral e bons costumes – o que de fato ele também é – notei uma série de elementos que o tornam uma interessante descrição da nossa sociedade atual a partir de um ponto de vista fora da realidade, quase ideal.
Se invertermos o ponto de vista que propus veremos que o mundo real, na visão do Bixiga ideal está semeado de vícios, desânimos e erros de todo tipo. No mundo real as pessoas de boa vontade se sentem atomizadas e perdidas nesse processo civilizador (Norbert Elias) onde as pessoas apenas seriam cobradas para controlar suas frustrações e neuroses em prol do bem estar dos demais indivíduos que os cercam. No “Bixiga”, pelo contrário, o cão vira-lata, o papagaio e o padre da igreja são parte de uma coletividade que busca o Bem Comum, e não apenas o bem estar material. Mais que um sonho irrealizável, Família em Contos quer ser um farol a indicar uma direção onde podemos aterrissar na ilha de Utopia.
