« A Família Larleto »
A Família Larleto é uma das tantas que existem por aí vivendo na normalidade. É formada de tipos comuns, encontradiços em todos os cantos da cidade: feiras-livres, praças, saídas de fábricas, escritórios, pontos de ônibus... Famílias feitas de vidas ocultas que não buscam a badalação da galera, nem an seiam figurar em capas de revistas, coluna social de jornais ou telas da tevê – não vale a pena –, mas que não passam despercebidas ao Expectador Divino, que as tem em alta conta. Descendente de italiano, Júlio, o marido, não foi o único do bairro a ter o sobrenome aportuguesado pelos nossos cartórios: de Lareleto, do avô paterno, ficou sendo a nova safra Larleto. Mariana, a esposa, de ascendência espanhola, manteve incólume o sobrenome: Villaro.
Júlio é um homem simples, trabalhador, metódico. Como a maioria dos habitantes do Bixiga, é neto de imigrantes italianos. Aprecia macarronada e torce pelo Palmeiras, sem fanatismos. Veste-se com roupas simples, sempre limpas e combinando as cores, e por isso é tido como alguém de bom gosto. Em casa, jamais anda de calção ou sem camisa. Pratica esportes, tem porte atlético e cuida da aparência porque sabe que assim agrada a esposa.
Seu caráter sociável não é de mera fachada, não. Fez ciências contábeis e, por não se considerar genial, Júlio se aplica com constância aos estudos, principalmente quando aparecem assuntos novos ou complicados. Goza de respeito e prestígio graças ao profissionalismo com que encara o trabalho. Pontual no horário de entrar e sair da empresa, diz aos chefes – quando insistem nas horas extras –, que tem outro negócio a cuidar: a família. Ninguém discute porque já se sabe que não abre mão disso, e que para evitar as tais horas a mais, trabalha com intensidade – sem enrolar –, e nunca represa na mesa as suas tarefas.
O temperamento do Júlio é sereno e sociável, fecundamente utilizado para conquistar a amizade e a confiança dos filhos, com os quais gasta prodigamente o tempo. Sua figura cresce contínua e aprumadamente diante de seus rebentos, porque o exemplo da pessoa amada sempre exerce um suave e misterioso império naqueles que a amam. Júlio é do tipo que sabe sofrer em silêncio e rezar com insistência. Nas situações em que todos perdem a cabeça, não se desespera e pinça o lado positivo das coisas, o que lhe aumenta a autoridade. Os traços do pai vão se desenhando nos filhos sem que estes o percebam – notarão quando, homens formados, não tiverem mais o pai –, pois o amor reflete sempre a feição moral de quem o inspira. Júlio tem muitos amigos e sabe conservá-los, sacrificando-se por eles sem nada esperar em troca. No trato com os demais, tem a palavra oportuna que estimula e orienta.
Mariana. Mariana é mãe, só mãe – o que é divino. Ainda é moça – tem cinco anos menos do que Júlio – e a juventude lhe é ressaltada pela beleza. Seu temperamento é alegre, bem-humorado, onde se combinam maravilhosamente uma requintada feminilidade com suave energia e sólido sentido prático. É serena, mas quando fica brava, fica mesmo. Entretanto, tal estado de alma lhe é raro e, por conhecê-lo, os filhos evitam despertá-lo, propósito nem sempre alcançado...
Mariana fez faculdade de pedagogia na USP, tendo sido excelente aluna. Seguiu carreira profissional até à chegada do terceiro filho, quando vislumbrou que valia a pena reduzir gradativamente o trabalho externo para se dedicar unicamente ao lar. Não é o tipo de mulher que necessita de elogios. Possui o instinto de mulher simples, que a leva a furtar-se de ostentações ou chamar a atenção. Foi criada para rodear de afeição aos que ama e dar-lhes um lar onde possam expandir-se em singela felicidade. Percebeu que o salário nem sempre é estipêndio, mas alta paga ao tempo cerceado, à vida subtraída do convívio daqueles a quem ama e por quem é amada. Bem-humorada, mostrou às amigas, que a fustigaram pela opção caseira tomada, ter lucrado mais ao se tornar dona do seu próprio tempo, que passou a organizar criativamente, de modo a poder dispor de algumas horas diárias para ler, estudar, ou mesmo participar de cursos e palestras profissionais e continuar a sua pós-graduação sem sacrificar a família.
Mariana disse às amigas que não era escrava de cartão-de-ponto, nem de diretor ranzinza que a impedia de abrir um livro ou fazer um curso no horário do expediente, mesmo em assuntos de interesse da empresa: a época da escravidão e dos espartilhos já se foi, afirmou divertida. Apenada, Mariana ainda vê as ex-companheiras de trabalho sendo obrigadas a abandonarem os filhos em mãos de aluguel. Quanto ao emprego da Mariana, apenas trocaram a plaqueta com o seu nome na entrada da sala, apesar das juras de ser ela inigualável, alicerce, viga-mestra, etc. “As empresas têm memória curta, minhas caras, e eu não tenho duas vidas. Em casa sou insubstituível, aqui não”, são palavras da Mariana às amigas e ex-colegas de empresa.
Em casa, ao ler e estudar os assuntos da sua profissão, Mariana se mantém atualizada. Ao unir seu gosto profissional – a pedagogia – ao sentimento materno, que penetra na alma dos filhos e faz descobrir o espírito humano com sabedoria, avalia profundamente os acertos e desacertos da sua ciência. E assim, cada vez que olha para um filho e o vai descobrindo, vê nele um potencial maior que em si própria, porque é a continuidade, que deve desvendar e preparar. Vislumbrou que a tarefa formativa dos pais lhes amplia as realizações pessoais.
A casa dos Larleto é sem luxo, mas de muito bom gosto. É alugada e do tipo antigo, comum nos velhos bairros da cidade: pequeno jardim fronteiriço, sala de estar de onde parte um corredor de acesso a três quartos à esquerda, banheiro à direita, cozinha no final e um quintal grande. A estreiteza econômica da família é disfarçada na casa pela limpeza e bom gosto na decoração, feita de objetos simples que, ajeitados pelas mãos de Mariana, ganham beleza incomum. E isso faz todos sentirem vontade de logo retornar ao lar.
Júlio e Mariana casaram-se cedo e, sendo jovens ainda, têm 8 filhos: Augusto, com 18 anos; Maria Cecília (Ciça), 17 anos; José (Zé ou Zégas), 13 anos; Janaína, 11 anos; Margarida, 9 anos; Glória (Glorinha), 3 anos; Antonio (Tonico), 2 anos; Thiago, 1 ano.
O salário do Júlio dá para manter a família, sem extravagâncias, caprichos ou descuidos orçamentários. Várias despesas são reduzidas com a produção caseira de ovos, galinhas e patos. No quintal – como já foi dito, esses espaços ainda sobrevivem em bairros antigos e populares – há pequena horta e parco milharal. Um pé de goiaba, outro de caqui e o limoeiro formam o pomar e concluem o círculo hortifrutigranjeiro da casa. A produção semanal de várias fornadas de pão, biscoitos, mais a fabricação doméstica de alguns produtos de limpeza, poupam dinheiro para os gastos inevitáveis.
Valeu a pena insistir; foi vitória granjeada pela constância. Agora, cada filho sabe que a roupa de uso, ao ficar curta, deve ser passada ao irmão seguinte; o mesmo ocorre com livros e outros materiais escolares: “É preciso cuidar bem das coisas”, é ladainha que todos já sabem de cor e salteado e estão carecas de ouvir, como se diz.
A situação financeira não permite ter empregada, e obriga cada filho a se encarregar de uma parte dos afazeres domésticos. Tirar o pó dos móveis, encerar o chão, lavar a roupa, ajudar na cozinha, pôr ordem na sala de estar, quartos e quintal, são tarefas distribuídas entre todos. Além disso, os pais estabeleceram que ninguém é empregado de ninguém. Cada um que zele pelas coisas pessoais. Nada de sapatos, roupas, toalhas e brinquedos espalhados pela casa. Os infratores serão penalizados na forma da lei. Ai de quem não obedecer... E tem mais: o interessado arrume a própria cama e ordene a parte que lhe cabe no guarda-roupa. Cama bem arrumada, não à moda francesa, mas à espanhola: lençóis duplos e sacudidos, colchão espalmado, cobertores alisados e colcha sem amarrotar.
Terminam por aí os encargos? Nem por sonho. Somam-se às tarefas diárias – e isso cabe aos meninos – os serviços mais pesados: pintura da casa, conserto das calhas e telhado, conservação da cerca em volta da horta para evitar os assaltos do garnisé Teobaldo e sua corja. Júlio encarrega-se da parte elétrica, hidráulica e alvenaria, com a ajuda dos meninos... Nem o Tonico escapa. Júlio não aceita o falacioso argumento dos preguiçosos e mesquinhos de que para casa alugada não vale a pena tanto zelo. “Vale – diz Júlio –, porque é o meu lar; o lugar onde vivem os meus, e onde recebo parentes e amigos, que julgo dignos da ordem e limpeza: uma casa com portas emperradas, mato no jardim, pintura encardida, venezianas quebradas, fer rugem no gradil, vitrôs trincados, fiação saliente, espelhos de luz partidos, reboco caído, bem reflete a corroída alma de quem ali mora”. Êta, Júlio... O sonho da casa própria aos poucos vai se concretizando.
Sobre as meninas recai o cuidado dos menores, o preparo das refeições e costuras mais elaboradas. Excetuam-se os botões: quem não souber pregá-los, alardeia Ciça, não honra as calças que veste! Com isso, a molecada fica sem alternativa e o Tonico, longe ainda de usar calças, para não se humilhar perante o complô feminino da casa, socorre-se do Zé ao lhe cair um botão, e inspeciona afanosamente as fraldas e roupas do Thiago, impedindo o pobrezinho de sucumbir ao domínio das irmãs. Só que o Thiago, mais preocupado com colo e mamadeira, não está nem aí para o bobo orgulho dos irmãos, e não padece reparo de valer-se das meninas. No fundo, os demais têm inveja da boa vida que leva. Contudo, a corrente masculina, não aceitando um elo fraco que a desonre, deu a considerar a submissão do pequeno como pura estratégia e habilidade política.
Aniversário! Quando há algum, o que por ali não é raridade, prontamente se põe a mesa de festa. O segredo de tanta eficiência – outra batalha vencida pela constância de Mariana – reside na especialidade culinária de cada filho: Ciça faz bolos e sorvetes de dar inveja; Janaína é especialista em salgadinhos; Margarida tem refinado bom gosto no preparo da mesa e adereços festivos; as pizzas e esfirras do Augusto dão água na boca; o Zé prepara os sucos assistido pelos menores que provam o resultado: se parco de açúcar, o Thiago faz careta tão feia que, para evitá-la – é ponto de honra –, o Zé nunca erra na medida.
Quando Júlio e Mariana leram há algum tempo que em certo país europeu um casal que dava tarefas aos filhos foi processado criminalmente por escravidão de menores, ou besteira desse teor, comentaram tristemente entre si que estão desensinando as crianças a perceberem que elas não têm somente direitos diante dos pais, mas também deveres filiais-paternais, além dos fraternais; e que tão cheios de satisfações, facilidades e benesses, esses molengões papa-direitos trarão muitas dores aos pais e às famílias que constituírem, que certamente não durarão muito, e trarão grandes despesas à sociedade.
Ao partir Júlio para o trabalho, Mariana prende os cabelos feito rabo-de-cavalo para não atrapalhar na lida da casa e, à noite, antes da chegada do marido, solta-os penteando-os sobre os ombros e põe uma roupa simpática para recebê-lo. Está sempre bonita, vestida com sobriedade e bom gosto. Para as filhas, ela diz que mulher desmazelada e fedendo a gordura não pode chorar marido que chegue tarde ou bata em outra porta.
Mariana é a primeira a levantar e a antepenúltima a deitar, cedendo ao Júlio o cuidado de aguardar o Zé retornar da escola; e o marido cumpre o encargo aproveitando o sono da casa para repassar livros de contabilidade. O dia-a-dia de Ma ria na não é fácil e ela diz o mesmo que todas as mães de famílias numerosas dizem, seja a mãe dos Sabinos ou a dos da Silva, variando apenas nos nomes dos filhos: “Janaína, é hora de se aprontar pra escola; acorde”. “Oh, não, Zé, põe esse cachorro pra fora”. “Ôôô Augusto, eu falei pra olhar o leite...”. “Margarida, arrume sua cama, menina!”. “Júlio, não esqueça o remédio do Thiago”. “Bandido...”. “Meu Deus, não aguento mais; me leva embora, vai!”. “A mãe não tem dinheiro”. “Depois, depois menino”. “Que meleca, Tonico!”. “Ai, suma com esse patinete daqui!”. “Por que esse choro?”. “Não fale com a boca cheia”. “Vá lavar o rosto”. “Deus te abençoe, seu praguinha”. “Menina, onde você aprendeu a responder assim?”. “Não, depois te pego no colo”. “Nada de palavrão, menino!”. “Ciça, o arroz tá no fogo?”. “Tá doendo? Deixa de fricote”. “Um beijo”. “Tchau...”. “Como foi o dia, Júlio?”. “Foi bem na prova, Augusto?”. “Puxa, que bom, vo cê comprou o remédio, benzóca”. “Saco, a que ponto chegamos!”. “Olhe pra mim e responda: foi você quem quebrou isso? Que inferneira de vida”.
Mariana integra a sociedade médica da rua. Como é bem sabido, pois é de fácil observação, e já foi afirmado por muita gente, até por membros de famílias numerosas de outros países, em bairros humildes se desenvolve uma medicina chamada familiar, que reúne todas as mães da rua. De tradição oral, as técnicas, avalizadas por farta base empírica, são passadas de geração a geração, constituindo sólida cultura científica que, de verdade, poupa não poucos gastos com a concorrência médica de diploma e carteirinha, só chamada como recurso extremo, e depois de esgotadas todas as aplicações de emplastros, emulsões, chás de ervas comuns ou das inacreditáveis e raras, efusões, e consultas a todas as mulheres da vizinhança no anseio de desenterrar alquimia olvidada em alguma cachola. Acrescente-se o que avó alguma deixou de frisar – elo jamais quebrado no correr dos séculos: “O suadouro é medicina base de todas as demais. De preparado que não faz transpirar ou suar em bicas é para desconfiar”.
Como bem lembrou um filho de família numerosa e pobre, do norte destas Américas, se os laboratórios conhecessem tal ciência, rica em receitas, certamente colocariam em suas embalagens: “só para uso externo”. E o resultado é que moleque nunca morre... Remédio eficaz e concorrente do suadouro – quem dele não padeceu lance a primeira pedra – é o óleo de rícino, dotado de grande prestígio entre as mães para acabar com a manha de filho que se faz de doente para iludir o banho ou não ir à escola. Basta citar o milagroso medicamento que o fedelho já vai dizendo: “Já tô bom, mãe; já tô bom!” De verdade, é tido em alta conta pelas mães esse santo remédio.
Mas chega de conversa fiada; passemos aos fatos...
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.

