« Casa ou Rua? »
A rua... Que maravilha! Os meninos de bairros populares jamais se entocam em casa: são como filhotes de pássaro ansiando escapar do ninho. Quando ainda engatinham, as mães os mantêm na área doméstica sob chave. Porém, o pimpolho de ano e meses protesta: – “Mã, a póta, póta”. Inflexível e enxugando as mãos no avental, ela olha para o toco com panca de gente, suspira e volta à cozinha abanando a cabeça. Mas inevitável é escutar desajeitadas investidas na fechadura que conduz ao mundo lá de fora. Um dia, o segredo daquele pedacinho de metal é desvendado e o coração de mais uma mãe, pobre de espaço e de dinheiro, salta do peito. Já não há o que fazer, apenas tornar a suspirar, fitar o céu suplicando um bom anjo da guarda para mais um moleque de rua, e matutar no modo de intensificar o amor, tornando-se mais amiga do filho: antídoto certeiro para atalhar os males da rua. Depois, seguir rodopiando a sopa com a colher de pau.
Ser criado solto na rua é um privilégio, quando no ninho há bom ambiente familiar. Fora do teto, num estalar de dedos, todo pirralho descobre não ser moeda de ouro que a todos agrada. Logo as arestas são aparadas e abandona o finca-pé da marrudice: aprende a dividir, a aguardar a vez, ouvir, ceder... Bem, peço perdão pelo realismo do termo, e por tão chula expressão, mas é salutar que os desavisados pais conheçam o apodo dado lá fora ao filho que bate na irmã. Sei que ficarão chocados esses pobres pais, mas é nua e crua verdade, malgrado meu: se o seu bonequinho é valentão com a maninha, pago uma cerveja se já não é chamado de... de... bunda-mole, vai... Desculpem-me, pois não tive coragem de registrar no papel o desgarrado palavrão que define esses mariquinhas.
O que penaliza os moleques da rua são os meninos de olhos tristes e apoucados, presos em gaiolas lá no alto dos edifícios, seguindo, curiosos, as brincadeiras da calçada. Assombrados, os cá de baixo não se culpam pelo suplício de tais avezinhas. Mas o caso é que lhes debitam o infortúnio daqueles pobrezinhos engaiolados.
Já o que nauseia a meninada do asfalto são os garotos paparicados, plantas-de-estufa que não sabem se virar sozinhos: ganham mesada (e assim desconhecem o quanto custa ganhar o dinheiro), não amarram os próprios sapatos, nem sabem pendurar suas roupas no armário ou esquentar a comida; também não tomam ônibus sozinhos – a mamãe os leva para a escola –, e têm como babá a televisão, a internet e os jogos de vídeo-game, que lhes empanturram de alimento bom e estragado, mas a podridão ingerida prevalece sobre a comida sadia. E é para não estragarem-se na rua que vivem assim. E são esses que depois estragam a rua...
Mas já é hora de falar da Família Larleto...
Conto publicado no livro Famílía em Contos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009). O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.

