« Os Filhos do Júlio »
– Ciça, a mãe vai até o prédio da Beatriz, tá?
Maria Cecília estuda no quarto das meninas; a mãe está na porta da sala, de saída.
– Tá, mã.
– Já adiantei o almoço; só falta colocar a mesa. Seu pai vai chegar meio-dia-e-meia, mas volto antes.
– Tá, mã; eu coloco a mesa. Tchau... Um beijo.
– Outro... Ah, olha, vou levar o Tonico e a Glorinha senão você não terminará os exercícios de matemática; o Thiago está dormindo no berço...
– Ótimo, mãe.
E voltando-se para os dois espoletinhas, Mariana sussurra apontando-lhes o indicador:
– Vocês não dão sossego nem pro coitado do papagaio, que está até rouco! – sorri e belisca carinhosamente aqueles pequeninos queixos.
Mariana soube que a caixa d’água do edifício onde mora sua amiga esvaziou por avaria no motor da bomba hidráulica. Como Beatriz está grávida, com enorme barriga, discretamente põe-se a ajudá-la:
– Alô, Be, é a Mariana!
– Oi, Mari, que alegria ouvir você!
– ...É que eu estava passando e resolvi ligar aqui da por taria.
– Suba, Mari... Se é que está funcionando o elevador desta porcaria de prédio...
– Ah, o elevador tá quebrado, Be?
– Não, por enquanto. Só estamos sem água na caixa.
– Ah, é?! Então eu subo e aproveito pra levar água do reservatório da garagem. Que tal?
– Puxa, Mari, se você puder fazer isso... Nem comecei o almoço do Beto. Tô mais lenta que um hipopótamo.
Na garagem, enroscada nos baldes e se afanando por controlar o forte jato de água da torneira do reservatório de entrada, Mariana pede ao filho que chame o elevador para adiantar o expediente. São 12h15. Resoluto, Tonico parte em cumprimento da missão recebida. Estaca diante da porta do elevador, aponta-a com o dedo e transmite a ordem:
– Ô elevador, a mãe tá chamando – sem olhar para Ma ria na, aponta-a com o braço.
A desobediente máquina jaz no eterno sono dos brutos. Então a ordem é reiterada:
– Ôôô, elevador, vem logo; a mãe tá chamando!
A relutância do aparelho faz a Glorinha correr em auxílio do irmão:
– É sim, viu! A mãe tá chamando! – e se emburra com a teimosa caixa mecânica.
Mariana contém o riso esforçadamente. Os filhos retornam desolados diante de tamanha desobediência. Choroso, Tonico desabafa:
– Mã, eli não qué vim!
E a mãe rompe em risos. Os baldes caem de suas mãos. O filho é consolado com um beijo e demorado abraço. Torna a encher os baldes. Lágrimas hilariantes molham o rosto de Ma ria na.
– Be, cheguei... Quase não consegui! Imagine o que aconteceu lá na garagem com as crianças...
Beatriz ouve a história e ri tanto até que diz:
– Pára, Mari, que posso ter um parto prematuro... Puxa, Mari, obrigada mesmo. Sinto-me ótima, e estava pra explodir de raiva, tal era o meu apuro com almoço... Cadê o Tonico? Ah, tá ali na varanda com o gato! Sapequinha, vem cá!
Tonico percebe a intenção beijoqueira da Beatriz e ameaça esquivar-se pela esquerda, cortando em diagonal pela direita num lindo drible de craque, indo aguardar a mãe junto do elevador e pondo-se a socar os botões de sobe-e-desce alternadamente, que há pouco lhe foram apresentados.
– Tchau, Be. Tá na hora do Júlio chegar.
– Mari, beije aquele malandrinho por mim... Glorinha!, como você está bonita; parece uma princesa! – e o estoque de beijos é gasto na menina, que suspira em desafogo.
Mariana volta para casa. Júlio chega em seguida.
– Oi, Júlio!
Mariana beija o marido na face sem demonstrações de carinho íntimo diante das crianças, que reservam para momentos apenas dos dois. Júlio corresponde com discreto beijo e repara como a esposa fica bonita de cabelos soltos e de vestido branco com bolinhas azuis.
– Júlio, tenho uma coisa engraçada pra te contar!
A história do elevador faz o casal rir junto. De volta à empresa, Júlio conta o fato ao Floriano, que veio à sua sala; Floriano parte sorrindo e repete-o ao Alfredo, que o narra à Bete; esta ao Alberto, este ao Edgar. O engraçado episódio espalha-se. E cada encontro entre funcionários é seguido da inevitável pergunta:
– Você já sabe da última dos filhos do Júlio?
– Não! Conta, conta!
– Pois olha...
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.

