« A itata da Avenida Paulista »
O sol reverbera no asfalto; agride e fere os incautos. É um desses dias abafados em que o caminhar faz transpirar feito panela de pressão, e a umidade do ar besunta o corpo de suor.
Mariana sai do Hospital das Clínicas com o pequeno Tonico, que recebera mais uma das vacinas da infância. Dirige-se ao ponto de ônibus da Avenida Dr. Arnaldo, em frente à Faculdade de Medicina. A espera é curta; logo chega o circular. A mãe alça o filho no primeiro degrau da porta, e o garoto dispara pelo corredor do veículo, mergulha por baixo da roleta e sobe afoitamente em um banco logo após a catraca do cobrador. Ali o sol martela forte, razão de o assento estar desocupado.
Joelhos sobre o estofado, mãozinhas pregadas ao friso da janela, nariz socado contra o vidro, vai o Tonico magnetizado pela agitada avenida.
A mãe se põe ao lado do filho. Por alguns momentos, ambos se parecem indiferentes: o garoto fala consigo sobre as coisas que lhe brinda a Paulista; a mãe passa em revista os pertences que traz entre mãos.
Com exceção do motorista, que despeja sua ira no câmbio do surrado veículo – fora obrigado pelo fiscal de linha a fazer mais uma viagem –, todos no ônibus jazem sonolentos e entorpecidos pela quentura do dia.
Um passageiro ou outro tenta ler algo, mas sustentar as pálpebras é tarefa heróica: em segundos, surpreende-se com o livro entreaberto sobre as pernas e o queixo enterrado no peito. Envergonhado, recompõe-se, tornando à leitura, mas o ferro não é de boa liga e a cena se repete.
Na indolência da tarde, a modorra assenhoreia-se dos passageiros. Alguns covardemente entregam-se à preguiça sem a menor vergonha, sem luta ou compostura: apoiam a cabeça no vidro da janela ou a nuca no encosto do banco, e dormem com a boca arreganhada a ostentar os pré-molares obturados. Despertarão no ponto final aos cutucões do cobrador.
O destino de Mariana é o Bixiga, pelo espigão da Paulista. No instante em que o ônibus acaba de percorrer a Dr. Arnaldo e irrompe na Avenida Paulista, o garoto grita aterrado:
– Mãe, um home!!!
Súbito, Tonico deixa o posto da janela e atira-se no assento e fica bem grudadinho à mãe. Torna a repetir em sobressalto:
– Um home, mãe!
A voz estridente do menino desperta os letárgicos passageiros que, curiosos, tentam divisar o que aterrara a criança. Surpresa! Ali, bem no meio da praça, ilhada pelas duas pistas da avenida, assenta-se aquela assustadora e gigantesca estátua que parece ser de bronze e representa a figura de um homem com capa esvoaçante e desembainhando a espada em atitude de avanço.
A bruta-mole e enegrecida figura mais do que louvar a memória de alguém, a desdiz. Isolada dos transeuntes pelo mau jeito do seu estar, só não é ignorada pelos poucos aventureiros que ousam desviar-se do seu percurso para ler a placa de bronze-negro que tenta dar a ela alguma personalidade.
Serenamente, a mãe lança o olhar através do vidro e percebe que o “home” que assustara o filho não é um homem, mas uma estátua. Como explicar-lhe?
Agora despertos, os passageiros anseiam pela resposta. Porém, a remota hipótese de serem solicitados a darem-na ao garoto, os deixa retraídos e olham de esguelha, disfarçando a curiosidade. O risco de estrabismo é grande. A idosa senhora no banco ao lado impele tanto a visão que rodopia a órbita ocular e por pouco a menina dos olhos não vai vistoriar-lhe os miolos encavernados no crânio. No assento atrás de Mariana, um professor de antropologia regressa de uma estafante manhã de aulas, e pondera consigo a resposta que a mãe poderia formular... Não consegue juntar as ideias. Seus conceitos relutam em expor-se. Espreme o cérebro e o melhor que consegue em seu monólogo interior é: – “Garoto, aquilo que você viu não é um homem, mas uma mera representação, porque o homem é um indivíduo de estrutura dúplice – material e espiritual – e, como você pode observar, a coisa – e não ser humano – que o assustou, não é isso!”.
Bem besta para o caso seria esta resposta, conclui o professor (ainda bem). Além do mais, o mestre desconfia do discernimento humano diante das tantas provas de irracionalidade da espécie. Prefere calar-se, embora envergonhado por nada poder fazer em auxílio daquela pobre mãe, alvo das atenções. E o pior é que o garoto aguarda explicações. – “Que fadário o da moça”, pensa ele.
Desconcertado, sem saber onde pousar o olhar, na angustiante expectativa pela suposta falta de resposta da mãe para algo que repentinamente tornara-se tão complexo, o mestre encontra um modo de ajudar: finge-se alheio à situação e à procura do nada folheia sonora e atabalhoadamente a revista que porta.
Conferidos e ajeitados os pertences na sacola, desordenados na tomada do ônibus – verdadeira manobra militar pela pressa do motorista –, Mariana fixa o olhar no filho, ainda suspenso e aguardando resposta. Com voz materna, segura como a de experimentada mestra diante de uma classe de crianças do primeiro ano, diz:
– Filho, aquilo não é um homem!
– Éééé, mãe! É gandi e feio!
– Filho, aquilo é uma estátua.
– ...I-ta-ta, mãe?!
Mais silêncio. A criança revira a algibeira da memória para encontrar o significado de “itata”. Nada vislumbra; portanto, é homem. Volta a afirmar seguro como filósofo imanentista:
– É home, mãe! Tem peina, baço!
Indiferente a todo o ônibus, abertamente concentrado nela, Mariana responde:
– Filho, ele tem pernas que não andam e braços que não se movem. Seus olhos não vêm, seus ouvidos não ouvem, sua boca não fala.
– Éééé, mãe?!
– É Tonico.
– Eli reiza antes de durmi?
– Não.
– Nãooo, mãe?!
– Não, filho. Ele é todo de pedra.
– De preda?
– Sim, filho. O coração dele é de pedra, frio, imóvel. Não sente nada; não precisa de nada.
– Eêééé???
– É.
O professor tem os olhos fechados. Quer chorar, quer rir, quer agradecer. Sente algo de divino escondido no banco da frente. Aquela menção a coração de pedra o faz lembrar do seu.
– Eli goita de banana?
– Não, ele não gosta de banana amassada com aveia, nem tem fome, nem ri, nem chora como você. Ele não tem dodói.
Surpreendido o menino lança um “é” mais longo e admirado.
Nesse ponto do diálogo, o garoto encontra-se no vão entre os joelhos da mãe e o encosto do banco da frente. Atento, sorve cada palavra.
Puxa, aquela conversa deu enorme paz ao Tonico. Nada mais havendo que temer, retorna ligeiro à anterior posição e tenta avistar a “itata”, sem o conseguir, pois se perdera no fundo da avenida. De novo, soca o nariz no vidro e reinicia o colóquio com seus botões, abruptamente interrompido pela inopinada aparição. A palavra somada aos seus parcos conhecimentos – “itata”– é repetida incansavelmente com prazer de brinquedo novo.
A mãe volta aos objetos que porta e acaricia um suéter de tricô, imaginando quão elegante ficará o príncipe herdeiro ora vacinado. Recoloca a vestimenta na sacola, certa de que sorvetes, o cãozinho Babaréu e o campinho ao lado da casa serão os inimigos deletérios da indumentária, que a todo custo deverão ser evitados.
Os passageiros ficam pensativos. Pedaços do entranhável diálogo lhes acalentam os monólogos do coração.
A voz da criança invadiu por dentro a moça da frente e libertou nela o amordaçado sentimento materno. Arrepia-se. Pensa: “É... está na hora... Hoje, falo com o Beto. Três anos de casamento e nunca chega a situação ideal de ter um filho”. Suspira. Tenta olhar para o banco traseiro. “Falta de dinheiro?”, continua a considerar. “Com arroz e feijão também se cria. E o meu estágio? Com estágio, projetos, mas sozinha e sem filhos! Não carece, não carece”.
Ameaça chorar. Sente o tempo esvair do seu corpo; não quer envelhecer para ter filhos: “Eles mais precisarão da minha juventude e do meu amor que de título ou conforto! Falarei com o Beto... Ele tanto deseja um filho, e o estou privando dessa felicidade! Privo a ele – a quem mais amo –, e privo um filho de ser amado e de amar. Sou uma egoísta, mesmo! Puxa, neste momento me sinto ótima e enamorada de verdade! Há quanto tempo não me sentia assim!”. Olha para o banco de trás e sorri. Mariana corresponde.
O professor, em abalo de admiração, tem ainda os olhos fechados. Aquele negócio de coração de pedra o pegou de jeito. A memória foi à estante do passado e retirou o volume da infância. Viu-se de novo criança e com sua mãe: – “Será que ainda sei aquela oração que ela me ensinou?” Tenta recitá-la... Não consegue: a poeira do tempo sepultou-a: – “Acho que sou todo de pedra”, conclui. É a hora da verdade. Fez o papel ridículo do garoto bobo que trajando a roupa do pai zanzou pela casa com ares de importante e apegou-se à fantasia não voltando mais a ser o que era para seu pai: um menino!
Mariana dá sinal para descer. Tonico dispara até a porta.
– Espere, filho.
Os pacotes, a criança, os degraus... Mariana não percebe que os passageiros a observam enternecidos. Desceram na Paulista com a Brigadeiro. O velho semáforo, que a tantas ignoradas mães e filhos oferece o obséquio da sua segurança, aguarda os pedestres cruzarem a faixa dos que seguem a pé. Aquela dupla jovial e alegre penetra na Brigadeiro rumo à Bela Vista, acompanhada por olhares que partem do ônibus. O farol abre e a avenida segue a sua rotina. O professor arrisca outro olhar, porém mãe e filho se perderam na multidão. Ocultaram-se entre os milhões de habitantes desta cidade: – “Qual casa, qual rua abrigam essas criaturas?”, pensa o professor. – “Nem se deram conta do bem que fizeram. Que aula!”, diz ainda para si. E o efêmero momento é eternizado. Continua o mestre-aluno: – “Preciso conhecer de perto aquele simpático monstrengo de pedra da Paulista – o ônibus vai longe –, pois é benéfica sua presença ali, a despertar o diálogo entre os homens...”
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Saraiva.

