O que é o Família em Contos?

Família em Contos é um site dedicado à educação, cultura e entretenimento. Missão.
Pais e educadores encontrarão aqui boas histórias sobre comportamento para dialogarem com os filhos de modo atraente e criativo.

O Portal do Professor do MEC incluiu o Site Família em Contos em sua página. Peça também ao seu colégio ou instituição para colocar um link com o Família em Contos!

Qual a tarefa dos contos na atividade formativa?
Acreditamos que os enredos literários, ao saírem do plano cotidiano pessoal para imergirem na trama de outras vidas, provocam o imaginário do leitor e permitem discernir o caráter benéfico ou maléfico de certas atitudes. Com isso, o conteúdo da leitura é transformado em vivência pessoal e contribui para o processo educativo ao colaborar na formação da afetividade de crianças, jovens e adultos.

A Família Larleto é formada pelo casal Júlio e Mariana e seus 8 filhos. Pode iniciar a leitura dos contos por qualquer um deles. Mas, desejando conhecer melhor os membros e o ambiente dessa família, tenha um pouco de paciência e leia os contos iniciais. Não receie ser apresentado ao Zégas, que é bastante aprontão, pois no fundo é um bom sujeito.

Jornais e rádios estão autorizados a utilizar estes contos para fins educativos e de entretenimento, mas devem mencionar que estão disponíveis no site www.famiíliaemcontos.com.br

Busca no site
Livro

Os principais contos deste site encontram-se reunidos no livro Família em Contos, que pode ser adquirido junto à Editora Quadrante.

O Zégas


Tem treze anos e em seus olhos brilham o ardor, o entu­sias­mo e a marrudice. É magrelo de ruindade, dizem. O cabelo castanho claro eternamente indisciplinado referenda-o como cara invocado que não leva desaforo para casa. Acham que tem fogo no rabo, pois não para quieto. Seu português é sofrível e não está nem aí para melhorá-lo, apesar das insistentes cor­reções dos pais (tem vergonha de falar bonito; a turma da rua não perdoa esses tipos).

     Suscetível ao extremo, salta da alegria incontida à casmurrice retida em segundos. É sincero, leal e teimoso... Teimoso mais do que ele só burro velho, bem velho. Não gosta de banho nem de matemática. Tem coleções de tudo: maços de cigarros vazios, caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, selos, figurinhas... Todas inacabadas. Gosta de andar descalço, sem ca­misa e com calção de bolso profundo onde carrega o impensável: bolinhas de gude, pião, fieira, munição de pedras para estilingue e, ultimamente, um pente, porque anda enamorado da atriz que viu na TV (pode topar com ela na rua; nunca se sabe...).

     Durante a semana anda melhor vestido por imposição profissional: é office-boy do Grande Magazine – Loja de Departamentos. Teimou que queria ser bói e tanto fez que obrigou o pai a conseguir mil autorizações para emancipá-lo e poder ocupar o cargo, a título de estagiário, menor aprendiz e outros buracos da lei. O pai permitiu que esse seu rebento trabalhasse para ti­rá-lo da vadiagem, já que estudar não é muito com ele não.

     O nome do moleque? Ah, sim: José. É o encarregado de cuidar do pequeno galinheiro da família, que não lhe poupa, entre outras, das seguintes fainas: recolher ovos, buscar ser­ragem nas marcenarias para forrar o chão sob o poleiro, pegar folhas de verduras em duas feiras do bairro – da Rua Maria José e da Praça Roosevelt – para alimentar o populacho do quintal. E justamente por causa do encargo de cuidar das galinhas é que os seus amigos começaram a chamá-lo de Zé das Galinhas ou simplesmente Zé Galinha.

     Quebrou a cara de vários deles pela troça, e percebeu que depois disso o epíteto se alastrou mais que tiririca em terra adubada; então, deixou de partir para o pau e os amigos, ao perceberem que ele não estava nem aí com a brincadeira, esqueceram do apelido. Para o gasto do dia-a-dia a turma chama-o de Zégas, redução de Zeguinha, ou simplesmente Zé, aliás, o mais utilizado. Esses apelidos extravasaram a esfera do bairro e derramaram-se na empresa. Foi culpa dele mesmo, que organizou um racha de futebol entre as duas turmas. Em casa chamam-no apenas por Zé, ou Zezinho.

     Listar-lhe os defeitos é canja; as virtudes, um aperto. Mas como meter a picareta é fácil, e canseira o edificar, mordo a língua e calo o bico. Que falem os fatos... Leia as histórias no link "Lista dë Contos"





 

Sábado
Abr102010

« Um Caso de Doping »

    É domingo. O Zé acordou cedinho para assistir a primeira missa na Igreja Nossa Senhora Aquiropita. Ao deixar o templo, seus olhos esquivam-se à intensa luminosidade do soberbo dia.

     — Que baita domingão, hein, Aristeu?!

     — Si é... Vamos correr que o jogo vai começar daqui a 15 minutos!

— Vamos sim; mas péra aí.

     Ligeiro, o Zé retorna e abre a porta vai-e-vem da igreja. Dirige-se à capela lateral, à direita da entrada, e ajoelha-se diante da imagem de Nossa Senhora das Dores, tamanho natural, em pé junto ao Cristo crucificado. Reza sem ruído de palavras:

     — Ei, Nossa Senhora, ajuda a gente dar um pau nos caras convencidos aqui da Treze de Maio, tá?!!!

     Embasbacado com a beleza da imagem, ainda que sofrida e vulgarmente pintada, detém-se um pouco... Divaga, ansiando conhecer um bom pintor para deixar aquela imagem tão linda quanto a de uma igreja italiana que viu na revista. Alguém, em murmúrio de reza, interrompe a concentração do Zé:

     — Dona, ajuda nóis dessê o cacete naqueles merdinhas da Santo Antonio!

     É um jogador da equipe contrária, que percebendo a presença de um dos adversários, passa a orar em silêncio.

     Antes de partir, altissonante, o Zé diz:

     — Mãe, não vai na conversa de qualquer um, tá bom?      Tchau... Olha, se a gente vencer não vou na matinê, tá?! — dispara até a rua.

     O rival, só, diante da imagem, hesita... mas promete:

     — Glup... também não vou na matinê. Tchau — e parte fazendo cálculos: — Vou na sessão da noite.

     A Santa, em palpos de aranha com intrincado caso a resolver, acostumou-se ao assédio das crianças do bairro. Como borboletas que adejam sobre as flores, a pirralhada é atraída por aquela imagem: vão a ela participar suas alegrias e tristezas. A beleza do rosto da digna representação torna mais grato o estar ali e acende o diálogo. É a imagem venerada também pelos paroquianos nas procissões da Semana Santa quando, triste e lacrimosa, segue no andor qual barco solitário sobre um mar de fiéis recolhidos em oração. Vai, assim, orientando os passos lentos da multidão de filhos por entre as ruelas da Bela Vista. Todos os homens fortes do Bixiga querem compartilhar da honra de conduzir a marcante lembrança da Virgem Dolorosa, ali tão bem representada, certos de confortarem o coração d’Aquela que os olha enternecida do seu trono infinito.

     No campinho de terra batida, num baldio e perdido terreno das quebradas do bairro, cada equipe dirige-se, ardorosa e entusiasmada, ao vestiário que lhe toca. A turma da Rua Santo Antonio serve-se da goiabeira. Despidas as roupas e dependuradas nos seus galhos, a velha árvore ornamenta-se como um porta-estandarte de bandeiras multicoloridas, ostentando pobres vestuários panejantes que prenunciam o início de um grande espetáculo; pavilhão esse não menos surrado que o uniforme do time. A turma da 13 de Maio usa os pés de mamonas no outro extremo do terreno, mais escondidos dos olhares indiscretos da rua.

     Poucos minutos e as equipes iniciam o aquecimento em campo. O tapeceiro Seu Osvaldo, técnico da Santo Antonio, dá as últimas instruções aos seus jogadores. A vizinhança apinha-se nas laterais e linhas de fundo. Reluz ao sol a taça de fraco latão oferecida pela Quitanda Ultra-Marina. Seu Montezano, velho imigrante italiano, obeso ao extremo, distribui balas aos torcedores de ambas as equipes sem nunca deixar um cigarro aceso desalumiar sua boca: com o último pito do cigarro anterior acende o seguinte, e assim dispensa fósforos. Seu Geraldo, mulato boa gente, dono de um barzinho na Rua Santo Antonio, em cujos fundos reside, ensaia sua torcida:

     “Au, au, au, a Treze vai levar um pau”; “Asa, asa, asa, e vão perder o rumo de casa”; “Ão, ão, ão, eles vão lamber sabão”; “Riu, riu, riu, eles vão todos pra...”

     — A torcida adversária protesta e não deixa terminar a última rima.

     O árbitro do certame, alcunhado de Chiclé de Onça, ou Estrela D’Alva (porque, de tão negro que é, faz reluzir esplendorosamente seu único dente), chama os capitães contrincantes ao centro do gramado ainda por nascer. Gesticulando forte, indicador hirto, toca as narinas dos chefes das equipes estabelecendo as regras do jogo. Tudo pronto. A turma da Santo Antonio, tensa, não pode perder essa final com a Treze: sonham acabar de vez com a empáfia dos rivais, sempre cacarejando feito galinhas chocas as vitórias sobre as demais equipes do bairro.

     Tem início a partida. A bola, feito pipoca em panela quente, sobe, desce, rola, pula, espirra, salta, repica, indo de um canto a outro do terrão. Quando a redonda cai num quintal vizinho, coloca-se em jogo a bola reserva, e um torcedor da equipe proprietária da prenda extraviada vai resgatá-la, politicamente ou na surdina. A ânsia de tocar na esfera de couro leva companheiros e adversários a se amontoarem onde ela quica: é a fome de bola, termo familiar entre futebolistas.

     Na assistência, expectativa e silêncio; no campo, berros de ultrajes e vitupérios. A xingação é total: xingam os adversários — e como! Xingam-se não menos os companheiros de equipe. A marcação é cerrada: homem a homem, digo, moleque a moleque. Chuta-se a bola e chuta-se prodigamente — que é termo mesquinho para o caso — os adversários.

     A batalha campal é renhida e a torcida delira. Na arena, um poeirão danado forma espessa nuvem que traga os jogadores. Terrível momento é esse! O juiz nada enxerga e perde o controle da partida. Os atletas aproveitam o sublime instante e acertam as diferenças. Em meio às prensadas, bombas e bicos dados na bola que bate, rebate e explode nas costas, rosto e... mais abaixo do umbigo de quem estiver na frente, ouve-se igualmente sons de tapas nas orelhas, socos nas costas, chutes em todas as partes — exceto na bola. Tudo é feito com maestria e catimba. É a hora dos acertos! De fora ninguém vê; de dentro ninguém reclama.

     Contas ajustadas, que o fátuo orgulho exige, o jogo abre-se e é obsequiado à platéia verdadeiro espetáculo futebolístico, farto em gingas, controles, matadas no peito, lançamentos em profundidade, dribles com bola e sem ela, cabeçadas precisas, bicicletas, batidas de sem-pulo, trivelas, chaleiras, chapéus, etc. O volante da Treze, crioulinho franzino e habilidoso com a bola, dá muito trabalho:

     — Só no tranco ele arrega! — berra o técnico Seu Osvaldo, alertando para o único modo de neutralizar o quiabo do crioulinho, que desliza por todo mundo.

     Mais pancadas, empurrões, cotoveladas, camas-de-gato e paulistinhas são distribuídos sorrateiramente. A instintiva contabilidade — débitos e créditos — indica diferenças a acertar. Inicia-se o ritual de ajuntamento em torno da bola. Sobe o danado do poeirão e sons estranhos atingem os delicados ouvidos do Chiclé de Onça que, desesperado, tenta penetrar na grossa cortina de pó para acompanhar de perto os lances. Sua passagem é habilmente impedida. O árbitro corre aqui e acolá; gira em círculos e brecha alguma o convida à cerimônia do arranca-toco. Quando a duras penas se mete no furúnculo, a bola, feito carnicão lancetado, espirra como pus pelo buraco da agulha, indo correr solta e lépida pelas laterais do campo. Abre-se o jogo.

     — Piiiuuuuuuuu — apita o Estrela D’Alva. Vamus virá, pessoal! Tem quinze minutaços de descanso!

     Hora e meia de acirrada disputa com sol a pino, ardente. Os sequiosos atletas desaparecem no encalço de qualquer líquido que lhes mate a sede. A torcida toma conta do campo para um bate-bola descontraído, momento em que o Sarampo de Sapo recolhe as apostas.

     O Zé pede emprestada a bicicleta para o Galeano e voa até em casa. Sabe que no domingo seu pai compra refrigerantes para o almoço. Aterriza sujo, suado, esbaforido e muito apressado:

     — Oi, pai; oi mãe?!

     Alma nenhuma responde. Júlio neste momento acabara de preparar um cuba-libre e fora ao quintal chamar Mariana:

     — Maroquinha, venha provar o cuba-libre! Carreguei no rum porque seu irmão gosta dela mais forte...

     — Já vou, Júlio... Antes, veja quantos botões há nesta roseira!

     Enquanto marido e mulher entretêm-se no canteiro, o sôfrego filho, de ressequida boca, sorve num só gole a jarra da bebida, julgando ser apenas o refrigerante cola, com o gosto ligeiramente alterado pelo pó em sua língua (o drinque lhe é desconhecido). Bebe e dispara até o campo.

     Júlio e Mariana retornam à cozinha:

     — Mari, a jarra está vazia!

     — Ju, não precisava beber tudinho , né?! — brinca a esposa.

     — Mmm... mas Mariana, será que o seu irmão já chegou?

     Ao procurarem os inquisidores explicação plausível para a súbita evaporação da bebida, nem desconfiam do estranho fenômeno que se dá com o filho! Pedalando de volta ao campo, o moleque invade de bicicleta e sem pestanejar a Cantina Cacciatore. O garçom, assustado, salta sobre o balcão com a bandeja de talharim fumegando e se põe a gritar com repentino acesso de labirintite.

     Após as desculpas de praxe, o Zé engarupa-se na bicicleta e parte. No percurso até o campinho tromba com dois postes que teimosamente não saíram do caminho, bate no carrinho de feira da dona Concheta, cai sobre um carro estacionado junto à calçada, passa entre o Valtão e a Ana que, distraídos e agarradinhos, caminhavam lambendo sorvetes. Chega, enfim, ao campo com bolas de sorvetes escorrendo pelas costas.

     — Zé, que demora! Só faltava você, pô...

     — Des-hic-culphic, Chiclé. Pode come-hic-çar.

     Reinicia-se a partida. Algo inusitado ocorre com o beque-central da Santo Antonio, antes tão rijo, jogando duro, marcando com decisão; agora extenuado, débil, trôpego e arquejante, cai ao menor esbarrão. Fatigosamente se levanta e cambaleia com o peso da cabeça que o leva corcunda para frente até lançá-lo por terra. Põe-se em pé, ajudado pelos amigos, mas suas pernas não suportam a carga e, envergando-se, deitam-no por terra novamente:

     — Vamos lá, seu molão! Tá afinando, hein! — grita um torcedor.

     O jogo é interrompido. Olhares atônitos cravam-se no Zé, desfalecido. Alguém diz:

     — Xi, pessoal, isso é de bebedeira!

     A equipe da Treze de Maio destaca uma comissão de peritos para cheirar a boca daquele que, esgotado, jaz sobre o terrão:

     — É pinga mesmo, turma! Ele tá topado — conclui um dos experts.

     — Iiii, é um caso de dropis — adverte o capitão adversário.

     — Não é droping não, seu bunda-mole — sai em defesa o Zé Fofinho, capitão do elenco Antonino.

     — É sim, seu gororoba de lesma — replica o capitão da Treze. — Nóis vai colhê o mijo dele numa lata e levá pro japonês da farmácia analisá.

     — Vocês tão enfrescando porque a gente tá jogando melhor. Ocêis tão é com medo de apanhá no jogo! — protesta Curió, volante da Santo Antonio.

     — É isso aí. Não vêm com essa conversa mole de droping, não, pra anulá o jogo. Foi muito sol na cabeça do Zé que deixou ele assim todo mole.

     — Sol?! Ele tá é fedendo a pinga! Chera a boca dele! — afirma outro perito agachado junto ao Zé.

     Quatro jogadores da Santo Antonio se alternam, socando o nariz na boca dissonante que lhes sorri placidamente. Calados, entreolham-se com o veredicto do exame in pectore: álcool!, que tresanda por todos os poros. Porém, apenas um porta-voz é autorizado a exteriorizar o combinado por meneios hipócritas de pestanas:

     — Tá cherando álcool nada. Isso é chero de água, viu.

     — Chero de água?! Deixem de papo-furado; água num deixa ninguém desmaiado no campo.

     — Num tá vendo que é água com muito sol na cabeça, seu estrume de bode!

     Um torcedor quase compromete as negociações ao levantar as pálpebras do Zé e observar:

     — Ói só, pessoal!, tá até com os olhos virados!

     Enquanto peritos de cada equipe esgrimem teses contrárias quanto aos efeitos da água com o sol, a torcida impacienta-se e grita embravecida:

     — Seus atréta di araqui, vão continuá esse jogo ou num vão?

     — Joga, joga, joga — berra um corinho de assistentes na lateral.

     Pressionado pela galera, o juiz resolve dar o veredicto derradeiro:

     — Bem, pessoal, só jogamos cinco minutos do segundo tempo quando se deu esse caso de droping. Além disso, o jogo tá zero a zero. Vamos carregá o Zégas pra fora do terrão e continuá a partida. Tá dicidido.

     Carregado pelos pés e mãos em suposto estado de doping, o Zé é deixado inerte no capim fora do campo. A equipe da Treze desautoriza a substituição do combalido atleta, tido como expulso do jogo.

     A peleja reinicia. Segue... Continua seguindo — o cronômetro, o relógio da fábrica de amendoim do Chalupa, marca mais de uma hora ininterrupta da última etapa do jogo. Epa, opa!, os Antoninos roubam a bola e vêm retornando em magistral contra-ataque!, trocando passes rápidos. O ponta-direita Genarino faz um certeiro cruzamento da redonda até o centro da área e Jabá sobe finalizando de cabeça e gooooooooooooolllllllllllllllllll!!!! Gooolll, goooollll, gooooooooooooollllllllllllll, minha gente... Desculpem-me. Isenção. Isenção. Recomponho-me. Apenas narro e não torço para ninguém.

     Golaço, golaço mesmo! Foi lindo, lindo, minha gente. Puxa, até que enfim! O centro-avante Jabá concluiu de cabeça em lance in-de-fen-sá-vel! Colocou a bola no ângulo esquerdo do goleiro Juba-de-leão. Cabeceou forte, como exige a boa técnica. Subiu alto e deu com a testa para baixo, olhos abertos, desviando ligeiramente a cabeça para a redonda entrar no canto oposto ao goleiro. Vai buscar a gorducha lá dentro, no fundo do mato, já que não há rede entre as traves feitas com os bambus remanescentes da quermesse da Aquiropita.

     A Treze de Maio não perde tempo e recoloca a bola no meio do terrão. Dá a saída e faz serenar a torcida adversária. Mais meia hora de jogo e o árbitro apita o final da partida:

     — Piiiiuuuuu!

     — Viva, gaaanhaaamooosss!!!

     Explode dos peitos vitoriosos incontida alegria. O placar, um caixote de feira escrito nos quatro lados, registra a carvão o resultado do jogo: 1 X 0 para a Santo Antonio. A honra do feito ficará registrada até a primeira chuva, diluente cruel do pó de carvão e da pobre memória.

     Se no Bixiga até o trivial convida ao batuque, supimpa é o momento em questão, que conclama por um bom couro curtido e afinado. Mas, como a molecada não dispõe desse privilégio da Vai-Vai, a ritmada percussão ecoa de latas vazias, pedaços de cano, caixas de madeiras, garrafas e frigideira velha. Liberta-se o passista e batuqueiro que habita as entranhas de cada um. O momento exige comemoração. Seu Geraldo, nos seus 70 anos e tijoladas, é só viço de juventude.

     Os viralatas que acompanham os jogadores das duas equipes abandonam as laterais, donde sentados sobre os rabos apreciavam atentamente a peleja, e invadem o campo para farrear. Correm aqui e acolá, giram em círculo, saltam, ladram, brincam de pegador.

     — Toco, seu cachorro fresco, vem aqui!

     O tom imperativo do seu albino dono — disfarçado pelo apelido de Alemão — faz o pobre cão rastejar vagaroso, orelhas caídas, rabo espanando maciamente a terra e ar de profunda e mal entendida humildade — misto de coitadinho com idiota —, em perfeito subterfúgio para provocar a compaixão do amo e amainar-lhe a ira em efervescência:

     — Toco, seu besta, por que você fica farreando com essa cachorrada traçoeira? Quer festejar a vitória desses ladrões, hein? Num tá vendo que esses cachorros são do time adversário, seu pulguento!

     Cabeça e focinho pousados na terra numa hipócrita subserviência e falsa contrição, Toco levanta as orelhas à meia altura como mostra de boa vontade e perfeito entendimento de tão sábia e acurada observação. A partir desse momento, passa a rosnar aos cachorros que o instigam a brincar de pegador ou lhe vêm cheirar suas partes íntimas.

     Os festejos atingem o ápice na entrega do troféu e das medalhas em cerimônia protocolar. Em formação horizontal, os vencedores cumprimentam a alardeante torcida de um lado e de outro e dão a volta olímpica no campo com a taça alçada nas mãos do capitão Zé Fofinho, tudo como manda o protocolo. A galeria de troféus do time, uma cabana encravada na cumeada da estrutura de um outdoor junto a um terreno baldio da Rua Santo Antonio, ver-se-á acrescida de mais esta glória que fará titilar de emoção as almas dos conquistadores que nela se entocarem para pitar o estoura-peito guardado no cofre — uma lata vazia de cera em pasta.

     Os trocados arrecadados na vaquinha obsequiaram meia dúzia de refrigerantes, suco em pó artificial e pãozinho sem recheio. Um desprendido torcedor ofertou seu saquinho de paçocas e tudo foi disposto sobre o caixote-placar que anuncia o resultado da partida, agora servindo de improvisada mesa. A comemoração mergulha tarde adentro até que seres indesejados — irmãs e tias — requisitam asperamente os garotos para o frio almoço que há horas aguarda por eles. A sujeira impregnada em tão bravos lutadores credencia as emissárias a distribuírem pescoções em nome da autoridade paterna. E assim se conclui que o mundo não foi pensado para os moleques e que os adultos só valorizam o que lhes interessa e pouco se lixam para os valores da pirralhada.

     Cinco horas da tarde. O restante da equipe resolve deixar a arena, quando alguém lembra:

     — Ei, cadê o Zégas?

     — Xiii, esquecemos ele ali no matinho!

     O time vai ao capinzal onde o Zé dorme como um belo-adormecido. Ronca. Um gafanhoto intrometido faz reconhecimento de área no rosto dorminhoco e salta fora ao sentir a aproximação da turma; o grilo insiste em ficar e é despachado com um tabefe.

     — Zé... Zé... Acorda, ô meu!

     Morfeu, o deus do sono, tirou-lhe a seiva do boliço e detém o garoto inerme em seus braços.

     — Vamos lá, velhão, ganhamos o jogo!

     — Zzzzz, zzzz, zzzz...

     — Chacoalha ele!

     Não adiantou.

     — Belisca o saco dele que ele acorda...

     Também não fez efeito.

     — Pessoal — diz Zé Fofinho —, vamos carregar o Zé até a casa dele.

     Em clamores triunfais, e ao desespero do vira-lata Babaréu que não entende o ocorrido com o seu dono, o préstito, ébrio de alegria, desce as ruas do bairro com dois troféus: a taça de latão que rutila no dourado pôr-do-sol, e um bravo guerreiro ferido em combate sendo carregado pelos pés e mãos por companheiros de luta. A campainha toca. Mariana vem atender. Um grito! A mãe julga ter o filho sofrido grave acidente. Júlio corre até a porta e todos os garotos falam ao mesmo tempo:

     — Seu Júlio, não sabemos...

     — É, sim, seu Júlio, alguma coisa aconteceu com o Zé...

     — Dropis, viu...

     — Acho que foi a tal de tsé-tsé que picou ele...

     — Calma, calma, pessoal; fale um de cada vez — diz Júlio.

     Zé Fofinho, com a autoridade que lhe dá ser um craque de bola, narra o ocorrido e informa acerca do laudo pericial da comissão técnica, que fechou questão no diagnóstico do Zé: bebedeira, e da boa!

     — Ah, então foi ele! Tudo bem, senhores, já sei o que aconteceu com esse malandro: o Zé bebeu uma jarra de cuba-libre pensando que fosse refrigerante!
     
     — Ôôô doido, seu Júlio, então foi isso! — admira-se Jabá, que faz bico no bar do seu Geraldo.

— Obrigado, pessoal. Pode deixar que eu cuido deste zé-pinguinha... Ah, quanto foi o jogo?

     — Ganhamos de um a zero! — respondem em coro.

     — Parabéns, turma.

     — Tchau, seu Júlio. Passa lá em casa, viu, que o meu pai quer mostrar pro senhor o novo curió!

     — Vou sim, Zé Fofinho. Diz pro Seu Osvaldo que amanhã passo na tapeçaria pra ver o avinhado, e também os pintassilgos.

     Júlio conduz o filho diretamente ao chuveiro, despe-o e lhe dá um banho gelado. O ralinho por onde escoa a água fica comprometido com tanta poeira que saiu do Zé.

     Ainda dormindo, o garoto é reclinado na cama. Todos os irmãos acompanham o traslado. O pai afaga os cabelos úmidos do filho e ajeita os cobertores.

     — Pai, o Zé vai morrê?

     — Não, Glorinha. Ele apenas dorme.

     — Júlio, vamos pedir ao Neno que examine o Zé? Talvez fosse bom aplicar no menino uma injeção de glicose!

     — Não é o caso. A pulsação dele é boa, o rosto tá corado e ele respira bem. Um bom sono o recuperará.

     Um estupendo sono! O Zé hibernou até a noite do dia seguinte, perdendo o feriado de segunda-feira. Acordou com boca amarga e enxaqueca:

     — Ui... Mã, tô com fome!... Epa, o que aconteceu? Que dia é hoje? A gente não foi jogar bola? Ui...

     — Calma, filho — diz Mariana. Tome este comprimido com vitamina de abacate. Já conto tudinho o que aconteceu.

     — Ui... ai... E o quê aconteceu, mãe?...

     — Era uma vez um pirralho enxerido que, estando sedento, não pestanejou em emborcar meio litro de rum!

     — Ô, doido, mã, que moleque pinguço, não?

     Atento à narrativa, o Zé vai se deliciando com a medicação.

     — Pois é... Então, como esse moleque gostava pra chuchu — como dizia ele — de jogar bola...

     — Qui nem eu, mãe?

     — É, que nem você... Como dizia, esse moleque que gostava pra chuchu de jogar bola, tinha uma importante partida, e quando a turma mais precisava dele, sabe o que ele fez?

     — Nossa, mãe! Tomou um porre, né?

     — Exatamente, garoto. Quando o time da rua mais precisava dele, cadê ele?

     — Ah, ah, ah, tava todo babado e arriado de pinga, né?

     — É... Pura e simplesmente, é.

     — Que idiota é esse moleque, não, mã?!

     — ... Bem, digamos, imprudente.

     — Qui imprudente, nada, mã; é um idiota mesmo.

     — Por quê?

     — Por quê? Ah, vá, mãe, num tá vendo, não? A senhora não disse que ele tinha um bruta dum jogo com o time da rua?

     — Tinha.

     — Intão, intão, só um idiota-cabeça-de-bagre enche o caneco de pinga num dia assim!

     — É, você tem razão, ele não poderia ter agido assim...

     — Claro que não. Idiotão!... E como se chamava esse cabeça de pudim idiota, mãe?

— Quer saber mesmo?!

          — Ô, se quero! Conta, conta que vou falá prá todo mundo lá na rua!

     — Garoto, acho desnecessário, pois todos conhecem o fato e o tal pirralho! Além disso, é melhor não alardear o que deve ser esquecido.

     — Tá bom; não sou cagueta. Mas qual o nome dele; quero ver se conheço o peça rara.

     — Se você conhece ele? Conhece, sim, garotão, e muito bem...

     — Ah, é? Legal! Então conheço o cabeça-de-bagre!

     — O nome dele é José!

     — José? Mas tá cheio de José aqui no bairro, mã.

     — Mas ele é o José, filho da Mariana.

     — Xí, não conheço, não.

     — Conhece sim. O pai dele se chama Júlio!

     — Ah, vá, qui nem nóis?

      — Que nem nós, não! Exatamente nós. Você conhece esse menino: ele se chama José Larleto, e é o meu fiinho.

     — Queeemmm, eeeuuu???


Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.