« O Carinho »
O Zégas não tinha o que fazer, e cismou passar o batom da mãe no focinho da sua cadela Diana.
– Arreda o pé, seu moleque de rua... Suma daqui com essa vira-lata! Não vê que estou limpando a sala? – diz-lhe a irmã, atarefada.
– Mas Ciça, a Diana também é mulher e gosta de passar esses trecos na cara!
– Anda, anda... Leva essa solta-pelo pra fora... E deixa a mãe ver o que você fez com o batom dela!
Certo de que nada mudará o parecer de sua irmã Maria Cecília, o Zégas vai à cozinha, de onde principia um berreiro. Ciça colhe o pau de vassoura detrás do guarda-roupa e parte resoluta para as bandas de onde vem o choro. O Zé, junto à soleira da porta de acesso ao quintal, está pronto para correr ao menor avanço da irmã.
– Zé, você acordou mesmo com o diabo no couro. O que você fez pro Tonico chorar assim?
– Nada... – e emburrado fita o chão traçando desenhos com o dedão do pé.
Continua:
– Tirei dele a minha caixa de sapatos com figurinhas... – azedo, o Zé faz bico de palmo e meio.
– Ah, é! Então fique com essas porcarias de figurinhas; engula todas elas. Venha, Tonico; deixe esse monstro fuinha se deliciar sozinho com essas drogas de figurinhas velhas.
– Ciça, Ciça...
– Tô aqui, Glorinha; que é?
– Óia o que o Zé fez na tlança da minha boneca: deu nó!
Antes de a irmã desviar os olhos da boneca, o Zé perambula solitário no quintal, dentro do seu enorme calção branco, descalço, e sem camisa. Vagueia e vagueia. Pára, apanha um graveto no chão e quebra-o em mil pedaços. Olha emburrado para a irmã, que desistiu de sair ao encalço do arteiro por antever o insucesso da empreitada, já que nada há mais ágil do que o irmão para trepar muros e correr sobre eles, cruzando os quintais da vizinhança até chegar rapidamente ao campinho de futebol... Mas a irmã corrige o pensamento: – “Há, sim um ser capaz de alcançá-lo: o Babaréu” – seu vira-lata, cão rafeiro e cupincha demais para traí-lo.
O Zé continua no quintal. Chuta a bola murcha com a qual treina o Babaréu no gol – o cachorro faz às vezes de goleiro da turma na ausência de alguém mais sacrificado. Emburrado, com cara de abscesso purulento que necessita ser lancetado, senta-se no chão, recosta-se no muro e passa a atirar pedrinhas no ganso Pilantra e no seu apaniguado, o garnisé Teobaldo, que rodeiam o garoto com intenções bélicas para afirmarem o senhorio sobre o território invadido. Na dolência da tarde, o Zé arrasta-se entre os pés de milho. Só, abandonado, curte o sono triste dos que se fecham em si mesmos.
O domingo chega ao fim. A balança da justiça não pende favorável ao Zé, que se deixou levar por sentimentos perigosos – misto de solidão, tristeza e tédio –, acumulando débito com todos, até com o Augusto, que desconfia ter sido ele quem amarrou a trouxa de roupas sujas com a sua gravata.
Pouco antes de deitar, o Zé conclui as derradeiras tarefas do dia, sussurradas por um capetinha. O risinho torto e o olhar esquivo, assanhado, foram os sinais eloquentes da aceitação do encargo. Resultado: neste domingo à noite, certo alvoroço tomou conta da rua. O Zé, em sua cama, ouvidos atentos, finge dormir. Lá fora um tumulto de vozes indignadas protesta contra o engraçadinho que amarrou um barbante fino e preto, transversal à calçada, entre o portão da casa da Zóca e o poste junto à guia da calçada, na altura de uma pessoa média. O barbeiro Zé do Calo, vindo da padaria pouco sóbrio, não percebeu o invisível fio na escuridão da noite, e sentiu algo lhe penetrar na boca; ao saltar de retro viu arremessada ao longe sua dentadura. O pobre homem passou a desferir socos em todas as direções que a bebedeira lhe sugeriu. Por tudo, desejava acertar o idiota que julgou ter subitamente enfiado o dedo em sua goela. Retornou ao balcão para refazer-se do susto e enfrentar a estranha noite. Minutos depois, a viúva Dorinha voltando do bridget na casa da Biló, sentiu alguém puxar-lhe a peruca; ao virar-se para trás viu seus cabelos misteriosamente bailando no ar. Aterrorizada, pensando ser obra do demônio, a infortunada mulher não gritou, apenas desmaiou de pavor, e foram necessários cinco homens para carregá-la até sua casa.
Acabado o solitário fim de semana do Zé, começa a segunda-feira gorda, impiedosa, carregada de fainas e boliços. No Grande Magazine enviam o bói do Departamento Pessoal até Osasco. Ao regressar, o ônibus vem lotado. Em pé no corredor, o Zé desvia o olhar da paisagem externa, pouco atraente, e o põe nos passageiros. No banco em frente ao seu umbigo, vai sentada uma jovem mãe negra com dois filhos: um garotinho de um ano e meio no colo – que faz o Zé se lembrar do seu, todo seu, Tonico; e outro de mais ou menos seis anos, que está com os braços cruzados sobre o friso da janela e o queixo descansando sobre eles, tendo o olhar fixo no infinito, bem depois do vidro.
Junto às margens do Tietê, um cheiro de águas podres e pestilentas invade o ônibus. A mãe diz ao filho maior:
– Esse cheiro dá dor de cabeça – e filtra o ar do pequeno cobrindo-lhe suavemente o rosto com um alvíssimo pano retirado da sacola. O mais velho, ainda na janela, enfia o nariz debaixo da gola da camiseta. O Zé aproveita a sugestão e prende a respiração até não suportar mais, quando muda de tática enterrando o nariz no sovaco do braço que tem a mão agarrada ao cano do teto do ônibus, utilizando, assim, o tecido da camisa do uniforme como filtro de ar.
Dependurado, mal conseguindo equilibrar-se em um braço, e tentado segurar a surrada pasta de cartolina com o outro, o Zé é arremessado contra um crioulo forte, barba de dois dias, que se irrita com o motorista que freou o ônibus bruscamente para evitar atropelar um cachorro magro e sarnento, desiludido da vida, que atravessou a avenida fitando melancolicamente o ingrato chão que durante todo o dia nada ofertara ao seu pobre estômago:
– Calma aí, motorista, tu não tá carregando boi, não!
– É isso aí – apoiam anonimamente alguns passageiros.
Ao retornar à anterior posição, o Zé observa os dois irmãos: o pequeno brinca com o pano tirado do rosto, solta-o e toca com suas mãozinhas as costas do mais velho, ainda fitando lonjuras. Não satisfeito, o pequeno põe-se em pé no colo da mãe e desliza o seu minúsculo indicador no friso da gola da camiseta do irmão, num incansável movimento de vai-e-vem. Depois, acaricia-lhe os cabelos tão ternamente que o Zé, contemplando a cena, tem os sentimentos atingidos de comoção profunda, que o fazem feliz na felicidade do outro.
– Jesus, não deixa esse menininho ser tão besta como... como... eu, tá? – reza por dentro o Zé.
A mãe, compenetrada de amor, não desatenta seu olhar dos filhos, e estampa plácido sorriso nos lábios unidos e esparramados no rosto.
Um nó constringe a garganta do Zé, que considera como tem sido com o seu Tonico... Quando aquele menininho diante dele põe os braços em volta do pescoço do irmão e apoia o rosto na sua nuca, aquietando-se nessa posição, a compunção faz derramar duas lágrimas do Zé, que escorrem pelo rosto e são tragadas em sonora fungada. Brotam-lhe mais dessas gotas divinas, que também são lambidas para não se denunciar tão choroso. O Zé continua observando os dois irmãos, quando o mais velho corresponde ao carinho do pequeno pousando a mão sobre os bracinhos que o envolvem, sem tirar o olhar dos distantes mundos que o magnetizam.
A afabilidade com que o irmão trata o pequeno faz o Zé examinar-se e dizer para si:
– Puxa, vivo brigando com os meus irmãos por coisas tão bestas.
Então seus olhos destilam mais desses pingos que têm o dom de reparar as feridas que causamos. O Zé tenta segurá-los. Mas, como são muitos, desiste e deixa-os trilhar o curso natural, até caírem na perna do velho que dorme indiferente àquela belezura da vida, e que vai sentado no banco detrás da mãe com as crianças.
O Zé não desgruda a atenção dos dois irmãos. A figura do pequeno Tonico volta a preencher-lhe o pensamento e arranca palavras de sussurro:
– Tonico... meu Tonico, não vou brigar mais com você...
O pequeno Tonico, que tanta afeição tem pelo Zé, sempre leva a pior nos negócios que tratam.
– Sou um trapaceiro; sou um desgraçado; sou um, um... noveguets-noguts – seu velho e mágico palavrão que o livra de qualificativos que não consegue encontrar.
Ao chegar na empresa, o Zé pede à Dona Maria que o dispense mais cedo, pois pretende resolver um assunto pessoal antes de ir à escola. Autorizado, parte pressuroso até sua casa. Não aguarda o ônibus por achá-lo vagaroso demais e, sob as esporas do arrependimento, vai o corcel. Segue “cortando por dentro”, indo para o Bixiga pela Barão de Itapetininga, Praça da República, Avenida Ipiranga, Praça Roosevelt, Viaduto Martinho Prado, mergulhando na Santo Antonio.
Irrompe em casa.
– Tonico, Tonico, me dá um baita dum abraço! – e se põe de joelhos à altura do irmãozinho, que abandona as bolinhas de gude do Zé e corre para abarcá-lo nos seus braços pequeninos.
– Aperta mais, Tonico...
O Tonico aplica toda sua força... Ah, que felicidade sente o Zégas de ter um Tonico só para ele, e pensa: – “Coitado do Eduardinho; não tem nenhum irmão... Aaah, como a vida é boa, apesar da matemática”.
O Zé chora e se inquieta por instantes, já que nunca é visto assim. Então diz para si mesmo:
– Que se danem se me virem chorando e me chamarem de marica; dou um cacete no primeiro que se meter comigo!
E deixa que as bestas de umas lágrimas tracem o caminho desejado.
– Tonico...
– Quê Zé?...
– Pode de ficar com as minhas bolinhas de gude, viu... Fique também com a caixa de figurinhas, com o pião vermelho e com a coleção de maço de cigarros. Tudo qui é meu é teu, tá bom?
O Tonico não se abala com o repentino altruísmo do Zégas e nada responde. O momento é inefável! Como é bom ter nos braços esse irmão feito o vento, sempre correndo, entrando, saindo, escapando-lhe, enfim. O Tonico tem o rosto enterrado no pescoço do irmão; não quer mexer-se para não desvanecer o presente sonho, tal como ocorre quando tenta apreciar de perto as lindas borboletas que adejam sobre as flores do jardim, ou os pássaros coloridos na pequena horta do quintal – sim, apenas admirá-los –, mas um movimento à toa e zás!, tudo dissipa-se restando apenas o encantamento na solidão.
O Zé ergue-se demoradamente; também não quer perder o Tonico. Vão calados até o quintal. O sol se despede da tarde. Uma cor violácea dá lugar a um prateado indizível. O majestoso astro vai repousar após um laborioso dia na casa dos Larletos: agasalhou as crianças, aqueceu as plantas do jardim e da horta, secou as roupas do varal, deu claridade para economizar luz elétrica, aqueceu os ovos no galinheiro e no ninho de pardais escondido no miúdo milharal, com três ovos do casal e um de chupim; enxugou os patinhos que se banharam na poça de água que o Zé lhes fez... – “Se o sol é tão bonito – pensa o Zé – como não será Aquele que fez ele!”. Ali no quintal tudo se argentara; a goiabeira parece noiva enfeitada de branco reluzente. A vida declina e as galinhas cacarejam nos poleiros os derradeiros assuntos do dia. Apenas os patos em seu desengonçado caminhar ainda zanzam mais um pouco no quintal, em ameno bate-papo pós-jantar.
– Tonico...
– Huumm...
– Você qué o meu pineuzão de carro?
– Qual peneu, Zé?... O careca?
– Nãaaooo!, aquele pineuzão novinho que só tem um furo na banda!... Aquele que eu só uso nos domingos pra não gastar.
O Tonico não dá resposta. Sente-se mais rico com o que tem entre os braços: o seu Zeguinha; o seu herói!; o menino mais forte da rua; aquele que mais sabe andar sobre os muros carregando-o no cangote quando a Ciça o procura para o banho; aquele que ganha todas as corridas em torno do quarteirão, e quem lhe dá – só de vez em quando –, um teco de sorvete; aquele que o leva pra engraxar sapatos lá na esquina da padaria, juntinho da Santo Antonio com a Treze de Maio; e que tem o mais veloz carrinho de rolimã do bairro...
– Tonico, todo esse quintal é seu...
– Bigado, Zé...
– Pode ficar também com o meu garnisé, o louro e o ganso Pilantra.
– O ganso num goito dele, Zé; é muito brabo e me bate quando venho sozinho aqui no quintal!
– Ah, é?! esse ganso bate em você? Só de marra vou deixar a mãe assar ele... Quero ver ele bancar o valentão com você. Vamos comê esse desgraçado de ganso com molho de tomate, tá bom?
– Ô si tá...
– A goiabeira também é sua, viu Tonico...
– Zé...
– Huumm...
– A goiabeira não é do Guto?...
– ... Xiii, é mesmo.... Mas o Guto ficou velho; já não liga pra ela e não vai ligar que eu dei ela pra você.
– I si eli num dé?
– Quebro a cara dele, tá?
– O si tá...
O diálogo dos dois irmãos lá no fundo do quintal é terno, interrompido de silêncios. Seus corações se tocam. O Tonico, com o rosto ainda enterrado no pescoço do irmão, não quer ter olhos para mais nada.
Neste instante, Ciça vem à cozinha à procura do Tonico para banhá-lo, e vê os dois irmãos abraçados no quintal em patética cena. Sorri – tem o sorriso da mãe, dizem – e acha que o banho pode esperar. Retorna e adianta outras tarefas. Ao passar pela sala lança um olhar à pequenina imagem da Senhora Aparecida que preside a casa, pisca e sorri a Ela com o mesmo sorriso de momentos antes, agradecendo os irmãos que tem, até porque não dá para trocá-los por outros.
Júlio retorna do trabalho e vai à cozinha cumprimentar a esposa, que acabara de chegar ali, e a vê em pé, silenciosa, recostada no umbral da porta, contemplando a atmosfera de afeição dos dois filhos. Júlio compreende tudo. Sem ruído, aproxima-se e apoia seu forte braço sobre os ombros de Mariana, que tem um leve susto, sorri e cinge também com o braço a cintura do marido.
– Mariana, preciso ter uma boa conversa com o Zé. Ontem fiquei nervoso ao saber das traquinagens dele e achei melhor nada falar até me acalmar. Quero falar a sós com ele: de homem pra homem. Refletiremos juntos.
– Vai ser bom, Júlio; ele vai ouvir você... Sabe, outro dia perguntei ao Zé qual era o melhor amigo que ele tinha: o Aristeu, o Tico, Brachola, Pelé, o Zé Fofinho, Cebola? Queria que convidasse um para almoçar com a gente no domingo... Advinha quem ele disse que era o seu melhor amigo?
– O Aristeu?
– Não!
– O Brachola?
– Não.
– Puxa, Mariana, o Zé tem tantos amigos... Eu desisto...
– É você, bobinho!
Júlio sorri, beija a esposa e pergunta em sussurro:
– Mas o Aristeu não almoçou conosco no domingo passado, Mariana? E também o Zé Fofinho, o Brachola e o Tico?!
– Sim, almoçaram! Mas é que depois da resposta o Zé me pediu que deixasse convidar os outros amigos! Foi só “botá mais água no macarrão”, como dizem aqui no Bixiga.
– Água no feijão, Maroquinha... Então foi por isso que tivemos tão ilustres convidados... Maroquinha, parece que ele está bastante arrependido de se ter isolado dos irmãos. Ao entrar encontrei uma boneca na porta do quarto das meninas. Acho que o Zé pediu um adiantamento de salário e comprou esse brinquedo. Quando a Glorinha acordar vai ter uma surpresa!
– Júlio, a vida tem sido tão dura pra nós... Às vezes fico preocupada... Podemos dar tão poucas coisas a essas crianças... – Mariana aperta o rosto contra o ombro do marido com leve ameaço de choro.
– Não se preocupe, Mariana, eles são felizes; têm o principal: você, eu, os irmãos.
– É verdade; também sinto isso, Júlio.
Ambos silenciam e pousam os olhos nos dois filhos, sentados no cocho das galinhas.
– Mariana, vamos entrar. Daqui a pouco o Zé vai pra escola. Deixe o dia terminar como ele planejou. Amanhã, entrarei em cena e teremos a nossa conversa!... Huumm, que cheiro de comida gostosa! Como você adivinhou o que eu queria comer? Mas que garota incrível eu tenho!
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.

