O que é o Família em Contos?

Família em Contos é um site dedicado à educação, cultura e entretenimento. Missão.
Pais e educadores encontrarão aqui boas histórias sobre comportamento para dialogarem com os filhos de modo atraente e criativo.

O Portal do Professor do MEC incluiu o Site Família em Contos em sua página. Peça também ao seu colégio ou instituição para colocar um link com o Família em Contos!

Qual a tarefa dos contos na atividade formativa?
Acreditamos que os enredos literários, ao saírem do plano cotidiano pessoal para imergirem na trama de outras vidas, provocam o imaginário do leitor e permitem discernir o caráter benéfico ou maléfico de certas atitudes. Com isso, o conteúdo da leitura é transformado em vivência pessoal e contribui para o processo educativo ao colaborar na formação da afetividade de crianças, jovens e adultos.

A Família Larleto é formada pelo casal Júlio e Mariana e seus 8 filhos. Pode iniciar a leitura dos contos por qualquer um deles. Mas, desejando conhecer melhor os membros e o ambiente dessa família, tenha um pouco de paciência e leia os contos iniciais. Não receie ser apresentado ao Zégas, que é bastante aprontão, pois no fundo é um bom sujeito.

Jornais e rádios estão autorizados a utilizar estes contos para fins educativos e de entretenimento, mas devem mencionar que estão disponíveis no site www.famiíliaemcontos.com.br

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Os principais contos deste site encontram-se reunidos no livro Família em Contos, que pode ser adquirido junto à Editora Quadrante.

O Zégas


Tem treze anos e em seus olhos brilham o ardor, o entu­sias­mo e a marrudice. É magrelo de ruindade, dizem. O cabelo castanho claro eternamente indisciplinado referenda-o como cara invocado que não leva desaforo para casa. Acham que tem fogo no rabo, pois não para quieto. Seu português é sofrível e não está nem aí para melhorá-lo, apesar das insistentes cor­reções dos pais (tem vergonha de falar bonito; a turma da rua não perdoa esses tipos).

     Suscetível ao extremo, salta da alegria incontida à casmurrice retida em segundos. É sincero, leal e teimoso... Teimoso mais do que ele só burro velho, bem velho. Não gosta de banho nem de matemática. Tem coleções de tudo: maços de cigarros vazios, caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, selos, figurinhas... Todas inacabadas. Gosta de andar descalço, sem ca­misa e com calção de bolso profundo onde carrega o impensável: bolinhas de gude, pião, fieira, munição de pedras para estilingue e, ultimamente, um pente, porque anda enamorado da atriz que viu na TV (pode topar com ela na rua; nunca se sabe...).

     Durante a semana anda melhor vestido por imposição profissional: é office-boy do Grande Magazine – Loja de Departamentos. Teimou que queria ser bói e tanto fez que obrigou o pai a conseguir mil autorizações para emancipá-lo e poder ocupar o cargo, a título de estagiário, menor aprendiz e outros buracos da lei. O pai permitiu que esse seu rebento trabalhasse para ti­rá-lo da vadiagem, já que estudar não é muito com ele não.

     O nome do moleque? Ah, sim: José. É o encarregado de cuidar do pequeno galinheiro da família, que não lhe poupa, entre outras, das seguintes fainas: recolher ovos, buscar ser­ragem nas marcenarias para forrar o chão sob o poleiro, pegar folhas de verduras em duas feiras do bairro – da Rua Maria José e da Praça Roosevelt – para alimentar o populacho do quintal. E justamente por causa do encargo de cuidar das galinhas é que os seus amigos começaram a chamá-lo de Zé das Galinhas ou simplesmente Zé Galinha.

     Quebrou a cara de vários deles pela troça, e percebeu que depois disso o epíteto se alastrou mais que tiririca em terra adubada; então, deixou de partir para o pau e os amigos, ao perceberem que ele não estava nem aí com a brincadeira, esqueceram do apelido. Para o gasto do dia-a-dia a turma chama-o de Zégas, redução de Zeguinha, ou simplesmente Zé, aliás, o mais utilizado. Esses apelidos extravasaram a esfera do bairro e derramaram-se na empresa. Foi culpa dele mesmo, que organizou um racha de futebol entre as duas turmas. Em casa chamam-no apenas por Zé, ou Zezinho.

     Listar-lhe os defeitos é canja; as virtudes, um aperto. Mas como meter a picareta é fácil, e canseira o edificar, mordo a língua e calo o bico. Que falem os fatos... Leia as histórias no link "Lista dë Contos"





 

Quarta-feira
Abr142010

« O Carinho »

     O Zégas não tinha o que fazer, e cismou passar o batom da mãe no focinho da sua cadela Diana.

     – Arreda o pé, seu moleque de rua... Suma daqui com essa vira-lata! Não vê que estou limpando a sala? – diz-lhe a irmã, atarefada.

    – Mas Ciça, a Diana também é mulher e gosta de passar esses trecos na cara!

    – Anda, anda... Leva essa solta-pelo pra fora... E deixa a mãe ver o que você fez com o batom dela!
Certo de que nada mudará o parecer de sua irmã Maria Cecília, o Zégas vai à cozinha, de onde principia um berreiro. Ciça colhe o pau de vassoura detrás do guarda-roupa e parte resoluta para as bandas de onde vem o choro. O Zé, junto à soleira da porta de acesso ao quintal, está pronto para correr ao menor avanço da irmã.

    – Zé, você acordou mesmo com o diabo no couro. O que você fez pro Tonico chorar assim?

    – Nada... – e emburrado fita o chão traçando desenhos com o dedão do pé.
Continua:

    – Tirei dele a minha caixa de sapatos com figurinhas... – azedo, o Zé faz bico de palmo e meio.

    – Ah, é! Então fique com essas porcarias de figurinhas; engula todas elas. Venha, Tonico; deixe esse monstro fuinha se deliciar sozinho com essas drogas de figurinhas velhas.

    – Ciça, Ciça...

     – Tô aqui, Glorinha; que é?

     – Óia o que o Zé fez na tlança da minha boneca: deu nó!

    Antes de a irmã desviar os olhos da boneca, o Zé perambula solitário no quintal, dentro do seu enorme calção branco, descalço, e sem camisa. Vagueia e vagueia. Pára, apanha um graveto no chão e quebra-o em mil pedaços. Olha emburrado para a irmã, que desistiu de sair ao encalço do arteiro por antever o insucesso da empreitada, já que nada há mais ágil do que o irmão para trepar muros e correr sobre eles, cruzando os quintais da vizinhança até chegar rapidamente ao campinho de futebol... Mas a irmã corrige o pensamento: – “Há, sim um ser capaz de alcançá-lo: o Babaréu” – seu vira-lata, cão rafeiro e cupincha demais para traí-lo.

    O Zé continua no quintal. Chuta a bola murcha com a qual treina o Babaréu no gol – o cachorro faz às vezes de goleiro da turma na ausência de alguém mais sacrificado. Embur­rado, com cara de abscesso purulento que necessita ser lancetado, senta-se no chão, recosta-se no muro e passa a atirar pedrinhas no ganso Pilantra e no seu apaniguado, o garnisé Teobaldo, que rodeiam o garoto com intenções bélicas para afirmarem o senhorio sobre o território invadido. Na dolência da tarde, o Zé arrasta-se entre os pés de milho. Só, abandonado, curte o sono triste dos que se fecham em si mesmos.

    O domingo chega ao fim. A balança da justiça não pende favorável ao Zé, que se deixou levar por sentimentos perigosos – misto de solidão, tristeza e tédio –, acumulando débito com todos, até com o Augusto, que desconfia ter sido ele quem amarrou a trouxa de roupas sujas com a sua gravata.

    Pouco antes de deitar, o Zé conclui as derradeiras tarefas do dia, sussurradas por um capetinha. O risinho torto e o olhar esquivo, assanhado, foram os sinais eloquentes da aceitação do encargo. Resultado: neste domingo à noite, certo alvoroço tomou conta da rua. O Zé, em sua cama, ouvidos atentos, finge dormir. Lá fora um tumulto de vozes indignadas protesta contra o engraçadinho que amarrou um barbante fino e preto, transversal à calçada, entre o portão da casa da Zóca e o poste junto à guia da calçada, na altura de uma pessoa média. O barbeiro Zé do Calo, vindo da padaria pouco sóbrio, não percebeu o invisível fio na escuridão da noite, e sentiu algo lhe penetrar na boca; ao saltar de retro viu arremessada ao longe sua dentadura. O pobre homem passou a desferir socos em todas as direções que a bebedeira lhe sugeriu. Por tudo, desejava acertar o idiota que julgou ter subitamente enfiado o dedo em sua goela. Retornou ao balcão para refazer-se do susto e enfrentar a estranha noite. Minutos depois, a viúva Dorinha voltando do bridget na casa da Biló, sentiu alguém puxar-lhe a peruca; ao virar-se para trás viu seus cabelos misteriosamente bailando no ar. Aterrorizada, pensando ser obra do demônio, a infortunada mulher não gritou, apenas desmaiou de pavor, e foram necessários cinco homens para carregá-la até sua casa.

    Acabado o solitário fim de semana do Zé, começa a segunda-feira gorda, impiedosa, carregada de fainas e boliços. No Grande Magazine enviam o bói do Departamento Pessoal até Osasco. Ao regressar, o ônibus vem lotado. Em pé no corredor, o Zé desvia o olhar da paisagem externa, pouco atraente, e o põe nos passageiros. No banco em frente ao seu umbigo, vai sentada uma jovem mãe negra com dois filhos: um garotinho de um ano e meio no colo – que faz o Zé se lembrar do seu, todo seu, Tonico; e outro de mais ou menos seis anos, que está com os braços cruzados sobre o friso da janela e o queixo descansando sobre eles, tendo o olhar fixo no infinito, bem depois do vidro.

    Junto às margens do Tietê, um cheiro de águas podres e pestilentas invade o ônibus. A mãe diz ao filho maior:

    – Esse cheiro dá dor de cabeça – e filtra o ar do pequeno cobrindo-lhe suavemente o rosto com um alvíssimo pano retirado da sacola. O mais velho, ainda na janela, enfia o nariz debaixo da gola da camiseta. O Zé aproveita a sugestão e prende a respiração até não suportar mais, quando muda de tática enterrando o nariz no sovaco do braço que tem a mão agarrada ao cano do teto do ônibus, utilizando, assim, o tecido da camisa do uniforme como filtro de ar.

    Dependurado, mal conseguindo equilibrar-se em um braço, e tentado segurar a surrada pasta de cartolina com o outro, o Zé é arremessado contra um crioulo forte, barba de dois dias, que se irrita com o motorista que freou o ônibus bruscamente para evitar atropelar um cachorro magro e sarnento, desiludido da vida, que atravessou a avenida fitando melancolicamente o ingrato chão que durante todo o dia nada ofertara ao seu pobre estômago:

    – Calma aí, motorista, tu não tá carregando boi, não!

    – É isso aí – apoiam anonimamente alguns passageiros.

    Ao retornar à anterior posição, o Zé observa os dois irmãos: o pequeno brinca com o pano tirado do rosto, solta-o e toca com suas mãozinhas as costas do mais velho, ainda fitando lonjuras. Não satisfeito, o pequeno põe-se em pé no colo da mãe e desliza o seu minúsculo indicador no friso da gola da camiseta do irmão, num incansável movimento de vai-e-vem. Depois, acaricia-lhe os cabelos tão ternamente que o Zé, contemplando a cena, tem os sentimentos atingidos de comoção profunda, que o fazem feliz na felicidade do outro.

    – Jesus, não deixa esse menininho ser tão besta como... co­mo... eu, tá? – reza por dentro o Zé.
    A mãe, compenetrada de amor, não desatenta seu olhar dos filhos, e estampa plácido sorriso nos lábios unidos e esparramados no rosto.

    Um nó constringe a garganta do Zé, que considera como tem sido com o seu Tonico... Quando aquele menininho diante dele põe os braços em volta do pescoço do irmão e apoia o rosto na sua nuca, aquietando-se nessa posição, a compunção faz derramar duas lágrimas do Zé, que escorrem pelo rosto e são tragadas em sonora fungada. Brotam-lhe mais dessas gotas divinas, que também são lambidas para não se denunciar tão choroso. O Zé continua observando os dois irmãos, quando o mais velho corresponde ao carinho do pequeno pousando a mão sobre os bracinhos que o envolvem, sem tirar o olhar dos distantes mundos que o magnetizam.

    A afabilidade com que o irmão trata o pequeno faz o Zé examinar-se e dizer para si:

    – Puxa, vivo brigando com os meus irmãos por coisas tão bestas. 

    Então seus olhos destilam mais desses pingos que têm o dom de reparar as feridas que causamos. O Zé tenta segurá-los. Mas, como são muitos, desiste e deixa-os trilhar o curso natural, até caírem na perna do velho que dorme indiferente àquela belezura da vida, e que vai sentado no banco detrás da mãe com as crianças.

    O Zé não desgruda a atenção dos dois irmãos. A figura do pequeno Tonico volta a preencher-lhe o pensamento e arranca palavras de sussurro:

    – Tonico... meu Tonico, não vou brigar mais com você...

    O pequeno Tonico, que tanta afeição tem pelo Zé, sempre leva a pior nos negócios que tratam.

    – Sou um trapaceiro; sou um desgraçado; sou um, um... noveguets-noguts – seu velho e mágico palavrão que o livra de qualificativos que não consegue encontrar.

    Ao chegar na empresa, o Zé pede à Dona Maria que o dispense mais cedo, pois pretende resolver um assunto pessoal antes de ir à escola. Autorizado, parte pressuroso até sua casa. Não aguarda o ônibus por achá-lo vagaroso demais e, sob as esporas do arrependimento, vai o corcel. Segue “cortando por dentro”, indo para o Bixiga pela Barão de Itapetininga, Praça da República, Avenida Ipiranga, Praça Roosevelt, Viaduto Martinho Prado, mergulhando na Santo Antonio. 

    Irrompe em casa.

    – Tonico, Tonico, me dá um baita dum abraço! – e se põe de joelhos à altura do irmãozinho, que abandona as bolinhas de gude do Zé e corre para abarcá-lo nos seus braços pequeninos.

    – Aperta mais, Tonico...

    O Tonico aplica toda sua força... Ah, que felicidade sente o Zégas de ter um Tonico só para ele, e pensa: – “Coitado do Eduardinho; não tem nenhum irmão... Aaah, como a vida é boa, apesar da matemática”.

    O Zé chora e se inquieta por instantes, já que nunca é visto assim. Então diz para si mesmo:

    – Que se danem se me virem chorando e me chamarem de marica; dou um cacete no primeiro que se meter comigo!

    E deixa que as bestas de umas lágrimas tracem o caminho desejado.

    – Tonico...

    – Quê Zé?...

    – Pode de ficar com as minhas bolinhas de gude, viu... Fique também com a caixa de figurinhas, com o pião vermelho e com a coleção de maço de cigarros. Tudo qui é meu é teu, tá bom?

    O Tonico não se abala com o repentino altruísmo do Zégas e nada responde. O momento é inefável! Como é bom ter nos braços esse irmão feito o vento, sempre correndo, entrando, saindo, escapando-lhe, enfim. O Tonico tem o rosto enterrado no pescoço do irmão; não quer mexer-se para não desvanecer o presente sonho, tal como ocorre quando tenta apreciar de perto as lindas borboletas que adejam sobre as flores do jardim, ou os pássaros coloridos na pequena horta do quintal – sim, apenas admirá-los –, mas um movimento à toa e zás!, tudo dissipa-se restando apenas o encantamento na solidão. 

    O Zé ergue-se demoradamente; também não quer perder o Tonico. Vão calados até o quintal. O sol se despede da tarde. Uma cor violácea dá lugar a um prateado indizível. O majestoso astro vai repousar após um laborioso dia na casa dos Larletos: agasalhou as crianças, aqueceu as plantas do jardim e da horta, secou as roupas do varal, deu claridade para economizar luz elétrica, aqueceu os ovos no galinheiro e no ninho de pardais escondido no miúdo milharal, com três ovos do casal e um de chupim; enxugou os patinhos que se banharam na poça de água que o Zé lhes fez... – “Se o sol é tão bonito – pensa o Zé – como não será Aquele que fez ele!”. Ali no quintal tudo se argentara; a goiabeira parece noiva enfeitada de branco reluzente. A vida declina e as galinhas cacarejam nos poleiros os derradeiros assuntos do dia. Apenas os patos em seu desengonçado caminhar ainda zanzam mais um pouco no quintal, em ameno bate-papo pós-jantar.

    – Tonico...

    – Huumm...

    – Você qué o meu pineuzão de carro?

    – Qual peneu, Zé?... O careca?

    – Nãaaooo!, aquele pineuzão novinho que só tem um furo na banda!... Aquele que eu só uso nos domingos pra não gastar.

    O Tonico não dá resposta. Sente-se mais rico com o que tem entre os braços: o seu Zeguinha; o seu herói!; o menino mais forte da rua; aquele que mais sabe andar sobre os muros carregando-o no cangote quando a Ciça o procura para o banho; aquele que ganha todas as corridas em torno do quarteirão, e quem lhe dá – só de vez em quando –, um teco de sorvete; aquele que o leva pra engraxar sapatos lá na esquina da padaria, juntinho da Santo Antonio com a Treze de Maio; e que tem o mais veloz carrinho de rolimã do bairro...

    – Tonico, todo esse quintal é seu...

    – Bigado, Zé...

    – Pode ficar também com o meu garnisé, o louro e o ganso Pilantra.

    – O ganso num goito dele, Zé; é muito brabo e me bate quando venho sozinho aqui no quintal!

    – Ah, é?! esse ganso bate em você? Só de marra vou deixar a mãe assar ele... Quero ver ele bancar o valentão com você. Vamos comê esse desgraçado de ganso com molho de tomate, tá bom?

    – Ô si tá...

    – A goiabeira também é sua, viu Tonico...

    – Zé...

    – Huumm...

    – A goiabeira não é do Guto?...

    – ... Xiii, é mesmo.... Mas o Guto ficou velho; já não liga pra ela e não vai ligar que eu dei ela pra você.

    – I si eli num dé?

     – Quebro a cara dele, tá?

    – O si tá...

    O diálogo dos dois irmãos lá no fundo do quintal é terno, interrompido de silêncios. Seus corações se tocam. O Tonico, com o rosto ainda enterrado no pescoço do irmão, não quer ter olhos para mais nada.

    Neste instante, Ciça vem à cozinha à procura do Tonico para banhá-lo, e vê os dois irmãos abraçados no quintal em patética cena. Sorri – tem o sorriso da mãe, dizem – e acha que o banho pode esperar. Retorna e adianta outras tarefas. Ao passar pela sala lança um olhar à pequenina imagem da Senhora Aparecida que preside a casa, pisca e sorri a Ela com o mesmo sorriso de momentos antes, agradecendo os irmãos que tem, até porque não dá para trocá-los por outros.

    Júlio retorna do trabalho e vai à cozinha cumprimentar a esposa, que acabara de chegar ali, e a vê em pé, silenciosa, recostada no umbral da porta, contemplando a atmosfera de afeição dos dois filhos. Júlio compreende tudo. Sem ruído, aproxima-se e apoia seu forte braço sobre os ombros de Mariana, que tem um leve susto, sorri e cinge também com o braço a cintura do marido.

    – Mariana, preciso ter uma boa conversa com o Zé. Ontem fiquei nervoso ao saber das traquinagens dele e achei melhor nada falar até me acalmar. Quero falar a sós com ele: de homem pra homem. Refletiremos juntos.

    – Vai ser bom, Júlio; ele vai ouvir você... Sabe, outro dia perguntei ao Zé qual era o melhor amigo que ele tinha: o Aristeu, o Tico, Brachola, Pelé, o Zé Fofinho, Cebola? Queria que convidasse um para almoçar com a gente no domingo... Advinha quem ele disse que era o seu melhor amigo?

    – O Aristeu?

    – Não!

    – O Brachola?

    – Não.

    – Puxa, Mariana, o Zé tem tantos amigos... Eu desisto...

    – É você, bobinho!

    Júlio sorri, beija a esposa e pergunta em sussurro:

    – Mas o Aristeu não almoçou conosco no domingo pas­sado, Mariana? E também o Zé Fofinho, o Brachola e o Tico?!

    – Sim, almoçaram! Mas é que depois da resposta o Zé me pediu que deixasse convidar os outros amigos! Foi só “botá mais água no macarrão”, como dizem aqui no Bixiga.

    – Água no feijão, Maroquinha... Então foi por isso que tivemos tão ilustres convidados... Maroquinha, parece que ele está bastante arrependido de se ter isolado dos irmãos. Ao entrar en­contrei uma boneca na porta do quarto das meninas. Acho que o Zé pediu um adiantamento de salário e comprou esse brinquedo. Quando a Glorinha acordar vai ter uma surpresa!

    – Júlio, a vida tem sido tão dura pra nós... Às vezes fico preocupada... Podemos dar tão poucas coisas a essas crianças... – Mariana aperta o rosto contra o ombro do marido com leve ameaço de choro.

    – Não se preocupe, Mariana, eles são felizes; têm o principal: você, eu, os irmãos.

    – É verdade; também sinto isso, Júlio.

 Ambos silenciam e pousam os olhos nos dois filhos, sentados no cocho das galinhas.

    – Mariana, vamos entrar. Daqui a pouco o Zé vai pra escola. Deixe o dia terminar como ele planejou. Amanhã, entrarei em cena e teremos a nossa conversa!... Huumm, que cheiro de comida gostosa! Como você adivinhou o que eu queria comer? Mas que garota incrível eu tenho!

 

Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.