« A Faculdade »
Amanhã, jornais e internet estamparão nomes e sobrenomes dos candidatos aprovados no exame vestibular da Faculdade de Direito. Mas é sabido que a lista, desde a véspera, encontra-se afixada no pátio da faculdade. Como Augusto caminha pela cidade, não resiste a espera e vai conferi-la. Trêmulo, penetra no edifício de arcadas e imbica até o painel com o rol dos laureados.
Percebe estar acompanhado ao ver zanzar pelo pátio uns brutamontes que desconfia ser os tais veteranos, perigosos pela embriaguez de ócio, e duplamente fatais se tentam ocultar uma tesoura entre as mãos, como é o caso. Augusto aproxima-se da lista e pisa em algo mole que se amolda à sola do sapato. Triste visão; não era o que pensava, mas restos de cabelos de verdadeiros escalpos.
O rapaz pressente a sina dos aprovados. Folhas e folhas em ordem alfabética. Vai à primeira lista da letra “A” e põe-se a ler: Abel..., Abelardo..., Alice..., Antônio a toneladas. Segunda lista: Arlindo..., Armando a dezenas, Arminda..., Arnaldo aos quilos, ainda Arnaldo..., Atílio, Augusta..., Augusto, glup!, – aproxima-se o coroamento do esforço ou a tristeza do fracasso de um ano perdido! –, Augusto Antunes, Augusto Basílio..., Augusto Larleto..., Augusto Ramiro....:
– Espere! Li Augusto Larleto?! – pensa.
Volta com o dedo e...e...
– Meu Deus, ENTREI, ENTREI – grita dentro de si.
Confere o número de inscrição para evitar possível homônimo:
– Não, sou eu, sou eu mesmo!!! Entrei, Ramão! Entrei, pombas!!! – continua falando dentro de si.
Entrou! Augusto prepara-se para o grito de vitória e!!!... Contém-se recalcando no peito a sua alegria ao notar pelo rabo do olho a corja de veteranos atenta às suas reações. Controla as paixões e se encapuza de ar melancólico, seguido de um abanar de cabeça em tom de desaprovação. Sai acabrunhado, fitando o solo em simulação magistral de velho ator.
Continua na mira dos escalpeladores, que desconfiam ser engodo a súbita mudança de ares. O instante é de tensão e de movimentos precisos. Qualquer descuido e tudo estará perdido. Augusto finge não os ver. Em passos tristes, pesarosos, vai em direção à saída. Com o lenço enxuga os olhos em tal interpretação que a turma resolve abandoná-lo em sua desgraça, indo à espera de vítima com melhor sina.
Junto à porta do Largo São Francisco, Augusto volta-se aos velhos alunos, agora circulando no pátio, e vocifera:
– ENTREI, SEUS PICARETAS; SEUS BOSTAS!!! Ah, ah, ah!
O desconcerto da trapaça deixa os grandalhões perplexos, admirando-se mutuamente com ar de paspalhos. No silêncio do desconcerto acordam com olhares que devem lançar-se ao encalço daquele mísero atrevido para sová-lo, arrancar-lhe as roupas e pendurá-las nos postes e monumentos da cidade, a título de aviso à petulância dos ínfimos seres alcunhados de calouros.
O novato não perde tempo e desanda a correr, chocando-se de frente com um grupo de verdugos recém-chegado às cerimônias de boas-vindas:
– Agarrem esse pivete morfético!
Tentam segurá-lo, mas com um safanão Augusto se livra de dois magrelos que o prenderam pela cintura. Inicia-se tresloucada perseguição pelas ruas centrais. Os lobos-tosquiadores entrebatem-se na ânsia de ficar com a ovelha, mais lépida e saltitante, e atiraram nela cascas de melancia que apodrecem pelos cantos das ruas, e no compasso gritam:
– Pega, pega que é ladrão!
Pedestres agradecem o recado e amedrontados cedem passagem. Na Rua Libero Badaró, Augusto vê um ônibus de porta aberta deixando o ponto e aproveita a baixa velocidade para mergulhar nos pés do motorista, que faz menção de parar:
– Nãããooo pare, motorista; não pare, nãããooo!!! São ladrões assassinos me perseguindo! Acelere por favor!
O condutor não duvida das palavras do rapaz e calca o acelerador, enquanto fecha a porta. Da janela, Augusto contempla os rostos bufantes dos algozes que vociferam ao passar o ônibus roçando-lhes o focinho.
– Maldito, ainda vamos te pegar!
E o calouro lhes solta uma “pernáchia” à italiana, e tem como resposta sinais obscenos e despudorados.
O ônibus sobe a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Augusto senta junto à janela e, ainda ofegante, tenta recompor a respiração, sempre ao pasmo dos passageiros que pouco entenderam o ocorrido e olham-no assustados. Sua pulsação tenta voltar ao normal quando um berro é ouvido:
– Aí bicho maldito! Vamos te trucidar!
Em sobressalto, Augusto vê o bando de desajustados em um carro emparelhado ao ônibus. Age rápido indo agachado até o condutor, quando duas alarmadas senhoras que juntas vão sentadas perdem a paciência e desandam a xingar o rapaz. Este olha-as, pede desculpas pela inusitada situação, e volta-se ao motorista:
– Por favor, não pare o ônibus! Quando chegar próximo da 13 de Maio, abra a porta pra eu descer; mas não pare o ônibus, viu!
– Tá doido, moleque! Vou parar junto daquele guarda ali na esquina!
– Pare nãããooo, homem, que matarão nós dois!!!
Em pânico, o motorista enterra o pedal do acelerador no velho assoalho do veículo e o policial vai sumindo no retrovisor.
– Tá... tá chegando a 13 de Maio! – informa o lívido e balbuciante condutor.
– Ótimo; só diminua a velocidade pra eu saltar. Chamarei a atenção deles; não amolarão o senhor, viu!
– Graças a Deus! Graças a Deus! Obrigado, rapaz! Vá com Deus, que você precisará muito dEle!
Com exceção das duas tagarelas senhoras, os demais passageiros vão mudos, suspensos. A marcha é reduzida e a porta abre-se. Augusto salta à calçada e ribomba um assobio unido a uma banana feita com os braços. Os orangotangos freiam o carro e, em confusa manobra de retorno, emaranham-se no denso tráfego da avenida. O rapaz apaga-se das vistas descendo ligeiro a 13 de Maio, que lhes é contramão. Cessou a perseguição, mas Augusto desembesta em disparada pela ânsia de dar a boa notícia em casa. Chega. Irrompe triunfal na sala de estar e grita
– Eeeeennnntreeeiiii! Eeeennntreeeeiii! Mããããeeeee!
Mariana ouve o filho desde a cozinha, solta a panela em gritinhos de mulher cheia de emoção. Abraços. Beijos. O barulho traz a Glorinha e o Tonico, que caem na farra por força do instinto, mesmo desconhecendo o motivo da folia. Ciça, Janaína e Margarida, perplexas com a repentina barafunda, deduzem tudo e fazem parceria à generalizada algazarra... Diana, Duque, Babaréu e o louro não deixam por menos. Um frêmito corre pela casa dos Larleto e estende-se até o final da tarde com a chegada de Júlio e do Zégas, que se incorporam à folia.
– Gente – diz Mariana –, vamos todos à Aquiropita para agradecer a força dada ao Guto!
– Boa ideia! – confirma Júlio.
– Xi, pai, tenho aula e não posso perder ela! – lembra o Zégas.
– Tá certo, Zé, você não precisa ir, mas não deixe de agradecer.
A família sobe a 13 de Maio com destino à Igreja de Nossa Senhora da Aquiropita. Chegam e notam que o Padre Domênico se dirige ao altar para celebrar a missa. Assistem-na em ação de graças. No final, Júlio cochicha algo ao pároco e este se volta e vem de braços abertos cumprimentar o Augusto:
– Parabéns, Augusto. Inton você será uno abogado, hein! Es tude pio qui tenho algunos projetos pra nói parlare in el futuro.
– Pode deixar, Pe. Domênico...
O padre, com um abraço, recolhe o Tonico e a Glorinha do chão e percorre o templo com os pequenos no colo. Vão de imagem em imagem até que as crianças, atemorizadas pela proximidade a que nunca estiveram das figuras, se assombram dian te da representação do Cristo morto, descido da Cruz e depositado numa urna de vidro, junto à capela à direita da entrada; tentam soltar-se do pároco com cara de choro.
A família retorna à Rua Santo Antonio. Ainda na 13 de Maio, Júlio e Augusto adiantam-se; mãe e filhas em descontraídas passadas riem das peraltices dos caçulas. Margarida e Ja naí na questionam curiosidades do tipo para que servem os advogados, se são bravos, se são chatos, por que falam tão mal deles, por que gostam de falar rebuscadamente, se no céu há advogados, etc., etc.
Mais adiante o diálogo envereda por outros meandros:
– Augusto – diz Júlio –, sua mãe e eu havíamos decidido que, se você entrasse na faculdade, deixaria de trabalhar no banco para se dedicar somente ao estudo.
– Mas pai, o meu salário fará falta!
– Fará, sim, mas a gente dá um jeito. Seu trabalho de agora em diante, até a sua formatura, será o estudo; sua profissão, estudante. Queremos que você organize o dia e após as aulas dedique horas ao estudo.
– Bem, pai, realmente será ótimo ter mais tempo para estudar... Pouca gente que tem esse privilégio sabe agradecer e valorizá-lo.
Uma pausa para sopesar o futuro mantém distantes os olhos de ambos e interrompe o diálogo entre pai e filho. Atrás ouve-se o alegre alarido do séquito que tem os pés no presente, e Mariana desce até eles para lhes falar na mesma linguagem. Augusto rompe o silêncio e pergunta:
– Pai, todo mundo deve fazer faculdade?
– Ter uma carreira universitária é mais acessível nos dia de hoje, e quem puder buscá-la deve fazê-lo, pois é útil subir mais um degrau ou adquirir maior cultura. Mas de universitá rios medíocres, líbera-nos, Domine. Entendo que o título universitário não deve desviar uma pessoa de dar os seus melhores dons para servir... Se a aptidão de um homem é confeccionar magníficos móveis ou fazer belos ternos, por que usar suas mãos para ser um medíocre cirurgião? Qualquer atividade é superior se transcende a visão estreita do eu. Um título universitário não pode asfixiar a verdadeira aptidão da alma, mas alavancá-la. A honradez está no que de melhor se oferece como dom de si. Você não acha, Augusto, que a dignidade de uma pessoa vem tanto dos bancos de uma faculdade, como da oficina do artesão apaixonado pelo que faz?
– Sempre pensei que é melhor ser um médico do que um carpinteiro; um engenheiro do que um técnico em mecânica?
– Guto, não assopre a brasa da incompetência. Por que aplaudir títulos estampados em papéis, se a tinta é a da mediocridade? Não faça coro a essa imensa platéia que valoriza títulos e aplaude os salários milionários dos que brilham nas telas da mídia sem nada contribuir para mitigar as dores humanas. Essa cega platéia chega ao contra-senso de calar-se diante do sofrível salário de ocultos universitários que passam anos sem brilho dentro de laboratórios ou ensinando em salas de aulas. Não financie esse ridículo show.
– Vejo que financiamos sem perceber – responde Augusto.
– Outra insensatez – continua Júlio – é ver como tantos homens aplicam suas qualidades humanas – aquelas recebidas gratuitamente de Deus –, e que lhes facilitou o aprendizado de alguma arte, ciência ou técnica, só para satisfazerem a ambição de lucro, poder ou desejo de brilhar. Para mim, qualidades assim tão mal aplicadas não passam de pérolas incrustadas na bosta.
– Essa é boa. Gostei da imagem, pai.
– Não encontro melhor imagem para os usurpadores das próprias qualidades que a de Caim e Abel. Caim não soube fazer bom uso da sua aptidão de agricultor, pois ficava com o melhor da colheita e queimava o pior para Deus, que não aceitava a fumaça desses sacrifícios. Quando alguém usa egoisticamente as aptidões recebidas – tanto para enriquecer a si como apenas aos seus –, faz fumaça chã com as obras que realiza. São como péssimos investidores que aplicaram dinheiro em mau negócio.
Os usurpadores a que me refiro terão apenas como paga a vida regalada que almejaram nesta terra, ou no aplauso que buscaram; suas obras não lhes abrirão a porta da eternidade... Oca vaidade, não? Bem disse o velho e sábio Aristóteles que o homem perfeito não é aquele que emprega sua virtude consigo mesmo, mas o que a emprega em favor dos outros.
Pai e filho dialogam interminavelmente, traçam planos, propõem metas. Depois do jantar, segue-se a costumeira tertúlia familiar. Todos têm oportunidade de falar e serem ouvidos. O ambiente é grato. Mariana traz um café quentinho; Júlio e as filhas o servem nas xícaras. Surpresa foi a repentina entrada de Ciça com a bandeja de bombons:
– Gente, um pequeno extraordinário para comemorarmos o nosso calouro! – diz Mariana.
– Uau, Ciça, me dá um bombom – diz a Janaína.
– Espere, deixe a mãe e o pai se servirem primeiro – replica a irmã.
– Bombom!? Quem falou em bombom aí? – diz o Zégas, que acaba de chegar.
– Zé, você não tinha aulas hoje?
– Tive uma só, pai. O professor Zacarias ficou doente e dispensaram a gente das duas últimas aulas.
– Infortúnio de um, fortuna de outro. É o mundo de sempre... – comenta Mariana.
Augusto detalha como driblou o bando de veteranos que tentou apanhá-lo no trote. Todos riem; Mariana aflige-se. Acalmam-na fazendo ver o lado pitoresco da velha tradição acadê mica.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

