« A Morte »
O Zégas retorna do quintal à cozinha:
– Mãe, eu tava vendo lá do muro do fundo do quintal, como está cheio de crianças brincando na área livre desse prédio da Nove de Julho, que faz fundo com a gente.
Ciscando o arroz com o dedo, Mariana diz:
– É, tem muitas crianças nele...
– Lembra daquele apartamento vazio do terceiro andar, que a gente foi perguntar o preço do aluguel pro tio Faié alugar ele?!
– Lembro... – agora é a vez do feijão.
– Então, ele não quis alugá e agora já tem gente morando nele!
– Eu sei, Zé. Faz um mês que a Cida mora ali. Outro dia ela me viu trabalhando no quintal e puxou conversa lá do seu apartamento. Agora já somos amigas.
– Ah, é!... Ela tem uma filha, né, mãe?! Táva vendo ela brincar com as bonecas.
– Chama-se Izildinha aquela menina. Tem 6 anos.
– Legal... Mas tomara que ela não conheça nem Janaína, nem a Margarida...
– E por que não pode conhecer as suas irmãs?
– Ah, já pensou que bagunça iriam fazer por aqui?!
– Acho que você me deu uma boa ideia! Elas seriam ótimas amigas! Vou levar suas irmãs pra conhecerem a Izildinha! Puxa, como não havia pensado nisso? Obrigada pela dica, garotão.
– Puta merda, porque eu fui falar...
– Zé, já disse pra não dizer palavrão!
– Desculpa, vai.
– Tá bom...
– Mãe, pode levar elas pra se conhecerem, mas não deixa a menina vir aqui.
– Zé, te conheço. Você está preocupado com as suas coleções, principalmente a de figurinhas, não?... Não seja egoísta, menino!
– Ah, mãe, se mexerem nas figurinhas vai ter briga. Foi um baita custo pra conseguir que a Janaina e a Margarida não fuçassem mais nelas... Tive que prometer um montão de coisas pras enxeridas...
– Zé, se você soubesse de uma coisa acho que não agiria assim... Essa menina vai morrer em poucos meses.
– Glup! Nooossaaa, mãããeee! Não fale essas coisas! – o Zé empalidece.
– A Izildinha tem uma doença muito grave... É de morte certa. A mãe dela tem chorado bastante. Sofre em silêncio para não dar essa notícia tão triste à filha.
– Nooosssaa, mãe... Coitada... Puxa vida... Que pena... Por que Deus vai fazer isso com ela?
– Filho, não fale com ninguém sobre isso. Certo?
– Ô si tá! Não vou falar não, mãe!
– ...Te conheço; sei que não.
Abalado com a estranha notícia, o Zé retorna ao fundo do quintal, trepa sobre o caixote encostado no muro e se põe a olhar o apartamento do segundo andar. A Izildinha brinca com as bonecas: dá-lhes comidinha, fala com elas... O Zé cruza os braços no fio do muro e apoia o queixo sobre eles. Suspira. Uma sensação estranha invade-o por dentro, misto de tristeza e medo.
– Birosca de vida...
Cai a noite. O Zé é um solitário vulto na escuridão. As galinhas já não cacarejam nos poleiros. O apartamento do segundo andar tem a luz acesa. As bonecas são banhadas e se preparam para dormir. O Zé não tira os olhos da menina que irá morrer. Acha sem sentido tudo o que ela faz, e pensa: – “Que vida chata a dela; coitadinha”... No muro há um menino de coração triste, trespassado de amargura. E as bonecas também ficarão desoladas com a perda de sua terna mãezinha.
– Deus – murmura o Zé –, por que o Senhor vai deixar ela morrer? Num deixa não, vai! Se o Senhor deixar ela morrer eu fico de mal com o Senhor, tá bom?!
A Cida fecha as cortinas. Na desolação da noite, o menino de coração triste reclama com seu Deus sobre o sem sentido da vida. Uma nuvem oculta o luar e as luminárias do céu somem nas trevas. Tudo se põe terrível. Um arrepio de medo faz o Zé debandar para dentro de casa, ao abrigo da luz e do prato de sopa que o espera quentinho. E a noite imersa no seu silêncio profundo fica vagando sozinha lá fora. Bem feito.
Durante o mês, ao regressar do trabalho, o Zé cumpre o ritual de ir até o fundo do quintal para contemplar o apartamento do segundo andar, e recordar ao seu Deus a advertência feita. Em seguida janta e vai para a escola.
O segredo que a mãe lhe pedira para guardar está afer rolha do com a chave da lealdade, pois jamais deixara de ser fiel depositário de uma confidência. Sofre calado a pena que a Izildinha não padece.
Um segredo lícito tão bem guardado, revela a nobreza do coração que por ele zela. Mas essa caldeira de sentimentos chamada coração, tendo que suportar carga tão cruel, libera em silêncio um sangue inebriado de dor que debalde tenta alentar as fibras de um ser que mais desejos não tem do que o de prolongar uma vida curta, saltitante, tão feminina, tão mãezinha. Sendo impossível a empreitada, esse coração estremece, racha-se por dentro e submerge em tristeza, sofrendo uma dor lancinante, diferente de uma bolada na cara lá no campinho. A vida se desfigura para o Zé; seus olhos umedecem.
Certo dia, o Zé vai à Aquiropita falar com a Senhora da capela lateral, à direita da entrada, fidelíssima junto à cruz do seu Filho. Amiúde o Zé lá vai acompanhando Mariana. Está acostumado a ver a mãe ajoelhar-se diante da imagem, abstrair-se do entorno e mergulhar em oração para tratar dos infindáveis apuros de uma família numerosa. O filho procura imitar os modos rijos e serenos da mãe, longe do menor traço de pieguice:
– Nossa Senhora, a Izildinha é muito pequena pra morrer. Não deixa isso acontecer, viu. Eu sei que vou demorar muito pra morrer porque sempre vou me alimentar bem, fazer muito esporte e curar logo qualquer doença. Mas eu topo dar a metade da minha vida pra Izildinha. Com isso ela vai viver uns 70 anos. Que tal! A Senhora topa?
O garoto pressagia serem outros os planos divinos.
– Olha, Nossa Senhora, se ela morrer, eu não falo mais com o seu Filho. Pode dizer isso pra Ele... Só vou falar cá Senhora, tá bom?... Tchau.
A semana voa. O domingo chega. Janaína limpa o quarto dos meninos e puxa conversa com o irmão, que troca o emborrachamento do estilingue:
– Zé...
– Não enche ... Que é?
– Eu e a Margarida temos uma nova amiguinha!
– ...Ela é chata que nem vocês?...
– Não, seu bestão; ela é bem legal, viu. Tá sempre rindo e tem um montão de bonecas.
O Zé desconfia de quem se trata; fica sério:
– E...e...co...co... como ela se chama?
– Izildinha!
– Glup!
– Que foi, Zé, não gostou? Você ficou sério porque tá gostando dela, né? Eu sempre vejo você olhando pra casa dela lá do muro!
– Não seja trouxa, Jana, não vê que ela é um bebê! Além disso eu gosto de outra menina...
– Eu sei, ela trabalha lá no Magazine, não?
O silêncio é a resposta. Um pudor forte sempre impõe reservas ao Zé nos segredos do coração. Prefere partilhá-los apenas à Confidente da capela à direita da entrada da Aquiropita.
O garoto ameaça sair e a irmã o provoca cantarolando zombeteiramente:
– O Zé gosta da Izildiiinhaaa; o Zé gosta da Izildiiinhaaa...
O irmão detém-se com o estilingue e crava na irmã uns olhos de pouca brincadeira. Janaína deixa de troçá-lo, e com voz meiga diz:
– Desculpa... Sabe, Zé, hoje é domingo e a gente convidou a Izildinha pra vir brincar aqui em casa. Ela vai almoçar com a gente!
– Ah, é... E a que hora ela chega? – o Zé faz planos de desaparecer.
– Às dez.
Às dez da manhã soa a campainha e o Zé, emaranhado com uns malditos exercícios de matemática que o pérfido professor Elói exigiu para segunda-feira, esqueceu-se da hora. Desde o quarto dos meninos, sente ímpetos de correr para o quintal e de lá saltar até o campinho e sumir. Mas fica.
– Oi, Izildinha, entre!
– Olá, Janaína! Cadê a Margarida?
– Tá no nosso quarto pegando as bonecas.
– Izildinha, quer conhecer o meu irmão!?
E o irmão da Janaína, que ouviu a fatídica sugestão, tem reacendido o nutrido desejo de pular a janela e evaporar. Reconsidera, ao pensar que não deve causar nenhuma decepção à menina, que chega até o garoto na alegre companhia das novas companheiras:
– Zé, esta é a Izildinha.
– Oi, menino.
– Olá, Izildinha.
O Zé estende a mão e Izildinha também. Cumprimentam-se. Ao sentir tão gelada a pequenina mão da menina, um calafrio percorre a espinha do moleque languescendo os latejos do coração; sente tontura. A comoção interior faz o garoto pensar com o seu irrefletido português: Falta dois mês!
– Izildinha, você gosta de figurinhas? – diz o Zé.
– Não sei; nunca tive.
– Então péra aí!
O Zé entra debaixo da cama e desentoca seu tesouro abrigado numa caixa de sapatos.
– Veja, tem um montão aqui, ói!
A menina retira a tampa da caixa e seus olhos brilham:
– Que bonitas, menino! São tão coloridas!
– Gostou, Izildinha?
– Puxa, se gostei!
– São pra você.
– Ah, vá, duvido que ele tá falando sério, Izildinha! – diz Janaína.
– Tô sim, Izildinha. São todas suas; depois eu ganho mais jogando bafo.
Margarida, que acabara de chegar com as bonecas, apenas ouve os diálogos e convence-se rotundamente de que o irmão padece mesmo de desatinada paixão. Não há outra explicação para o inacreditável acontecido senão um amor inflamado, doido, arrebatador.
– Puxa, obrigada, menino. Sei que a Rosinha vai gostar delas!
– Quem é a Rosinha, sua irmã?
– Não, minha filhinha!
– Ah, tá; é sua boneca, né?
– É...
As meninas vão ao quintal carregadas de latinhas, panelinhas, talherinhos, paninhos e mais um monte de “inhos” que os moleques jamais apreciarão por pendor natural, mas sempre debocharão por maldade desnaturada.
– Geeennnte!!!
– Que foi Margarida?! – perguntam sobressaltadas as companheiras.
– Tá quase na hora da Missa! Temos que correr!
– Missa?
– É mesmo, Izildinha, eu e a Margarida sempre vamos à missa das crianças, lá na Aquiropita! Ela é mais cedo que a dos jovens porque eles são uns molengões. Quer vir com a gente?!
– Puxa, eu nunca fui à missa, Janaína!
– Nooossa, sua mãe nunca ti levou?
– Não!
– Então vem cá gente!... Ou prefere ficar aqui brincando com as bonecas até a gente voltar?
– Quero ir com vocês...
E o buliçoso trio sobe a Rua 13 de Maio em grande alarido. No alvoroço infantil não se sabe quem é a mais faladeira. Riem sonoramente; correm. Silenciam ao entrar no átrio da igreja. As duas irmãs fazem genuflexão pausada no corredor central do templo: tocam o joelho direito no chão, tendo os olhos fixos no sacrário e lábios que desenham silenciosas palavras enamoradas para o Cristo sacramentado.
Padre Domênico inicia a Missa. Margarida aponta a página do missal para a neófita acompanhar a cerimônia, mas esta cochicha:
– Eu não sei ler, Margarida...
– Ah é, você ainda é muito pequena. Mas não faz mal, dá pra acompanhar só de ouvido.
– Tá bom – murmura Izildinha.
O Evangelho da Missa narra a festa de um rei que, descontente com o intruso que penetrou em seu banquete sem a veste de gala, exigida para a ocasião, mandou atirá-lo fora. Padre Domênico troca em miúdos a parábola e – traduzindo o seu portugues italianado, com mistura de castelhano, como tentativa de falar apenas a língua de Camões – esclarece ao público pouco perspicaz que tem diante de si, que o sábio e poderoso rei é Deus, que faculta a entrada em sua permanente festa – o Céu –, aos convidados – as almas – com a veste de gala ou graça santificante obtida no batismo. Esse traje não permanece no batizado que se emporcalha com o pecado; mas retorna limpo e perfumado àquele que se lava no chuveiro do Sacramento da Confissão, que se recebe ali no confessionário da igreja. É preciso ir a esse Tribunal – a Confissão –, diz o pároco; não adianta apenas pedir perdão a Deus e não passar pelo Tribunal que Ele mesmo instituiu, a fim de que se possa ouvir a sentença de perdão através do seu ministro próprio – o sacerdote –, pois de outro modo não há certeza de se ter conseguido a remissão da falta e o perdão. É risco muito grande – disse o pároco – não valer-se desse Tribunal; não vale à pena prescindir dele por vergonha ou preguiça. O padre Domênico lembrou a sábia sentença de que “se não houve vergonha para pecar, não pode havê-la para confessar”. Carecer dessa veste na hora da morte é não ter o convite de entrada para a Grande Festa. Ledo engano – esclarece o padre – é pensar que um porteiro camarada franqueará a entrada àquele que foi imprevidente ou desinteressado pelas coisas da fé e da sua alma; ninguém lá em cima vai dar dois tapinhas na barriga e emprestar um traje limpo de última hora ao que pouco fez para estar na Festa. Não, cada convidado tem que adquirir com o próprio esforço o seu traje sob medida, tal como se obtém as demais coisas da vida. Morrer com a alma sem essa veste representará o eterno fracasso de uma existência desperdiçada à toa por quem não atinou ao essencial da vida: saber de onde veio e para onde vai.
Os fiéis, penetrados de silêncio, vez por outra relanceiam as roupas próprias e as do vizinho para ver se estão limpas...
– Margarida, o que é ser batizado? – cochicha Izildinha.
– Tua mãe não te batizou, não? – diz quase inaudível a interlocutora.
– Acho que não...
– Xi, depois ti conto...
Ao descrever a beleza desse Rei, o padre foi plástico ao extremo e fartou-se em falar que é pela via do amor que esse Rei quer nos conquistar; e não pela do temor. Já ao fim da homilia sua voz timbra a de um coração enamorado que anseia ver a Face Amada. O padre deixa escapar em latim, como num cântico da alma, a frase do Salmo 26,8: “vultum tuum, Domine, requiram” (buscarei, Senhor, o teu rosto), que as crianças ouviram e nada entenderam, e até julgaram ter sido ruído produzido pelo velho microfone.
– Padre, se Deus é bonito assim, por que Ele nunca deixa a gente ver Ele?
– Una bona pregunta, menina.
Os pequenos fiéis agitam-se concordes com tal indagação, há tempos travada na garganta, e lançam o olhar até o banco de onde partiu a voz. Querem agradecer ao menos com o olhar a sábia inquiridora que fez tão pertinente e acurada pergunta. Quedam duvidosos ao verem três meninas sentadas grudadinhas.
– Qual é o su nombre?
– Izildinha.
Revelada a identidade, a pirralhada suspira aliviada e volta-se para o padre.
– Izildinha, si Dio si colocasse junto di nói visivelmente, ficaríamos ton maravilhados, ton suspensos, ton... ton embasbacados i sublimados por su beleza i poder qui tuto mai en la vita perderia su gracia. Nói seria tão imensa e irresistivelmente atraí dos a Ele qui la nostra capacitá di escolha di nada serviria... Nói perdería tuta la nostra libertade, cosa qui Ele no quer, porque muito entende di amore! Capito, minha bambina?
– Não.
– Huumm..., no capito isso di qui il amore deve ser livre i ter por único objeto la persona amada, no é?
– Mais ou menos.
– Tá bene, tá bene... Veja, Izildinha, imagine si uno homo munto rico gostasse di una mulher pobre, necessitada até de lo essencial pra viver, i pra conquistá ela parlasse di qui era munto rico, i qui tinha terras, casas, edifícios, empresas, lanchas, avion, coleçon di carros e munto dinero nus bancos. Si a mulher aceitasse il casamento, ficaria una penumbra no espírito desse homo: ela mi aceitó pur amó u pelas minhas riquezas? Viu, Izildinha, qui forma imprudente de conquistar uno amore fue a desse homo?! Qui union sin alegria seria a dele. Num acha você, Izildinha, qui esse homo deveria ter conquistado su amore sin demonstrare su riqueza?
A Izildinha faz sim com a cabeça... O pároco continua:
– Il amore no puode ser fruto di uno interesse maior qui la persona amada, i pra quem vale a pena perder tuto, entregar tuti. Capito, ragazza, como il amore és especiale?
A menina concorda com um sorriso. Padre Domênico prossegue:
– Il mismo ocorre con Dio, Izildinha. Si nói visse Ele, nói tuto ficaria sin capacitá di livre escolha. Nói ficaria, inertes, sin acçión, como il ferro atraído pelo ímã: tuto o mai en la vita perderia o atrativo, graçia. Ma, Dio, qui é uno Amante por excelência – o verdadeiro sentido da parole amante precisa ser resgatado di sus usurpadores, que son unos traidores de lo amore – ... Escuzo, Izildinha, por este mio lamento; você ainda no sapere di qui és possibile il egoísmo humano... Mas parlava, mia pequena, qui Dio, querendo ser conquistado como uno homo i una mulher enamorados se conquistam, passa suave como una brisa; resvala delicadamente por nuestra vita pra no facere concorrência des leal con las criaturas qui disputam nuestro corazon. Assi, Ele si pone no mismo plano dos demais amores a serem cativados. I con isso, testa la sinceritate do amante... Capisco?
– Um pouco mais...
– Huumm... Acho que você no capisco isso de concorrência desleal, não é?
– É.
– Já se como parlare, Izildinha; vou acertar en nel punto! Era una vez uno bambino qui se chamava Juonzinho, i qui tinha um fiel e obediente cãozinho chamado Leléu. Una vez, o Juonzinho decidió testar la sinceridad dos sentimentos do cão, amarrando u animalzito em su casita por uno dia sin nada manjare, i sin su presencia para que ele ficasse con sodades deli. De note, Juonzinho chego i colocó un bife fritadinho e cheiroso du otro lado do corredor, i ficou no otro, fazendo festa, chamando o Leléu. Intão, pedió qui desatassem il perrito, certo de que cor reria até sus braços. Qual no fue la surpresa du bambino qui vió il cãozito no titubear i ir diretinho pru bife. Juonzinho fico munto triste i pensó qui valia pro su cãozinho menos que uno naco de carne frita. I assi, si tornou indiferente pro coitado do Leléu, que ao perder desde enton su companheiro de folia, morió di tristeza. Il bambino desconocia qui el cachorro carecia da libertá di escolhere, porque su instinto di soprevivência no permitia isso; é superior a sus forças. Apenas il homo puede ir contra su instinto, Izildinha, porque tiene inteligência i voluntá qui podem si oponer a los puxõnes de los instintos. Ma il dimais animales no consiguem, pue é irresistível il instinto a su limitada naturaleza, qui no tene voluntad libre... Capisco, Izildinha, il qui aconteceria con nói diante de Dio, qui é la Beleza Infinita i el Bene Supremo? I como la distância entre Dio i qualquer outro ser criado é infinita, seria uno absurdo no escolher a Ele. Sendo Ele il Criador, supera em perfeição a tudo los demais seres, qui sono una pálida imagem Sua. Nuestra capacitá di amare seria succionada por uno poderoso rodamoinho, qui tudo puode arrastar pra dentro de si... I agora, Izildinha, capisco?
– Direitinho, Padre.
– Ótimo! Agora nói vamos continuá con la Missa.
Terminada a cerimônia, as meninas vão correndo às bonecas. Chegam ofegantes, encarnadas. Brincam e almoçam não a comidinha que fizeram, mas a de Mariana. A visitante se sente à vontade naquele lar. Anoitece.
– Izildinha, sua mãe veio buscar você.
– Já vou, dona Mariana.
– Oi, filha.
– Oi, mãe, tava bom aqui! Deixa eu ficar mais!
– Você já brincou bastante por hoje; vi lá do apartamento. Mas se quiser voltar outras vezes... Mariana quer convidar você para as aulas de catecismo que ela dá para as filhas e algumas amiguinhas delas. Quer vir?
– Oba, quero, quero... Mas o que é caticismu?
– Catecismo?... Bem, ela vai dar aulas de religião a você!
– Ah, que nem o padre fez c’a gente, hoje?!
– Isso mesmo. Mariana me disse que vocês foram à missa. Que bom!
– Então quero-quero, mãe!
Mariana intervém:
– Ótimo, Izildinha, você será minha convidada de honra. As aulas são às quintas-feiras à tarde. Porém, como as demais meninas estão adiantadas nesse estudo, vou dar a você aulas particulares diariamente, tá? E a Margarida e a Janaína aproveitarão para repassar os temas também! Que tal?!
– Oba!!! – exclamam as três meninas.
– Então eu posso vir sempre?! – pergunta Izildinha.
– Claro, aqui fica sendo sua casa também... E essas peraltinhas aí, suas irmãs. Que tal?!
– Puxa vida! Que bom! Vou adorar!
E assim correm as coisas. A menina chega quinze minutos antes do grupo reunir-se, e Mariana passa-lhe os pontos já vistos pelas filhas. Depois, às quintas-feiras, unida às outras meninas, a aula discorre em alegre aprendizado onde todas riem, perguntam, ouvem boquiabertas as envolventes histórias do Antigo e Novo Testamentos. Por fim, seguem as brincadeiras com as anfitriãs até o crepúsculo, que é a hora de partir. No frágil corpo de Izildinha corre todas as noites a esperança de um novo dia para retornar ao convívio aconchegante das irmãs que agora tem.
Quando o Zé retorna do trabalho para o jantar, Izildinha já se encontra no seu ninho. Então o garoto vai até o muro para vê-la e lembrar a Deus que não a deixe morrer, sob pena de romper relações com Ele.
Mas um dia ao entrar em casa o Zé percebe-se só. O recado junto ao seu prato – “a comida está no forno” – o faz pressentir o que se passa. Corre até o muro e vê a mãe conversando com a Cida no apartamento, sentadas no sofá. Observa a Margarida entrar na sala e falar com as duas mães, que se levantam e penetram no quarto. A Izildinha não estava bem. O Zé jantou apressadamente e foi à Aquiropita recordar à sua Confidente o pronto desejo de cumprir o prometido rompimento com o Filho dEla... Depois seguiu para a escola, regressando da aula tarde da noite. Júlio o aguarda:
– Pai, e a Izildinha?
– Está doente, filho... Sua mãe já contou tudo a você, não?
– Já.
– Pois é, filho, são coisas da vida. Sei que é duro aceitar... Ela já fazia parte da nossa família, mas Deus tem outros planos...
– Aaah, Deus, Deus... Por que Ele tem que levá ela assim tão pequenininha!? Nunca mais vou rezar pra esse... esse... Carniceiro.
– Zé, não fale assim.
– Ah, falo sim... Que mal fez a Izildinha pra morrer?
– Nenhum, Zé.
– Intão, intão, por que o Carni... Por que Ele vai levá ela?
– Bem, Zé, todos iremos morrer... Você também.
– Eu não...
– Não seja pueril...
– Ah, eu sei que vô morrê, mas quando estiver bem velho...
– Talvez não... Morrem muitas crianças também. Vou levar você um dia à pediatria da Santa Casa ou à do Hospital do Câncer pra que veja como muitas crianças sofrem com fortaleza divina e morrem cedo. Agradeça a Deus a sua saúde, Zé.
– Intão, intão, tá vendo como Deus é um Cara ruim! Leva um montão de crianças!
– Não é não, Zé. Não pense que Deus é como o caçador que fica à espreita aguardando a vítima se distrair para atirar. Não. Deus é para aqueles que O amam um divino jardineiro que espera a flor ficar bonita para recolhê-la num esplêndido vaso com preciosa seiva que a manterá viva para sempre, para sempre, para sempre...
O Zé não consegue mais falar e chora com o rosto socado nos braços que estão cruzados sobre mesa. O pai continua:
– Deus vê ao mesmo tempo o presente, o passado e o futuro de uma alma e sabe quando ela está mais bem preparada, pronta pra ser levada pra junto de Si. Tenha certeza de que Deus plantará uma linda flor no Seu jardim. Não basta viver muitos anos, Zé. O importante é ir para o céu; se não, a vida, mesmo longa e produtiva, terá sido um fracasso rotundo. Os cemitérios estão cheios de lápides com a data de nascimento e de morte dos que ali estão enterrados. Ali há quem viveu muito; mas que aproveita ao homem viver muito e ganhar muito se vier a perder sua alma, Zé? A Izildinha está preparada para morrer.
– Ah, e por que tanta gente ruim também morre?
– Morre muitas vezes por motivos alheios à vontade de Deus; ou porque chegou o momento dessa pessoa ruim prestar contas.
– Ah, pai, mas também está cheio de gente ruim por aí azarando todo mundo. E por que Deus deixa esses caras viverem? – reponta o Zé com ar altivo de um erudito inquiridor.
– Deus permite que os maus vivam algum tempo para aproveitar o relativo bem que conseguem aqui embaixo, porque jamais alcançarão a verdadeira felicidade. As suas satisfações humanas – ou infra-humanas – são o triste prêmio para as migalhas de bem que tenham feito. Sendo infinitamente justo, Ele assim paga por alguma ação boa que talvez tenham feito um dia; mas não o suficientemente meritórias para apagar seus inúmeros erros e alcançarem a Bem-Aventurança eterna.
O Zé ouve e mantém-se com a cabeça enterrada nos braços.
– Bem, Zé, Deus sabe o que faz... E nós temos que fazer a nossa parte. Amanhã o Padre Domênico irá batizar a pequenina Izilda, e ela ficará linda para ser recebida no Céu. Eu e sua mãe seremos os padrinhos.
Dois dias depois fechou-se um livro chamado Izildinha, com poucas páginas escritas e muitas em branco a serem preenchidas na lembrança dos que conviveram com ela, até que estes também passem e todos sejam esquecidos pelos homens, menos por Deus. Na cama da menina repousam as bonecas e as figurinhas presenteadas pelo Zé. Janaína e Margarida, sulcadas pela dor, mantiveram-se sempre juntas da amiguinha e lhe falaram daquele Amor que o Padre Domênico descrevera na missa. A menina partiu enamorada, ansiosa como noiva ao leito do amado.
Seguiram-se momentos dolorosos. A Cida e o marido tiveram a companhia de Júlio, Mariana e das crianças o tempo todo. Sentiram-se reconfortados por amizades tão leais.
Final da semana. O casal enlutado almoça no lar dos Larletos para mitigar o pesar que o envolve. Os maridos conversam na sala; as esposas no jardim. Os pares confidenciam sentimentos agitados pela virulência da última borrasca. Parecem-se velhos e velhos amigos:
– Mariana, obrigada por tudo...
– Cida, você nada tem que me agradecer; eu é que devo agradecer a você pela Izildinha, que também passou a ser minha filha, pois continuo sendo sua madrinha de batizado. A fortaleza da menina ao saber da morte iminente, e o sentido sobrenatural com que a aceitou, me mostrou algo que nunca pensei ver nas crianças: o modo como elas podem abraçar os princípios da fé e vivê-los tão intensamente até em situações extremas.
– Eu... eu vi minha filha tão feliz nestes últimos meses em que conheceu a sua família... Senti inveja de você... Sabe, Ma riana, após o nascimento da Izildinha fiz operação para me esterilizar... Dei um monte de desculpas, mas no fundo queria sos sego... Que egoísta fui; só pensei em mim... Dei à menina muitas bonecas para ser feliz, quando o que de verdade alegrou o coração dela foram as coisas que não dei: a companhia de irmãs, a fé que a fez abraçar a morte cheia de esperança e um lar tão alegre como o seu, do qual insanamente privei também meu marido, que no fundo gostaria de outros filhos. Fico imaginando o desespero dela ao partir sem tudo isso que você deu, Mariana... Eu, cegamente, a privava da fé na ignorância de que ela mesma deveria decidir o caminho a seguir... Se assim fosse, a coerência estaria em ter deixado minha filha crescer para decidir se queria ou não todas as coisas que lhe dei sem perguntar, por julgá-las boas: meu seio, quando era pequenina; os remédios amargos para curá-la; a escola, que a obrigaria a freqüentar por saber o bem que daí adviria; os lugares que a privei de ir, por julgá-los perigosos... Quanto à fé, que a faria discernir a verdade e o erro, enchendo a vida dela de amor e fortaleza, e ofereceria a ela o prisma para filtrar as coisas boas e más do mundo, eu a privava... Estava semeando a anarquia de um espírito empobrecido de Deus, sem norma; uma pequenina alma pagã que cresceria faminta e desnutrida, sem forças para um dia se levantar ou distinguir o certo do errado, pois quem cresce embrutecido não percebe a delicadeza; para quem se acostumou a viver na sujeira e na desordem, a limpeza e a ordem parecem não fazer falta... Se os pais representam Deus junto aos filhos, falhei na missão, Mariana.
Cida prorrompe em lágrimas. Mariana silencia e não sugere a amiga que reprima o pranto. É bom chorar. Seguem-se minutos do necessário silêncio que conduz à reflexão e ao ar rependimento. No momento oportuno, Mariana diz à amiga:
– Cida, muitas mulheres estão cegas neste momento e não percebem o erro que cometem ao se esterilizarem. Privam-se voluntariamente de uma faculdade que a natureza não autoriza a fazê-lo. Uma mutilação assim é sempre algo ruim porque rompe a integridade moral da pessoa e a do amor verdadeiro, que deve estar cercado de respeito e fecundidade... Fecundidade que pode ser espaçada por meios naturais, se há verdadeira neces sidade disso, sem deixar que o egoísmo se aproprie dessa concessão de tempo... Mas Cida, tive notícias de que é possível reverter alguma dessas operações! Você e o Jorge são jovens e talvez possam ter outra filha...
– Puxa, Mariana, daria tudo na vida para ter outra filha...
– Você terá, Cida.
Na sala falam-se os maridos:
– Pois olha, Júlio, sinto um vazio... Vazio não, é um sentimento diferente, algo parecido com perda... Não, não é só perda... Puxa, sempre tive dificuldades para exprimir o que sinto...
– Eu posso compreendê-lo, Jorge.
O pungente silêncio de uma voz amada que não mais será ouvida dói, aturdi.
– O que sinto na verdade, Júlio, é arrependimento... Isso mesmo, complexo de culpa!
– Jorge, você não teve culpa de nada!
– Refiro-me à culpa de ter deixado minha filha tão só nestes anos. Nunca estava em casa; sempre trabalhando, trabalhando, trabalhando. Convivi pouco com ela nestes seis anos; apenas nos fins de semana, quando não fazia os meus programas esportivos... Sempre acreditei ter muitas ocupações profissionais, mas agora vejo que fui levado pelo meu egoísmo, apesar de dar a desculpa de que agia assim por causa da família. No fundo alimentava a minha vaidade, o meu desejo de estar por cima, de ter poder, dinheiro, um bom carro. Cursos e mais cursos à noite para me manter atualizado; freqüentes reuniões fora do horário habitual de trabalho... E sempre com a infeliz desculpa de fazer tudo isso por minha família. Sinto-me mal, Júlio... Se tomamos a forma daquilo que amamos, transformei-me num burocrata ganancioso, e não em pai. Vejo claro neste momento que o trabalho, com o consequente prestígio de quem o faz bem feito, deve ser buscado primeiramente para servir aqueles que estão mais próximos de nós. A minha vaidade tornou vil o meu trabalho, que saiu do seu eixo e esmagou valores maiores do que ele. Sou mau, Júlio. Nem poderei reparar o mal que fiz, pois não tenho mais filhos.
– Há tempo para recomeçar, Jorge. Você e a Cida são jovens e poderão ter muitos filhos.
– Essa é a questão, Júlio...
O amigo confidencia a esterilidade a que o casal se submetera, e sentencia que no fundo queria mais tempo para si mesmo.
– Jorge, é bom viver para reparar o mal que fazemos. Se vocês não puderem ter mais filhos, poderão adotar uma criança desamparada e dar a ela um lar. Ao não ter filhos, Jorge, temos tempo para dedicar-nos aos filhos dos outros, e até para ajudar na educação de crianças que vivem em orfanatos e abrigos. Esses locais sempre carecem de mãos que os ajudem. Assim, Jorge, transformamos o mal que fizemos em bem maior.
Os dois maridos continuaram longamente a conversar. A morte da Izildinha tocou a todos; também as crianças: Margarida e Janaína, chorosas e desfeitas, longe estão de se animarem com bonecas; Tonico viu pela primeira vez uma pessoa morta e vislumbrou existir um fim pessoal; o Zé... Bem, o Zé anda bastante calado e de mal com Deus: “romperam relações de amizade”, frase feita que repete ao Chefe lá de cima em contínuo diálogo, que não deixa de ser a mais autêntica das orações, vejam só. Aquilo de que morrem muitos moleques pairou no espírito do Zé, dando-lhe vago e prolongado temor. Tentou desfazer o sombrio sentimento dizendo para si que na hora da morte imitaria a fortaleza da Izildinha. Ao continuar trepidante e sem discernir que a fortaleza não exclui o medo – forte não é quem não teme, mas quem apesar do medo enfrenta o perigo –, sentiu medrar em sua alma a convicção de ser um verme fraco e covarde. Ficou deveras arrasado com tal descoberta. Seu raciocínio emaranhou-se tanto que desembocou no seguinte silogismo: – “Os moleques morrem; eu sou moleque; logo vou morrer. Brrr...” Tudo muito complicado, inextricável, mas é o que anda apavorando o Zé. Mal sabe o pirralho ter trilhado um falso ra cio cí nio dedutivo que Aristóteles, lá na Grécia antiga, já demonstrara sua pouca lógica e consistência... Mas o problema tende a continuar porque o Zé desconhece o tal de Aristóteles, e nem se lixa por conhecê-lo.
Certo dia, o Zé acordou e teve dissipadas as dúvidas:
– Vô morrer!
O calafrio dos exames de matemática perpassa-lhe a espinha e ubica-se na barriga, arrancando dorida exclamação do profundo de sua alma:
– Novegtz-nogutz, tô frito! – diz a tal expressão mágica quando não sabe expressar seus sentimentos.
O que era remoto fez-se presente; o presságio vingou em certeza.
– Cheguei ao fim da linha! – diz para si:
– Adeus, mundo; adeus, futebol, música e dança; adeus, tanta comida boa; adeus, tudo; adeus...
Oh, que tristeza sente o Zé, vendo pela janela o sol brilhar indiferente à sua sina:
– Bestão de sol! – e o astro rei que não se mancou levou a sua.
Sim, desvaneceu-se tudo e ali no canto do quarto jaz a caixa de coleção de maços de cigarros:
– Pra que essas porcarias; vô morrer mesmo...
Que cara a do Zé, barbaridade! E o pior de tudo é que concluiu ser iminente a sua partida deste mundo, não mais delicioso! Por quê? Ora, por quê, por quê... Dá para acreditar? Notou umas pintinhas no braço semelhantes – só para ele – às da Izildinha devido a doença no sangue!
– Vô morrer qui nem a Izildinha!
Sem fome – inusitado acontecimento! –, o Zé vai para o trabalho. Jururu e a suspirar durante o expediente, desiste de jogar tênis de mesa na hora do almoço e resmunga da futilidade dos jogos. Também não partilhou sua amargura com ninguém:
– Pra quê tudo isso? Será que esses caras que ficam gritando lá no grêmio não sabem que vão morrê um dia?
O Zé vai caminhar no centro da cidade. Resta-lhe uma hora de almoço. Será, talvez, o último passeio; de despedida. Que triste parece tudo. Gente vendendo, comprando, rindo, in do, voltando:
– Pra quê tudo isso?...
No viaduto do chá, admira-se:
– Uau, quanta gente! Vai ter gente assim nos “insquintos dos infernos”... Lá não, em qualquer outro lugar, menos no céu, que tô de relações de amizades cortadas com Deus... Intão é nos “insquintos dos infernos” mesmo... Puxa, mais 50 anos no lombo desses caras que tão andando por aqui hoje, e não vai sobrar ninguém pra contar nenhuma história! Êta vida besta... Será que esses caras sabem que vão morrê um dia? Não tão com cara de sabê, não...
À noite, durante o intervalo de aula, o Zé sentou-se calado no degrau da escada e assistiu à pelada no pátio. Não aceitou o convite para participar do jogo. Apenas agradeceu e murmurou consigo:
– Êta vida besta! Pra que jogar bola se vocês vão morrer mesmo?
Os buliçosos amigos assombraram-se com a recusa, jamais ocorrida. Decidiram não sulcar terreno minado e iniciaram a curta disputa.
De volta à classe, o professor de biologia afana-se por colocar naquelas cacholas duras os nomes dos ossos do corpo humano, e todos se empenham em decorá-los, exceto um que resmunga de si para si:
– Que bobeira, se a gente vai morrê mesmo, pra que decorar tudo isso?
Findada a aula, o Zé zarpa com fome de jantar uma boa comida caseira, apesar de que logo morrerá. Mas um bucho cheio – pensou ele – garantirá no momento fatal alguns minutos a mais de vida. Em casa, o pai fez delicadas invectivas para descobrir a causa da tristeza do filho. Mas o garoto, reservado demais, parece-lhe uma mina escura que o convida a aguardar a luz do dia para adentrar. Júlio resolve não insistir: – “uma boa noite de sono o recuperará”, pensou.
E o pior é que não recuperou. É manhã seguinte, e o Zé continua com aquela tromba de palmo e meio. Mariana prepara o café e analisa o silêncio que não se encaixa com o comensal ali sentado: nenhuma pergunta feita ou fofoca contada; nenhum pequeno furto famélico na geladeira, nada, nada. Aproxima-lhe o leite e o bule. Não era dia, mas colocou na mesa o pote de geléia de morango, que fez luziluzir os olhos do menino: é o seu último doce de morango! O Zé serve-se com gosto. A mãe senta-se à sua frente, apoia o queixo nos braços cruzados sobre a mesa e faz uma engraçada careta ao imitá-lo a comer: enche a bochecha de ar e o arremeda a mastigar. O garoto ri discretamente da brincadeira da mãe. Quando o Zé lança a colher no pote de geléia, a mãe passa a língua nos lábios e diz:
– Huuummm!
– Qué?
Mariana faz sim com a cabeça, e a colher desvia o rumo. Repete-se o “huuummm” que a mãe faz, lambendo os lábios.
– Qué mais?
Outro sim com a cabeça faz a colher imitar um aviãozinho que pousa entre os lábios da mãe:
– Mã...
– Huumm...
– Eu... eu vô morrê qui nem a Izildinha!
Mariana ainda com o queixo sobre os braços apoiados na mesa, apenas soergue a sobrancelha e cerra os olhos em cômica fisionomia de admiração e pergunta:
– Ah, é... Quando o meu Zé vai morrer, e de quê?
– Olhe só o meu braço! – e arregaça a manga da camisa.
A mãe dá um beijo no braço do Zé e diz:
– Tá magrinho o braço do meu ninim, né?!... Mas não tem jeito de engordar! Faço de tudo!
Mariana ainda tem apoiada sua cabeça sobre os próprios braços.
– Não é isso não, mãe! Olhe as pintas que a Izildinha tinha!
– Tadinho dele, tá com impigem!
– Im... o quê? Num falei, num falei! Vô morrer!
– Impigem!... É uma dermatose.
– Intão, viu só? Vô morrer desse troço aí!
– Vai não! O meu fiinho vai ficar novinho em folha! Já dou cabo dessa marvada.
Mariana retorna com o vidro de tinta de caneta e algodão, e pinta de azul os pontos de impigem no braço do filho.
– Pronto, agora quem vai morrer são os bichinhos que moram aí.
– Mas isso não é grave, mãe?
– Nem um pouco...
– Ah, é?! Puxa, levei um bruta dum susto!
– E por que esse fio não contou pra gente?
– Ah, eu não queria dar mais uma notícia triste...
– Trapaiaaaado esse menino.
O Zé ri....
– Xi, mãe, tô atrasado! Tchau. Hoje tem campeonato de tênis de mesa lá no grêmio do Magazine!... Ah, mãe, tô meio duro e queria comprar umas esfirras à tarde: a senhora me dá uns trocados?
– Só um pouquinho...
– Ah, mãe, se o Aristeu e o Zé Fofinho passar por aqui, diz pra eles que domingo vai te jogo contra a Rua Abolição, lá no campinho, tá?
Tudo voltou ao normal e o verbo foi salvo:
– Passarem, Zé...
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

