« Aprenda a Admirar »
O domingo se aproxima. Padre Domênico, aflito, não consegue compor a homilia da missa das crianças... Só uma coisa é certa: “A Simplicidade” será o tema, e ninguém o dissuade dis-
so – aah, não mesmo. Soltar o nó do embrulho é a questão: as ideias, puf!, desaparecem e deixam apenas névoas na mente. Ao divisar alguma trilha ou ponto de luz, sôfrego se põe a caminho e logo topa com um precipício ou inopinada escarpa. Exausto, retorna ao ponto de partida com um nécas debochado rindo dele. A tamanho empacamento se somou o trabalho habitual da Paróquia Nossa Senhora da Aquiropita: confissões, batizados, casamentos, aulas de catecismos, serviço de secretaria, visitas pastorais, creche...
E num estalar de dedos voa a semana e, pimba, chega o domingo. A garotada abarrota a nave central do templo. Nos bancos da direita o zum-zum-zum dos meninos; nos da esquerda, os ti-ti-ti agudos das meninas. A dignidade do local autoriza quando muito um sussurro, e a criançada se vale dessa prerrogativa.
Blém, toca a sineta. Os fiéis levantam-se. O pároco entra recolhido e acompanhado dos dois coroinhas que ganharam no par ou ímpar o direito de ajudar a missa, somado ao privilégio de tomar o café da manhã com marmelada e queijo no refeitório dos padres; incentivo esse maior que o da piedade. Mas Deus, que conhece bem o estomago de moleque, também sabe perdoar.
A Santa Missa é iniciada. Padre Domênico celebra-a com unção e piedade. Lê no Evangelho de São Mateus a passagem que diz:: “Se teu olho for são, todo o teu corpo será são”. Chega o momento da homilia: – Ai, Madona, io tentei ma no consegui. Me ajuda vai! – reza por dentro o aflito pároco.
Em silêncio, o padre deixa o altar e se dirige aos degraus do presbitério, próximo aos fiéis. Varre com os olhos a assistência, que lhe prega a vista coçando o nariz, e em alguns corre um fio de muco. Ainda não sabe o que preceituar. Fixa-se em cada criança que o observa com expectação e boca aberta. Diz, com seu carregado sotaque italiano que, ao tentar parlar il portugueze, mistura palavras castelhanas:
– Filhas, filhos mios... sei qui vocês gostam de filmes con heróis espetaculares qui fazem cosas mirabolantes... Também io gosto munto.
Pausa... Continua:
– Olho pra cada uno de vocês e penzo que nada se compara ao olhar duma crianza.
A assembléia envaidece-se.
– No me refiro aos olhos de vocês, que já são unos malandros e espertalhões...
Respira aliviada a platéia.
– ...Io penso no olhar dus vossos irmonzinhos qui, entretidos, brincam agora em vossas casas!... I sabem o que isso significa?
– Nãaaooo – respondem todos.
– Significa qui la beleza está na sim-pli-ci-ta-de.
– Padre Domênico, onde fica esse lugar?
– Menina, este lugar fica bem aqui dentro du corazón. Uno homo simples não precisa ir longe u sair de si para ser felice. Quem no tem divisiones internas, face dupla, due personalitá; quem é de una peça só, sin dobras no espírito, é munto felice e no precisa se enganar pra ser felice, nim si socorre do alheio, ou das cosas qui estão fora de si próprio. Uno homo simples no tiene inveja e si aceita tal como é; i quando vê que os otros tene mai qualidades do qui ele, agradece a Dio que distribui sus dons como quer. Uno homo deixa de ser simples ao se complicare, ao se escamotear, ao mentir, ao si artificializar. Quem si artificializa, quem pretende mostrar o qui no é pra ficar bene, dexa di admirar las cosas simples de la vita, porque elas são como são. Uno homo simples não precisa di mentira, nim do espetaculare, estrondoso, chamativo e espalhafatoso para se alegrar. Crianzas, la beleza se esconde atrás de la simplicidade. Procurem ela aí! Capito?
– Siiimmm...
– Huumm – murmura o Zé com seu umbigo – acho que vai ser chato procurar a beleza na simplicidade. Tô vendo tudo...
O azedume do Zé tem como fermento a disputa no palitinho, que lhe fez perder o direito de ser um dos acólitos da Missa. Não é, portanto, um problema da alma, mas de um estômago que se viu privado dos acepipes de praxe.
Continua o Padre Domênico:
– Acabamus di ler no Evangelho qui, “se teu olho for são, todo o teu corpo será são”. Isso significa, mios filhos, qui si o nostro olhar no estiver doente, obcecado, nói saberemos apreciar as tantas cosas belas que há em la criaçón... Il mundo está cheio di cosas simples, belas, i Dio si esconde atrás de cada una. Ma só quem possui olhos limpios vislumbra la beleza en la simplicitá... Quem tiene los olhos embotados de besteiras não vê sinó porcarias.
Silêncio. O padre percorre com os olhos seus miúdos fiéis. Continua:
– Crianzas, pouca beleza si compara ao botón de una rosa desabrochando i ainda molhado pelo orvalho de la note: o colorido, a suave fragrância, i a aparente fragilitade de las pétalas aveludadas tienem una forza estranha que cativa il corazon i fa pensare no Autor di todas essas maravilhas... Colham en las manos una rosa e passem os dedos sobre ela! – o padre faz com as mãos os movimentos que os lábios sugerem. É tão suave qui chega a subtrair-se à sensação do tato... Quem de vocês tene una lente ou uno microscópio em casa?
– Eu...
– Eu tenho um microscópio de brinquedo!
– Pois então, peguem una lâmina bene lisa, a mais lisinha que a máquina du homo possa produzir – talvez essa que o papá de vocês usa para se barbear –, i coloquem ela no foco du microscópio. Façam lo mismo con una folha de planta apanhada a esmo no jardim ou num vaso. Filhos, filhas, vocês von notar qui la lâmina está cheia de buracos, crateras, irregularidades. Ao contrário, a folha da planta terá una textura perfeta, con delicadíssimos veios e traços simétricos, miniaturados com una paciência infinita di quem faz tudo bene feto. Então, isso não é bonito aos olhos limpios?
Vários garotos respondem:
– Uau, se é!
– Lógico!
– Puxa, se é!
– Manécas, si é – exclama o Zé para o Aristeu ao seu lado.
A pergunta provoca certo alvoroço e troca de impressões entre os fiéis. Quem nada responde é cutucado no fígado pelo cotovelo vizinho. É preciso manifestar a opinião, que pode ser um “sim” com a cabeça.
– Já notaram a arquitetura, i a uniformidade geométrica de una teia de aranha?
O silêncio à pergunta indica que por ali a falta de observação é um mal geral. Continua o pároco:
– Pregunto a vocês, bambinos, quem ensinó u juon-di-barro a construir su casinha lá no alto da paineira, já qui ele não fez curso de pedreiro?!... Querem mais, crianças?
– Quereeemos!
– Ampliem no microscópio il olho de una formiga! Que belo! Vocês irão ver una calota, espécie de semicírculo formado por centenas di pequenas bolinhas de tênis de mesa que parecem olhar pra tutos los lados ao mismo tiempo. É incribile, crianzas, por mais que il homo invente, só cria cosas mortas! So-
mos nói incapazes de criar uma formiga com vita própria!
Ditas tais palavras, o pároco emudece e pensa que a única vida que Deus permite ao homem criar, como divina prova de confiança, são os filhos, portentoso privilégio por vezes incompreendido. Entristece-se ao pensar naqueles que por egoísmo secam as fontes da vida. Fixa-se novamente nos rostos das crianças e sente renovada sua esperança:
– Crianzas, las grandes máquinas son cosas mortas!... Me voi terminar. No si esqueçam di qui é preciso ter olhos limpios pra descobrir la beleza de la vita!
– De ramela também, Pe. Domênico?
Risos.
– No, Aristeu, de cosas erradas.
– Tá bom...
De volta ao altar para prosseguir a Missa, o pároco pisca filialmente à imagem da Madona, que preside o retábulo do presbitério, agradecendo-a pelas luzes proporcionadas. E naquelas cabeças duras fervilha um monólogo interior:
– Xi.
– Tô frito.
– Legal!
– Beeleza!
– Ai, ai, ai.
Termina a missa.
– Aristeu, vamos embora?
– Vamos. Quando eu chegar em casa vou pingar colírio nos olhos pra deixar eles bem limpos. Aí, né, vou descobrir umas belezas na simplicidade!
– Boa ideia, Aristeu, vou fazer o mesmo. Tchau.
– Tchau, Zé.
Ao entrar em casa, o Zé vê o Tonico agachado no jardim, brincando de impedir com o dedo a passagem de um tatuzinho--bola, aflito por se meter sob uma pedra e livrar-se do apuro.
– Puxa, essa cena é bonita! Acho que o Pe. Domênico iria gostar de ver!
Na sala, observa Glorinha pentear a boneca. Lembra-se das palavras do pároco de que nada se compara ao olhar limpo de uma criança pequena.
– Glorinha, vem cá!
A menina larga a boneca e corre até o irmão, que em silêncio a admira.
– ...Nada não; tá tudo bem, Gló.
Perplexa, Glorinha não compreende então por que fora chamada e hesita no que fazer. Entreolham-se até que a menina desiste e volta à boneca.
Júlio passa e estranha o filho absorto, de olhar vago no meio da sala.
– Tá tudo bem, Zé?
– Hã?... Tudo, pai... Puxa, como a Glorinha é bonita, né?
– Se é!
– O senhor já tinha reparado no olhar limpo dela? O Pe. Domênico disse que isso é uma belezura da vida.
– É verdade, Zé; tenho observado isso em cada filho todos esses anos. Outra coisa bonita das crianças é como aceitam suas limitações! Já reparou como elas acham natural os tombos que levam? Enxugam as lágrimas e seguem adiante sem humilhações... Bem diferente dos adultos quando levam um tombo...
– É verdade, né, pai?!
– Tudo isso é bonito demais, Zé... Bem, garotão, vou à Missa com a sua mãe e as crianças. Tchau.
– Tchau. Tenho jogo lá no campinho e volto pro almoço.
Na segunda-feira, o Zé vai retirar documentos em um cartório próximo ao Parque da Água Branca. Antes de cumprir sua tarefa, adentra no parque e vê ali muitas aves expostas em viveiros. Ri do modo desengonçado do marreco caminhar, e admira-se do andar majestoso e imponente de um soberbo pavão que, sabendo-se fitado por minguada platéia, desfila num interminável vai-e-vem. Um punhado de pipoca é lançado ao gramado por uma menina, e as aves da praça se lançam sôfregas ao alimento. No desespero de ficar sem os grãos, o pavão abandona os trejeitos reais e precipita-se esfomeado às pipocas. Tendo que arrastar muita plumagem, se atrasou no percurso e só encontrou pedrinhas, enquanto os demais bípedes limpavam o bico bem alimentado. O Zé mofa do ridículo papel do presunçoso galináceo, agora desfeito pela carga do vexame. O garoto compraz-se de ter descoberto a beleza da simplicidade no zombeteiro e desajeitado gingar do marreco.
A caminho do cartório, matuta o Zé que o pavão é um boboca exibicionista, tal como aquele bói que acabou de entrar no Magazine, e que a turma o tem atravessado na garganta. E não é para menos: o novato ao caminhar dá passadas gingantes, esmalta as unhas e perfuma-se mais que viúva em baile da saudade; isso tudo sem contar as gírias incompreensíveis que vomita e os mil garganteios que conta. Talvez lhe caísse bem o apelido de Pavão!
– Oi, Pavão – ensaia o Zé.
Por mais interessante que soe a alcunha, o Zé tem por certo que o único modo de erradicar a empáfia do bói-pavão é dar ouvidos ao acalentado desejo do Brachola: descer o cacete nele! A honra de fazê-lo será objeto de sorteio na próxima reunião no Setor de Arquivo.
Esvai o tempo; cai a tarde... E o Zé não se dá conta, tão enlevado que está com a beleza da simplicidade. A inconstância das borboletas nas flores do parque o faz gastar trinta minutos em abstração contemplativa. Ao atentar para as horas aflige-se, e dispara de olhos pregados num colibri. Plumb! Choca-se com um cego que não desviou-se do torpedo. No embate, a bengala do infeliz é duramente atingida. O homem protesta tateando o chão à procura do seu sexto sentido, enquanto o Zé desentorta no joelho o bastão reduzido a cabide. Devolvida a bengala, mil perdões pede o Zé, mas enquanto o intrépido caminhante retorna à trilha original, o moleque ouve o que não quer.
Concluído o encargo, o garoto volta ao Magazine e enfrenta o olhar severo da subchefe, que o divide entre o relógio e o relapso servidor. Não fosse a presença do seu Gouveia ali, muita bronca correria. Astuto, o moleque encarece nova tarefa ao chefe-maior e dá no pé, convicto de que a artimanha atingirá duplo efeito: 1) Dona Maria logo esquecerá a pendência; 2) Seu conceito subirá com o chefão, que logo vai levar uma paulada, pois o bói prepara pedido de aumento salarial.
Do trabalho, o Zé seguiu direto à escola, e desta para casa, perto das 22h. O pai aguarda-o como sempre ou lendo um livro de contabilidade ou um romance, dependendo do dia.
– Oi, pai!
– Oi, Zé! Como foi o dia?
– Passei matutando naquelas coisas que o Padre Domênico falou pra gente ontem. E sabe da maior?
– Não, o que foi?
– O Seu Zacarias, nosso professor de português, falou de poesia pra gente e depois de ter explicado o que era, pediu pra gente fazer uma. Veja a que fiz! Tirei nota 10!
Júlio recebe a folha de caderno:
“Não sou poeta
Não tenho idade,
Mas me afeta
A simplicidade.
Aprendi admirar
A criança a brincar,
O pavão se ferrar,
A borboleta zarpar.
Vi o Tonico banzando,
O tatuzinho penando,
O marreco sambando,
A esfirra cheirando,
E eu me babando.
Que beleza é a vida
Que aprendi admirar.
Vejo ela no simples,
Deus nela está”.
– Puxa, não sabia que havia um poeta nesta casa! Mas a última estrofe não rimou!
– Ah, pai, já era tarde; e era o que eu sentia...
– Puxa, posso dar um abraço nesse poeta!
– Ôbaaa – o Zé lança os braços no pescoço do pai, e aperta Júlio contra seu estreito peito.
Depois do abraço, o Zé janta o repasto de um pelotão de soldados após um dia de andanças em jejum. Conversam. Riem. Em seguida, lavam os pratos e talheres utilizados.
– Vamos lá, poeta, pule de cavalinho nos meus ombros!
– Ôbaaa!
Em dois saltos o Zé engarupa-se nos ombros fortes do pai e, lá do alto, se desvia do lustre, do batente da porta, e chega ao quarto dos meninos:
– Boa noite, projeto de poeta. Amanhã será um outro poema épico.
– Boa noite, pá.
Júlio vai para o seu quarto. Mariana dorme – será a primeira a se levantar – e a suave luz do corredor penetra pelo entreaberto da porta, e alumia o rosto da esposa. O marido percebe o encanto indefinível que emana de toda criatura justa que repousa profundamente, sobretudo sendo ela tão bela. Enquanto se prepara para deitar, Júlio sente ímpetos de cantar, e o faz com voz velada, gutural, apenas gritando no coração, a canção “This is my song”, de Charles Chaplin, com uma pequena alteração que o autor certamente aprovou desde sua eterna morada:
“The world cannot be wrong
If you live in there... my sons” (O mundo não pode estar errado, se neste mundo existem vocês... meus filhos).
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009)., e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

