« Dia Chato »
– Que dia chato, não, Aristeu?
– É mesmo! Ninguém aparece aqui no campinho pra gente jogar bola...
– Esse pessoal tá muito molengão...
– Vamos chutar pênalti?
– Boa, vamos!
Chutam, rebatem, rebatem, driblam, driblam e arfam. Um contra um e o sol a pino como espectador. Duas horas depois, exaustos, os dois ofegantes garotos esparramam-se sobre a terra, arrastando-se até a minúscula sombra da trave. Tentam o diá logo:
– Zz...Zé, n...num guento mm...mais... Va-vamos... pa... pa... pa rar?
– ...Na...da dis...so... Tô apanhan...do de 98 a 97... Só se você deixar eu fa... fa-fazê um gol!
– Qqque...na...da... Você, ufa, precisa... aprender a... pe... pe... perder... ...
Fôlego recuperado, a conversa é fluida:
– Então vamos ficar jogando o dia inteiro, até o primeiro afinar e desistir!
– Uma óva, Zé; eu vou parar!
– Ah, é! Então ganhei porque você afinou e fugiu de campo!
– Não fugi não! Pode chutar essa porcaria de pênalti, e aí a gente acaba, der no que der, tá bom?
– Tá.
Esbodegado, o Zé se arrasta até a marca do pênalti:
– Pronto, vou chutar!
– Chuta logo, vai.
– Pô, Aristeu, você não vai ficar di pé aí no gol pra defender?
– Mas, Zé, eu não tou no gol?
– Tá, mas tá deitado junto da trave! Fica di pé!
– Não fico! Nenhuma regra do mundo manda o goleiro ficar di pé pra defender! Isso é pobrema dele! Se ele acha que é melhor agarrar a bola deitado, ninguém pode obrigá ele ficá di pé... Chuta logo essa bosta aí, vai!
– Tá bom, vou chutar! Mas você vai agarrar, né?
– Ô, si vô...
– Intão lá vai!
O Zé toma distância para carregar no chute, indo até à trave no outro extremo do campo. Pára. Respira fundo. Concentra-se e represa forças. Mira o gol e dá patadinhas no chão com o bico do tênis.
Aristeu, pachorrento e abatido pela preguiça, serpenteia lerdo feito jiboia que entranha um bezerro, e se ajeita mais atrás do pau da trave.
– Posso chutar, Aristeu? – berra o Zé.
– Pooode! – e resmunga: – Birosca, vem aí uma baita duma bomba dada de bico...
– Mas você não tá no meio do gol, pô!
– Zé, tá alembrado da regra?
– Regra o cacete; você tá é com medo de agarrar a bola!
– Queemm, eeeuuu!? Meeedo? Ah, ah, ah. Chuta essa porcaria aí que ocê vai ver o que é avoar na bola! – diz isso aconchegando-se mais atrás da trave.
– Então vou chutá, tá?!
O Zé faz cara de mau, junta os dentes, encrespa os lábios, franze as sobrancelhas, prende a respiração e inicia a carga letal em direção à bola. Aristeu, apesar de gordo, se espreme o indizível atrás do caibro da trave, deixando apenas o largo traseiro desprotegido.
E lá vem o Zé... Rompe a velocidade do som... O ar se desloca como que arremessado por uma turbina de jato... Vem chegando, chegando e bradando feito guerreiro em carga de ataque, como nos filmes:
– Aaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaoooooooooorrrrr...
Aristeu comprime as pálpebras, esconde o rosto e se contrai todo na expectativa de um impacto em suas carnes gordas, suadas e doridas:
– Puuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmm...
O goleiro ouve a bicanca, verdadeiro petardo atômico que catapulta a bola e a faz rasgar os ares. De olhos cerrados, Aristeu aguarda o choque da esfera contra algo, melhor, contra si próprio. Silêncio... Silêncio... Nenhum impacto, nenhum estrondo, mas apenas o trinado de um tico-tico, único expectador que desde a moita de capim se preparava para iniciar um “Réquiem a Aristeu”, já desnecessário. Ao abrir os olhos, Aristeu vê o Zégas olhando para o céu e descrevendo uma parábola com a cabeça.
– Porca la pipa, Aristeu, a bola atravessou por cima do muro, quebrou o fio do poste aí da Santo Antônio e foi parar lá pelos lados da São Domingos! E agora?
– Xiii, Zé!!! Quebrou o fio do poste? Vamos espiar pelo canto do muro pra ver onde ele caiu!
Sorrateiros, dois pares de olhos que uns cabelos ocultam espreitam rente ao muro a generalizada confusão no meio da rua. Um falatório desatinado tenta explicar o fenômeno ocorrido em fração de segundos: há quem jure ter visto um disco voador romper o velho fio; para outros foi um míssil. O exagero chega às raias do absurdo com duendes, demônios e outros seres danados que dizem riscar os ares. Mas o resultado é unânime e à vista de todos: um fio podre, desprendido do alto do poste, debate-se no chão faiscando num misto de dragão endoidecido e raio incandescente. Gritos, buzinas, gente correndo, crises de choro. Seu Geraldo berra aos que podem ouvi-lo para se abrigarem no bar, e desce a porta de aço isolando-se do mundo; Mifumo, o japonês da tinturaria, dá pulinhos incessantes, aponta o fio com o braço e grita repetindo sempre a mesma frase, apimentando mais a situação:
– É pirigoso, né; é pirigoso, né; pode morê, né; pode mata, né...
Um grupo de transeuntes é encurralado pela corda elétrica. A víbora, na sua dança letal, se ergue, torce, contorce, retorce; aproxima-se e afasta-se, aterrorizando o acantonado ajuntamento. Dona Abigail cai de joelhos e brada: – Se escapar dessa prometo não ir mais na igreja dos crentes; volto pra missa da Aquiropita!
Animado, seu Montesano aproveita o ensejo e promete deixar de fumar, por uma semana, se sair vivo.
A graça é concedida e o enfurecido e coruscante pavio abandona o bloco de fiéis, volta-se e surpreende outro grupo escafedendo-se nas pontas dos pés e os assedia:
– Aí, minha mãe, aí vem ele!!!
Aos tropeços, cotoveladas e empurrões, os fugitivos debandam ao ponto de partida num desespero ímpar, e deixam o último da fila para servir de boi de piranha. O azarado grupo pede clemência e a víbora concede afastando-se e arremetendo-se em faíscas contra os carros parados no meio da rua:
– Aaaaiii, socooorrooo!
Os veículos são abandonados e na fuga mal deu tempo de desligar os motores. Motoristas despistados lá longe, no fim da fila, buzinam com insistência pedindo passagem. Corre um alarido de que tudo vai explodir. Moradores aos prantos abandonam as casas e carregam filhos que berram e alguma tralha apanhada às pressas.
Na balbúrdia geral, a sirene do carro de bombeiros sequer é ouvida. Um laçador da carrocinha de cachorros tenta caçar o fio, mas é obrigado a debandar em disparada com a corda de fogo ao seu encalço. Dona Carlota, que é mais gorda que a Dorinha, desaba e 20 homens puxam-na para dentro do jardim da Dona Carmela.
Súbito, tudo serena. Foi cortada a energia elétrica da rua. O fio aquieta-se e faz lembrar o que alguém já descrevera acerca dos dragões das festas populares: que no final da folia perdem toda a sua onipotência e jazem abandonados num paiol, expondo toda sua fragilidade feita de andrajos coloridos e varetas de bambu. Numa triste imagem agoniza no chão o magro fio preto que minutos atrás aterrorizara a tantos. Até parece a gosmenta e barata fieira de fumo em corda que o seu Geraldo vende no seu boteco. O povo aproxima-se com ar de valentão: parlam os ita lia nos; confabulam os demais. Aqui e acolá, ouve-se o “eu não tive medo”; “nem eu”... Mas ninguém ousa tocar no fio, mantendo prudente distância. Diana, cadelinha do Zégas, perfura a multidão e vem cheirar o finado fio e nele faz xixi. Riso geral. Redobra-se a arrogância dos “comigo-ninguém-pode”. Seu Osório aproxima-se e garganteia demais da conta. Olha com amargo desprezo o insignificante barbante elétrico que revelou o grau de energia de cada um:
– Patife, desgraçado de fio – resmunga o velho.
Outra debandada geral; novo tumulto. Gritos. Seu Osório, próximo e de costas ao fio, ainda ufanando-se à multidão, vendo rostos aterrorizados em sua frente, não se volta para conferir o que ocorre e dispara aflito, tropeçando e pedindo passagem estupidamente:
– Sai da frente, sua lesma – diz para a dona Dorinha.
Nada houve senão um ligeiro vento que balançando a extremidade do fio presa no alto do poste, sacudiu a ponta em terra. Um segundo apenas foi suficiente para revelar a má têmpera dos covardes. Que vergonha, alguns ainda correm... Desmascarados, os bazofeiros que permanecem no local já não ousam encarar-se e saem devagarzinho, calados, um a um. O bombeiro recolhe o fio. Chegam os policiais e dona Concheta adianta-se a dar informações:
– Xi, Zé, a dona Concheta tá apontado aqui pro campinho!
– Iiii, o guarda vem vindo; vamos dar no pé!
Feito gazelas, os garotos saltam muros, cercas e escondem-se no galinheiro da casa do Zégas. Pelas frestas da cerca observam os guardas vasculharem o campinho. Lá em baixo corre a Avenida Nove de Julho e os policiais julgam que por ali teriam escapados os tais suspeitos tagarelados pela velha. Mas, na realidade, o que acreditam mesmo é que o fio caiu de pura podridão na ligadura com o poste, e por isso dizem: – “Vamos embora, que esse troço teria que cair a qualquer momento”. Ligam as sirenes e zarpam. Os garotos respiram aliviados:
– Zé, ganhei de 98 a 97 gols! É mole ou quer mais?! – afirma o anafado Aristeu.
– Você ganhou? Deixa disso! A bola passou por dentro do gol e você nem viu; tava morrendo de medo! – rematou o Zé.
– Bruta mentira! Se a bola passasse pelo gol bateria na cerca que fica atrás dele!... Não vem com essa não!
– Que nada, você não viu o rombo que tem na cerca? A bola passou por ele, onde até um elefante passaria!
– Ah, ah, se passasse por ali teria batido no vestiário atrás da cerca!... Mas péra aí, Zé, e a bola?
– Xiiii, Aristeu, amanhã tem jogo e essa é a única bola de capotão da turma!
– Então, vamos procurar lá na São Domingos, que deve ter caído entre a fábrica de doces e a mecânica!
– Só espero que os cara da Treze não roubem ela!
– É mesmo, Aristeu! Vamos chamar o Babaréu e a Diana pra ir cá gente. Cata uns pau aí que vou chamar os cachorros. Tomara que os cara da Treze não tejam por lá.
Partem os dois pirralhos na esperança de encontrar a bola que custou ao time muitas engraxadas de sapatos e carretos nas feiras livres do bairro. Foi dureza comprá-la! Andaram a cidade inteira em busca de preço e qualidade, discutível esta última. Não é fácil a vida de moleque de cidade grande, que tem que administrar problemas por todo canto, até ao chutar uma simples bola: pregos, cerca, vidraças, carros, fios, rua inimiga... Êta dia chato.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site.wwwfamiliaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

