« Duas Garotas »
Juntinhas caminham duas garotas em entretidas conversas. Risos delicados. Olham-se enquanto tagarelam. São duas colegiais provavelmente do primeiro ano que iniciam a travessia do Viaduto do Chá, sentido Praça Patriarca - Praça Ramos.
De reluzentes uniformes, as garotas portam nos braços livros e cadernos tal como as mulheres carregam seus bebês.
Em sentido oposto, vindos da Ramos para a Patriarca, quatro office-boys do Grande Magazine – Zégas, Chico Porco, Brachola e Dentinho – vão cumprir diferentes tarefas pelos lados da Sé e iniciam a travessia pela mesma calçada.
De longe, os bóis observam as distraídas garotas e, sem palavras, mas apenas entreolhando-se, combinam algo que os divide em dois blocos de dois garotos cada, de modo a permitir a passagem delas por entre eles.
Sem nada notarem, porque se olham enquanto falam – e como falam – quando as colegiais se alinham com os dois grupos de garotos, estes, em uníssono, dão um forte berro, ao mesmo tempo em que batem impetuosamente as palmas das mãos e pulam cravando fortemente os solados dos tênis contra o chão, num estrépito ensurdecedor.
O estrondo inesperado faz as garotas gritarem de susto e lançarem ao ar cadernos e livros, enquanto num rodopio de ciranda giram o corpo em volta completa até se fitarem novamente.
O troco vem em seguida com elas pondo-se a xingá-los. Mas, já distantes, os pirralhos olham para trás rindo a gargalhadas.
Enquanto recolhem do chão o material esparramado, as duas se põem a rir também e reiniciam a caminhada em continuado riso, porém mais atentas ao mundo que as rodeia.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

