« Julieta »
A febre amoleceu os ossos do Zé, que jururu e sem fome chega mais cedo do trabalho. A mãe, desde a janela da sala, o vê abrindo o portão da rua e entende tudo. Ao entrar o garoto, ela diz:
– Tadinho do meu boneco, a gripe marvada pegou ele, né?
O termômetro sai da gaveta e se agasalha nas axilas do Zé.
– Trinta e oito de febre! Filhote, já pra cama! Vou pegar comprimidos e preparar uma boa laranjada pra você. Nada de escola hoje.
– Aaaah, como é bom ficar doente – matuta o Zé.
– Venha, filho, a cama já está preparada.
Com calafrios, trêmulo dos pés à cabeça, o Zé mergulha nos cobertores. Os dentes tilintam.
– Tadinho do meu fio... Pronto, descanse.
Mariana ajeita os cobertores e dá um beijo no filho:
– Que quente está o rosto do meu ninim – diz para si.
Um ar de preocupação anuvia o rosto da mãe, que sai fechando a porta e fazendo recomendações à voz velada para a turma do banzé, em ação no corredor:
– Tonico, Glorinha, não atazanem por aqui! O Zezinho tá doente. Prometem?
A mãe sorri, recolhe o avental entre as pernas e se agacha para ouvir a promessa.
– Ele vai morrê, mãe?
– Tonico!!! Não! Façam silêncio que amanhã ele estará torrando a vida de vocês.
– Oba!!!
– Vão bóra, Tonico. Não faiz baruio aqui – diz a Glorinha.
Os dois pequenos saem nas pontas dos pés. Tonico se detém diante do papagaio e diz:
– Não faiz baruio, viu – obtendo imediata resposta da ave:
– Baruiooooo, loro, robertoooo, baruiooooo, loroooo, loro. Tonicoooo. Aaaaaa. Tonicooo.
Mariana corre até a cozinha e crava severo olhar no plumagem verde, que cala o bico ao perceber intenções belicosas contra ele:
– Tô quéto, Tô quéto... – diz o papagaio.
...E o desgraçado não solta palavrão algum; sabe que está na presença de uma dama. Assim, passa da gritaria ao resmungo, do resmungo à murmuração surda, até calar o bico. Quem ensinou tantos palavrões ao papagaio? Os mais leves foram adestrados pelo Zé; os mais pesados a ave captou-os do ar, vindos do campinho de futebol, no terreno ao lado da casa.
Impera o silêncio. A casa vela o filho enfermo.
No quarto, uma intrometida nesga de luz não respeita a autoridade materna, dribla a veneziana de madeira e vem xeretar o doente, unindo-se à companheira que penetrou por baixo da porta. Ambas festejam o encontro alumiando suavemente o ambiente.
Deitado e sem sono, o Zé vistoria o dormitório valendo-se da parca claridade:
– A cama do Augusto... Onde estará ele? Ah!, na escola...; a do Tonico, que tá no quintal.... Será que o malandrinho tá mexendo nas minhas figurinhas?
Um fio de luz alumia o rosto do Cristo na cruz de madeira em frente às camas.
– Será que os espinhos tão machucando o rosto dEle? Já não bastava os prego e a cruz? Por que esses caras não penduraram os espinho no saco deles mesmo? Acho que tavam loco!
Na parede da direita, junto à cama do Augusto, o Menino e a Madona olham para o Zé.
Tadinha dEla... Será que Ela sabia que iam pregá o menininho dEla na cruz?
Sabia, Zé; Ela meditara muito na passagem do Cristo de Isaías e nas palavras do velho Simeão ao apresentar o Menino no Templo: “Eis que uma espada trespassará a tua alma” ... Uma lagartixa! Enquanto fitava o quadro, o garoto relanceou o ágil movimento de uma autêntica lacerta agilis contrariando sem embaraço as leis da gravidade no teto.
– Ah, ah, que gozada é a largatixa... É igualzinha um jacaré! Se ampliasse ela num microscópio todo mundo ia correr de medo... Se ia... – pensa e ri o garoto.
É o que faltava, uma lagartixa! Sem ela já seria osso duro o Zé dormir durante o dia, agora...
– Acho que a largatixa vê tudo de perna pro ar! Será que ela tá pensando que eu é que tô no teto? Como ela é burra, ela é que tá no teto!
O bicho, no alto, encara o Zé bem na direção do seu rosto. Receoso de um mergulho suicida, o menino cobre a cabeça com o travesseiro e alça o cobertor até os olhos, deixando apenas uma frestinha para observar o que parece ser um réptil. Oh, a lacerta dispara até a parede do lado! O Zé desentoca o rosto:
– Coitada, o pernilongo escapou! Acho que ela tá com fome.
Os olhos do pirralho seguem o vaguear famélico do miúdo jacaré que perdera a refeição.
– Epa, o perninga foi praquele lado, menina! – e aponta-a. Prá lá, sua burra, praquele lado! Não tá vendo, não? É idiota mesmo! Pare de me olhar e olhe pro per-ni-lon-go; pra lá; pra lá! Ah, não qué olhar! Então, que morra de fome; que se azare!
Zangado, o garoto acompanha a lagartixa se distanciar cada vez mais do alimento, ainda apontado pelo indicador da mão que prende o cobertor junto à boca.
Zummmmm, zuuuummmmmmm, o pernilongo sobrevoa agora o almejado alimento, que se recolhe nos cobertores e prepara armadilha.
Zum, zunzum, zunzunzum, Zuuummm, Zuzuzuzmmm, zuuummMMM, ZUUMMMMMMMM, ZURUM ZUNZUM, ZU UMUUUUUMMMMM. Já bem próximo, o mosquito de ferrão procura uma brecha nas cobertas para picar o Zé quando, zap!, é enredado no lençol. O monomotor perdido da Luft Waff tenta a fuga acelerando as turbinas, mas um dedo o imobiliza. Esperneia. Geme o motor.
– É presa de guerra. Será sacrificado – sentencia o tribunal entre cobertas. Diga antes seu nome, vamos; seu nome? Não responde, hein! Então você é um espião! Patife, tome!
O pernalta cai zonzo sobre o lençol, e dois dedos de um alimento que agora se tornou indigesto pinçam-no pelas pernas. Tenta levantar vôo:
– Zuuuuummmm, zuuuuummmmmmm.
Não adianta; é cativo. O Zé ajeita-se de novo na cama e dá batidinhas com a unha do indicador na parede, bem junto à cabeceira da cama. A lagartixa na outra extremidade do quarto se vira para o garoto:
– Toma, Julieta, alimento pra você!
O pequeno lagarto parece entender os sinais de “vem aqui” que faz o dedo do Zé. Uma corridinha aqui, outra ali; algumas paradinhas. A poucos centímetros da mão que a chama, Julieta estaca temerosa de aproximar-se do bicho-homem.
– Sua trouxa, não vou fazê nada com você!
O teiú em miniatura desconfia das promessas dos racionais e parece perguntar:
– Promete mesmo não me fazer nada?
– Prometo – diz o Zé!
Ainda titubeia o minúsculo réptil.
– Ah, você não qué vim, né? Eu é que não vou ficar a vida inteira com este bestão zunindo na minha mão. Vem logo senão solto ele!
– “Nãaaooo – gritam os olhos esfomeados da lagartixa. Já vou, já vou; um pouco de calma, filho de homem... Me dê alguns segundos! Não é fácil abafar a voz do instinto, que me faz temer tornar-me sua presa!” A lagartixa respira fundo e parte para o tudo-ou-nada e dá derradeiros passinhos em direção ao Zé:
– Tó, Julieta, pra você; pegue.
Julieta delicadamente apanha o espião e anela por cumprir a ordem de execução capital, ditada pelo mono-tribunal de guerra.
– Bom apetite, viu!
No regresso, Julieta vira-se para trás e agradece ao Zé com um levantar e abaixar de cabeça. O menino faz tchauzinho e...êpa! Alguém pelo corredor vem se aproximando do quarto!
– Adeus, Julieta; volte outro dia! – e o Zé põe-se de lado fingindo dormir.
A porta abre-se... É Mariana que veio ver o seu boneco... e o boneco a entrevê por uma ínfima frestinha entre as pálpebras. A mão suave da mãe pousa na testa do filho. Um suspiro agradecido e o olhar para o quadro da Senhora com o Menino:
– Graças a Deus, a febre abaixou.
Um beijo é depositado na face agora menos ardente. Ma ria na une as cortinas, enxotando a tímida iluminação e sai. A porta é encostada. O Zé sorri enlevado pela doce sensação de ser objeto de atenções e cuidados. Chegou o sono em meio ao último pensamento:
– Êta vida gostosa de viverzzzzzzz.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

