« O Bolão »
O Zégas e alguns amigos da Rua Santo Antonio foram convidados à festa de aniversário da Kátia, garota da Rua 13 de Maio que estuda com eles no Maria José. Chegam ornados da melhor roupa que possuem, e exalando os mais inverossímeis perfumes surrupiados das irmãs, pois é bem sabido que moleque algum gasta dinheiro com essas bobagens; precisando-as, tomam emprestado e fim de papo.
Ali estão muitas meninas, e os moleques não acordam em dizer qual é a mais bela. Juízes severos, desqualificam divas com ínfima pintinha no rosto, e eliminam do certame beldade com pequenina espinha na testa, tão imperceptível quanto um minúsculo e solitário atol no imenso oceano.
A música e a dança ainda não começaram. O jeito é beliscar salgadinhos e bebericar algo. A conversa segue animada, mas isolada entre os diferentes grupos: meninas de um lado, meninos de outro; entre estes, impõe-se a divisão por território: os da 13 de Maio, os Conselheiro Ramalho, Santo Antonio, alguns da Abolição e Manoel Dutra. O duro é observar por ali uns caras do Paraíso e da Consolação:
– O que é que esses granfininhos bunda-moles fazem por aqui? – é pergunta que cada grupo do Bixiga se faz.
Assanhados diante das meninas, os garotos matutam como dar o ar da graça. Em tais conjecturas, chega à festa em seus 13 anos e quase 90 quilos, o Bolão, sempre paladeando um acepipe. Eureka! O inesperado convidado faz a cachola do Zégas engendrar algo. Titilando de desejos de brilhar diante de tão mimosa platéia, o garoto cochicha algo aos ouvidos do Zé Fofinho e do Aristeu. Em seguida os três da Santo Antonio saem para a parte gramada do quintal, bem à vista de todos os convidados, e o Zégas põe-se a chamar o amigo:
– Ei, Bolão, dá uma chegada até aqui, cara!
O Bolão parte lentamente em direção ao amigo que o chama, lambendo seu picolé. Já próximo do Zégas, eis que uma corda ocultada na grama é esticada a um palmo do chão pelo Aristeu e o Zé Fofinho, tendo um deles em cada ponta. Então, o gordo menino enrosca o pé e balanceia de um lado e de outro, fazendo tremelicar seus depósitos de lipídeos. Em seguida, qual cavalos em linha de chegada no páreo, Bolão lança adiante o tronco e a cabeça, mantendo as pernas bem atrás de si, numa posição jamais perdoada aos bípedes pelas severas leis da física. Então, aquele corpanzil mergulha no ar em voo ascensional, deixando ao largo festivos espectadores, até que aterrissa feito aeronave sem trem de pouso, e desliza lambendo cadeiras e mesas. O cinematográfico pouso cobriria de honras qualquer comandante de voo, mas por clamorosa injustiça ao Bolão finaliza em meio a estrepitosas gargalhadas, e dentro das caixas vazias dos instrumentos musicais da banda que ao lado se prepara para tocar.
O avantajado e infortunado garoto ergue-se fatigosamente. Limpa as roupas e avista com tristeza seu picolé amalgamado com a grama. Então, enfurecido, parte em direção ao Zégas que, lépido, salta de um canto a outro do quintal, convicto de embevecer com sua agilidade a platéia feminina. Os minutos passam e a insistência do Bolão em perseguir o magrelo provocador, dá a este a sensação de que o ficar saltitando feito grilo se tornou ridículo. Incomodado, e desejoso de pôr fim à brincadeira que se transformou em pesadelo, o Zé imbica em direção ao portão da rua, julgando que o predador desistirá da empreitada em campo aberto. Debalde, o Bolão vem ao seu encalço:
– Vou dar um baita cansaço nele – pensa o Zégas, que sobe a 13 de Maio até a São Vicente. Lá de cima olha para trás e percebe o Bolão resfolegando na ladeira, mas subindo em primeira reduzida. Então o magrelo corre até a esquina da 13 de Maio com a Conselheiro Carrão, na certeza de que a subida fará tombar o seu contrincante. Ingênuo, o Zégas passa a conhecer o poder da ira ao apreciar de longe os passos pesados e persistentes do Bolão:
– Porcaria, ele não desiste! – diz para si o perseguido, que dispara pela Conselheiro Carrão, desce um bom trecho da Rui Barbosa e evapora-se até perder de vista o amigo.
Já em casa, o Zégas esparrama-se na cama e descansa. Quinze minutos depois soa a campainha. Persuadido de quem a toca, o moleque não vai atender. Insistentes toques faz Júlio ir ao portão da rua. Pela janela, o Zégas vê o bochechudo e avermelhado amigo, arfado de cansaço, dar gesticuladas explicações a seu pai.
Júlio vem ao quarto do filho e diz:
– Zé, seu amigo Bolão está no portão e quer falar com você.
– Ah, pai, diz que não estou, vai.
– Não posso dizer isso! Vá atendê-lo!
Relutante e a passo de bicho-preguiça, o Zégas vai ao portão desanimadamente, tendo a cabeça baixa e os braços largados e unidos ao corpo. Júlio observa o filho pela janela; mal este se aproxima, ainda com braços soltos e grudados ao corpo, e sem tempo de reação, é enlaçado pelo peito por potentes gadanhos que o prensam fortemente a um amplo tórax.
Em seguida, o de esquelética compleição é erguido como quem brande ao ar um caniço de bambu, e chacoalhado de um lado para outro; depois, em magistral rodopio, pleno de destreza, o magrelo ora tem sua cabeça ao alto, passando em revista o telhado da casa, onde observa algumas telhas desalinhadas que devem ser reparadas, ora desce de ponta cabeça até ter diante dos olhos uns nutridos joelhos com caras de bebês gêmeos recém-nascidos.
O momento é mágico e de indescritível proeza: onde por segundos se vê uma cabeça, num piscar de olhos têm-se ali um par de pés com apenas um tênis. Tal manobra é repetida seguidamente em absoluto silêncio e concentração. Se contorcionistas ou trapezistas do Circo Solei topassem com a incrível dupla, ou seriam feridos pela inveja ou de pronto a contrataria para turnês mundo afora.
Durante as piruetas, o malabarista Zégas chega a matutar que se estivesse com os braços soltos, mesmo agarrado pela cintura como está, esmurraria a gorda fuça do Bolão. Sonho vão, quimera de um magrelo bem atado, que nem sempre tem diante dos olhos um focinho, mas – já observado - também um par de gordos joelhos.
A soberba apresentação da incrível dupla atinge o ápice de suspense quando o Bolão lança ao chão o parceiro peso-pena que com ele contracena, e prepara um vertiginoso pulo para cair sentado sobre suas costas. Certamente qualquer platéia aguardaria boquiaberta esse sublime momento, exceto Júlio que, junto à janela, intervém:
– Muito bem, Bolão, vocês já se entenderam o suficiente. Não é preciso mais.
– Tá bem, seu Júlio; tá bem. Muito obrigado.
Finda-se, assim, o inusitado espetáculo de rara e única apresentação, e que o mundo jamais poderá registrar nos anais da destreza. Diz Júlio novamente:
– Até logo, Bolão. Ah, gostaria que você e seu irmão viessem almoçar com a gente no sábado que vem. Aceita?
– Legal, seu Júlio, a gente vem sim. Agora vou indo que preciso voltar pra festa! Lá tem dois caras que estou doido pra encontrar.
O Bolão parte e Júlio retorna ao seu jornal. Amuado, o Zégas permanece sentado no degrau do portão, e vê ao longe, na calçada, o desgarrado tênis que covardemente o abandonou em plena refrega. Meia-hora depois o Zégas entra em casa com bico de metro e meio. Emburrado, lança o olhar ao pai, que mesmo absorvido em leituras, diz ao filho:
– Zé, cada mastro tem que aguentar sua própria de vela...
Ainda azedo e sentindo-se traído pelo pai, o Zégas deita seu moído esqueleto no macio colchão. No silêncio do seu infortúnio, dá voltas às palavras que acabara de ouvir. Ao intuir o recado de resolver suas próprias pendências, matuta como o Aristeu e o Zé Fofinho sustentarão a birosca de vela que lhes cabe. Um furtivo pensamento de ir socorrer os amigos foi sumariamente abafado com a seguinte desculpa:
– Que cada porcaria de mastro aguente sua birosca de vela.
Alquebrado como estava, e lembrando as sábias palavras do Pe. Domênico, de que “a penitência do corpo é remédio para o espírito”, o magrelo aproveitou a maciez do colchão e tirou uma soneca não isenta de pesadelos, espécie de turbilhão de onda de três metros que o colhe, empastela-o no fundo do mar, rodopia-o e cospe-o ao longe, não em direção à praia, porém mar adentro; e quando se safa de uma onda não poética, mas assassina, outra lhe vem ao encalço.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

