« O Golpe »
– Oi, Zégas, tudo bem?
– Tudo...
– Por que você tá tão quetão assim? Vamos jogar tênis de mesa lá no grêmio?
– Vou não, Brachola. As músicas que tão tocando aí na seção de CD’s tão boas pra chuchu...
– ... Posso ficar aqui com você?
– Claaaro!
– Maravilha!
– Brachola...
– Hum...
– Será que vão mandar a gente sair aqui da porta da loja?
– Sei não, Zé... Esse novo segurança da loja é chato demais...
– Será que ele tá querendo mostrar serviço?
– Vai sabê, Zé?... Mas a gente tá sentado aqui no cantinho da porta e não atrapalha os fregueses, né?
– É mesmo ...
– Tá movimentada a rua, né Zé?
– O si tá... Olha aquela menina que vai ali, meu!
– Onde, onde, onde???!!!
– Já foi...
– Pena...
– Brachola...
– Huumm...
– Esse vigia vai ter trabalho demais nesta semana...
– Por que, Zé?
– Ouvi dizer que um tal de Aríete tá dando golpe nos banheiros...
– Ô doido, no banheiro?
– É; ouvi o seu Dito, lá da Manutenção, dizer pro chefe dele que tem golpe de Aríete nos banheiros aqui da loja!
– Só faltava essa... Será que nem no banheiro a gente pode ficar em paz!?
– Antes de você chegar, eu tava pensando que o jeito agora é ir fazer xixi no bar do Onório, ali na galeria...
– Boa ideia, Zé... Sabe, pensando bem, já ouvi falar nesse tal de golpe do Ariête, lá na Vila.
– Ô doido! É mesmo!? Nunca ouvi falar dele lá no Bi-
xiga.
– Aliás, Zé, ele até deu um golpe numa casa de três andares de um ricão lá do meu bairro. Não soube que fim deu a coisa. Peguei a conversa de raspão entre o meu pai e a minha mãe. Parece que a briga foi tão feia que até quebraram o cano e a bacia da privada.
– Cara, meu, verdade!?
– Verdade, cara! Esse assaltante é metido pra chuchu e atua em vários bairros ao mesmo tempo!
– Ô doido, Brachola! A gente não tem mais segurança mesmo, né?
– Si é...
– Brachola, como será que o Aríete assalta nos banheiros aqui da loja?
– Fácil: o cara entra no banheiro e quando tá lá sentadão, distraído, pensando na vida, o Ariête olha ele pelo vão dessas porcarias de portas aqui da loja que começam a um palmo do chão, e vê a pasta do cara lá no cantinho; aí, né, arromba a porta, pega a pasta e sai correndo!
– É mesmo!!!... Lógico, como cara vai correr atrás do Aríete depois do susto que levou e estando ainda com os pés amarrados pelas calças?!
– É isso aí, Zé.
– Essa vida tá cada veiz mais pirigosa... Xi, Brachola, já acabou a nossa hora de almoço! Vou ter que ir lá pra seção.
– Caramba, Zé, vou ter que me atrasar! Preciso passar no bar do Onório!
– Vai fazer xixi?
– Não, vô comprar chiclete.
– Ah, tá bom. Tchau.
– Tchau, meu.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

