« O Pastel »
Chia o óleo e crepitam os pastéis de carne e de palmito na frigideira. Os dois cães, Babaréu e Diana, inarredáveis, sentados sobre a cauda, olhos fixos nos movimentos de Mariana, e lambendo os focinhos, estão em prontidão para abocanhar o bendito pastel que ao ser pescado do banho ardente pela escumadeira, se atrever a saltar ao ser levado à bandeja sobre a mesa. Mas, um seguro ritual priva-lhes de tamanha felicidade.
O cheiro da fritura deixa a cozinha e vai assanhar o Tonico, que no quintal organiza a seu modo as figurinhas do Zégas. As pituitárias do garoto captam o gostoso odor e desata-lhe a inexorável seqüência: a memória evoca o inefável manjar; a imaginação figura-o esplêndido, irrecusável e abre os diques da saliva; a inteligência, sob tão avassalador impulso, julga razoável abandonar o brinquedo e ir ao encontro do objeto apresentado; a vontade, já debilitada por tantas pressões, acede a um furto famélico, pois ainda não era a hora do almoço.
Mariana, concentrada nas frituras, dá ligeiros banhos de óleo quente em duas massas branquinhas e não percebe a furtiva entrada do filho e o surrupio de um pastel que repousava na bandeja forrada com papel. Que quentura! Por pouco o guri não grita, denunciando-se! Alternando de mão a sua presa, o pirralho sai maciamente nas pontas dos pés em direção à rua, antegozando o fadário do pastel. Os dois coniventes vira-latas fazem-se cúmplices ao silenciarem o famélico furto e, abanando a calda, seguem o garoto desejosos de partilharem o despojo. O delator do papagaio berra com voz esganiçada:
– Pega, pega, pega!
Mariana, uma dama, jamais deu a menor atenção ao louro: acha-o um idiota-boca-suja. Assim, mais uma vez, o delator tem a justa paga do desprezo.
Na sala, Tonico volta-se aos cães e diz:
– Vão bóra, vão... Passa, passa; num dô não!
Trapaceados, os dois animais retornam mal-humorados ao posto anterior, enquanto o menino dirige-se ao portão da rua. A presa está morna, pronta para se transformar em Tonico. As duas mãos do garoto sustêm o pastel ubicado entre os lábios para ser mordiscado aos pouquinho, a fim de prolongar ao máximo a sublime delícia. Despreocupado, o garoto aprecia o movimento da rua. De repente percebe que ao longe alguém acena. Acha que não é com ele e tira mais uma lasquinha diminuta da apetitosa iguaria. O tipo, aproximando-se, insiste nos gestos. Outro tiquinho do alimento desprende-se e parte para um novo mundo que o convida a mudar sua substância em proteínas de moleque.
– Xiii... – suspira Tonico de olhos arregalados ao perceber seu Tito com os braços estendidos e a palma da mão em forma de concha, insinuando querer um pedaço. O garoto calcula os passos para o fatal e indesejável encontro e soca na boca todo o pastel, engolindo-o sem mastigar. Rindo, o bom homem se põe diante do menino:
– Puxa, Tonico, você não me deu um pedaço!
Porejam algumas lágrimas do garoto, não de remorso, mas de engasgo. O velho ri, desce o bico do boné até o nariz do Tonico, belisca carinhosamente a faminta bochecha e despe-
de-se:
– Tchau, Tonico; bom apetite.
Nesse momento chega o Zégas:
– Oi, Zé, vindo pro almoço?
– É, acabou o meu vale-refeição... Quer almoçar com a gente, seu Tito!?
– Obrigado, Zé; a patroa tá me esperando pra bóia. Tchau.
– Tchau.
A sós com o irmão, o Zé repreende-o:
– Tonico, seu guloso, eu vi tudinho quando vinha lá da esquina. Tomara que você fique com uma bruta duma dor de barriga... Seu fuinha.
Tonico não está nem aí; chupa os dentes; lambe os dedos.
– Nem tá ligando, né?! Só de marra vô contar tudo pra mãe! Ela não vai te dar mais pastel!
Diante de tão suma crueldade o garoto grita:
– Nãaaooo, Zé... Num mexo mais nas tua figurinha!
– Ah, tava fuçando nas minhas coisas, né? Então vou contar mesmo.
Tonico brada por clemência ao perceber que o suborno de nada valera. Mas ao notar inalterável o espírito do irmão, conclui que, perdido por perdido – o que é um tiro para quem es-
tá morto –, já não tem motivo para segurar a última carga e lan-
ça-a ao mar:
– Pia-puta.
Xinga e dispara para dentro de casa, agarrando-se à saia da mãe.
– Mãe, o Tonico engoliu um pastel inteirinho só pra não dar um pedaço pro seu Tito! E falou um puta dum palavrão!
– Tonico!!! Bem que achei a bandeja mais vazia... Agora leve já estes pastéis para o seu Tito, sem comer nenhum pelo caminho!... E vê se vocês dois não falam mais palavrões; já tô cansada de dizer isso, putzzz...q...parrr... – vai mordendo a língua para não dizer o que pensava e conclui com um aguado e inexpressivo “oras bolas”.
Choroso, envergonhado, segue a cumprir sua penitência pela Rua Santo Antônio um menino de rosto ocultado por dois pastéis que o precedem. Mas o cagueta recebeu o que merecia na orelha, e o louro vendo isso delira de felicidade:
– Aaaaa, Zé, bem feito... Aaaaa, doeu, aaaaa, doeu, aaaaa.
Sentado e aguardando o seu prato, o Zé emburra-se com todos. Lança contra o linguarudo esmeraldino um limão que apanhou na fruteira, mas erra o alvo e espatifa a fruta na parede. A ave grita:
– Ooopa, opaaaa, aaaahhh, errou, aaahhh.
Mas o figo cumpriu o desiderato e pegou em cheio o pluma-verde, emborcando-o dentro da lata de lixo, imediatamente tapada pelo Zé, que apenas deixou uma frestinha para a entrada de ar. A voz estridente do papagaio não passa agora de um resmungo abafado:
– Boboooo, oooo, zéééé, aaaaa, robertôôô, socorôôô, viadôôô...
O Zé diminui a fresta e o empenado rende-se, calando o bico em troca da entrada de ar, e aproveita para almoçar o figo, companheiro de sina.
Enquanto isso, não longe dali, alguém bate à porta do seu Tito. As pancadas são fortes, contínuas e destemperadas. O casal, desconcertado pela pressa e desora do inoportuno, interrompe o almoço. Seu Tito levanta-se furioso da mesa, arrebata com violência a cadeira e parte impetuosamente até a porta sem esconder a suma irritação, que o ajudará a dar ao insolente o que merece. Gira a chave com brusquidão, torce a maçaneta, abre a porta com veemência e ... desconcerto total!: uma criança lhe sorri oferecendo um pastel! – o outro foi comido pelo caminho. Dona Bernadete, que tinha os olhos fechados para o iminente desastre, abre-os estranhada com o repentino silêncio; e surpreende-se ao ver o marido de joelhos e abraçado a um toco de gente que lhe envolve o pescoço com seus bracinhos. A esposa põe-se a rir ao ver o pastel apoiado nas costas do marido, e não faz caso da mancha de óleo que se esparrama pela camisa, pois sabe como limpá-la.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

