« O Vestibular »
– Enfia esse tagarela de papagaio no galinheiro, Janaína!
– Mas, Ciça, o galo não gosta dele e vai batê nele!
– Ótimo! Ninguém manda esse matraca mexer com todo mundo... Ande logo com isso que a mãe pediu pra fazer silêncio!
– Mas o Augusto não ouve nada lá do quarto, Ciça!
– Tudo bem, Jana, eu levo esse rádio-de-pena pro gali nheiro.
– Não, não; então eu levo, vai...
E o papagaio aterrissa em passeio forçado noutra freguesia. Calado e imóvel junto ao populacho do galinheiro, o louro nem pisca e se faz passar por bibelô, pois o desconfiado galo que o circunda anela apenas um motivo para depená-lo... Só assim o desgraçado cala o bico e não inferniza ninguém.
Mas é sábado e na casa a ordem do dia encarece o silêncio. O motivo é razoável: Augusto se prepara para a última prova de seleção dos candidatos à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
– Paiê, baixi o rádio, viu?
– Mas, Glorinha, até você, filha?!
Até esse toco de gente...
– A Glorinha tem razão, Júlio... E você, Zé, não atice o barulho, tá?
– Manhê, daqui a pouco tem jogo do Palmeira!... – diz o Zé.
– Mariana, eu, seu marido, e o Zé, seu filho, queremos ouvir o jogo... E como você bem sabe, o jogo não será televisionado e o nosso rádio necessita de energia elétrica para funcionar. Se assim não fosse, iríamos nos juntar ao papagaio, lá no galinheiro... Ora, ora, será que não sou o chefe desta casa? Vamos ouvir o rádio aqui na cozinha e pronto.
– Rapazes, rapazes – diz Mariana –, não são vocês que farão os exames de redação e português, amanhã. O Guto disse que é o mais importante de todos.
– É, sim; a mãe tá apoiada.
– Xiii, agora é a Margarida também!... Zé, as madames desta casa estão em pé de guerra com o sexo forte!
– Bem, pai, acho melhor a gente obedecer senão elas vão podar a nossa janta!
– É isso mesmo, belezocas, ou fazem silêncio ou jantarão sopa de chuchu, e nada mais.
Lá do quarto, Augusto pede silêncio, complicando mais a situação da dupla de torcedores... Talvez não:
– Oooo paiêêê...
– Que é, Augusto? Algum problema aí no quarto?
– Tá dando pra ouvir uma barulheira danada que a mãe, a Margarida e a Ciça estão fazendo...
– Certo, filho, vou pedir silêncio às maritacas... Não garanto sucesso, viu? É um pouco difícil pra elas... Você entende, não?
– Claro, pai. Obrigado...
– Ouviram, madames? Seria possível a heróica e extraor dinária façanha de nada falarem pelo interminável tempo de... 15 minutos, ou pouco mais? Um filho desta casa necessita de si lêncio!
– Boa, pai; é isso mesmo – apoia o Zé.
Estranho movimento de indignação é indício de estourar rebelião feminina na cozinha:
– Pai, vamos dar no pé... É melhor a gente ouvir o rádio lá no bar do seu Geraldo.
– E minha autoridade, Zé?
Olhares terríveis, perplexos, estudam o revide:
– Bem, Zé, Esaú permutou a sua autoridade por um prato de lentilhas. Seguirei o seu exemplo nesta tarde; mas só nesta tarde... Isso vale um jantar decente. Vamos ao bar do seu Geraldo.
Ambos saem com ar de valentões quando uma batata gorda explode no batente da porta. Pai e filho se escafedem – é bem o termo –, respingados e fedendo à batata. Partiram convencidos de que iam jantar apenas sopa de chuchu sem sal, nada mais.
O ligeiro tumulto atiça os cachorros que se põem a ladrar no quintal; Ciça torpedeia-os com uma lata de óleo vazia, e emudece a algazarra canina.
Um rufar de tambores com surdo, caixa e repenique alardeia a aproximação de sambistas.
– Xiii, mãe, a Vai-Vai tá passando lá na rua!
– Oh, Deus, será que não desconfiam que amanhã é dia de exame vestibular em toda a cidade, e que tem muita gente estudando aqui no bairro? Vou falar com eles...
– Já passaram, mãe... Eram só alguns batuqueiros indo pra quadra deles...
A campainha toca; Ciça atende.
– Oiiii, Ciça, minha boneca!
Maria Cecília corresponde com afetuoso beijo, estreito e acalorado abraço à tia, sem fazer barulho.
– Cadê o Augusto?
Em sussurro, Ciça responde:
– Tá estudando lá no quarto, tia! – diz baixinho, com o indicador nos lábios dando a entender que devem falar mais baixo.
– Puxa, bela, tô mais nervosa que ele, viu! Imagine se eu fosse fazer esse tal de exame amanhã!
A tia dirige-se ao quarto:
– Oi, bambino!
– Oi, tia Pina!
– Eh, tô mais nervosa que você, viu.
– Esquenta não, tia... Dá uma força lembrando de rezar por mim na hora do exame, tá?
– Lembro sim, bambino. Pode deixar, viu. Ciao. Só passei pra ti desejar boa sorte. Arrivederchi.
– Tchau, tia, e obrigado.
Ciça sai a passeio com os pequenos e a casa serena-se. O tic-tac do relógio não incomoda e Augusto repassa literatura e gramática até o anoitecer. Janta e vai dormir.
Chega o domingo. O vestibulando toma o café mais cedo, despede-se da mãe com um beijo e parte. Mariana faz um picado com cascas de chuchu, aproveitadas do jantar da véspera, para adubar a horta. O Zé retorna da Missa das 7 horas na Achiropita, e diz:
– Oi, pai; oi, mãe...
– Oi, filho – respondem em coro.
Mariana indaga:
– Rezou pro Augusto na Missa, Zé?
– Xiii, esqueci!
– Aaaah, Zé... Puxa vida... Que pena...
– Mas péra aí, mãe, que vou lá no quarto rezar 10 minutos pra Nossapadeci!
– Pra quem, Zé?
– Pra minha Nossa Senhora da Aparecida, lá do quarto, mãe!
– Ótimo, então vá e põe mais cinco minutos nessa conta, hein!
O Zé aguentou oito e aproveitou a oração para trocar ideias sobre a melhor escalação do time da Santo Antônio contra a Conselheiro Ramalho.
– Ciça, fique com o Thiago que seu pai e eu vamos à Missa das 10h.
– Tá bom, mã.
– E vê se você também não esquece de rezar pro Augusto, Júlio.
– Certo, dona Maroquinha, já que ele estudou vou quebrar o galho dele...
Enquanto isso, num dos locais de provas, Augusto recebe o tema da redação a desenvolver: “Ônibus em São Paulo”, assunto polemizado nos porta-vozes da comunicação de massa.
Augusto alça os olhos do papel e os vaga no infinito, muito além do teto da sala. Recosta-se no espaldar da cadeira e mordisca a tampa da caneta.
– Ramão, por onde vou? – confabula interiormente.
Necessário é explicar um velho hábito do Augusto, que nunca fala consigo. Sempre ouviu do pai que só os loucos falam consigo, num solilóquio interminável. Tanto o monólogo inte rior, como o dito em voz alta, e até mesmo o que apenas articula silenciosamente as palavras com os lábios, são da mesma família. Todos cheiram à sandice e fazem girar em círculo. Como não vale a pena ser concomitantemente locutor e ouvinte, pois nada acrescenta e pouca graça tem, Augusto se habituou a conversar com o seu anjo da guarda, que se chama Ramão. É o que posso explicar. Mais esclarecimentos só com o Augusto, oras.
É oportuno acrescentar também que Júlio insiste aos filhos que a ciência não é sabedoria infusa, ou conquistada por milagre, mas com os cotovelos na mesa e livro sob o queixo. Suprir preguiça não é tarefa angélica, e Augusto bem sabe disso.
– Ramão – sussurra –, experiência de andar de ônibus me sobra; capacidade de observação, tenho alguma. Só preciso juntar as coisas, não?!
Dez minutos de colóquio com o amigo, onde apresenta-lhe farto material, e vem o estalo:
– Maravilha, tive uma ideia! Curioso? Quer saber o que é? Então leia o título:
“Regras para andar de ônibus em São Paulo”, registra no cabeçalho da folha de prova. Então escreve, escreve, escreve. Pára, entrelaça os dedos das mãos e os estala. Respira lento, fundo e volta a escrever. Escreve e escreve até arriar de exaustão, hora e meia depois:
– Ufa, Ramão, terminei! Gostou?
Concluída a redação, suspira. Torna a se recostar na cadeira para fitar o teto. Descontrai-se dando pancadinhas de caneta na palma da mão. Varre com os olhos a sala, onde impera o silêncio e a concentração. Boa parte dos concorrentes foi embora; outra porção ainda ali joga tudo na partida: um futuro de resultado incerto, mas previsível quando se trabalha por ele no presente.
– Ramão, vou dar a última lida pra pescar erros. Me acompanhe.
Augusto examina febrilmente o texto. Vai à cata de erros e imperfeições. Procede com desconfiança, pois a gramática é amiga fiel e inimiga despudoradamente infiel. Não se brinca com ela como se faz entre os amigos, que permitem a grata descontração de se poder fechar os olhos sem sofrer traições. A gramática não se abre à camaradagem e deve ser mantida sob a ação dos olhos e a tensão da mente. Por mais que se a trate – exigência da amizade – surge o inesperado, e faz valer o ditado: criai corvos que te comerão os olhos. Traiçoeira, ela tem sempre uma armadilha para o incauto que, deixando o abrigo do bom vento que leva as palavras, se arrisca a esculpir letras no papel. Há um contumaz lapidador de letras e operário da escrita chamado escritor. É um tipo doido que se lança intrépido numa luta onde a amiga-inimiga o abandona, deixando-o a suar frio, munido unicamente do seu instinto. Mas como esse doido sabe que o pato aprende a nadar nadando, consola-se em aprender escrever escrevendo, mesmo quando assaltado pela dúvida se segue ou não escrevendo. E por sobrar veredictos prós e contra – geralmente mais contra do que prós –, segue escrevendo impelido pela força da alma.
E Augusto escreveu. Corrigidas algumas palavras, mudada essa ou aquela vírgula, arriscadas algumas concordâncias, ainda lhe sobraram balaios de incertezas que ficaram por conta do instinto:
-Chega, Ramão, pifei. Vou entregar a redação e esperar o resultado.
Trégua aos estudos, insônias, exames. Em casa, o vestibulando dizima a panela de capeletti à bolonhesa e narra trechos da redação. Todos riem, exceto o Zégas, emburrado pela derrota do time da rua.
Ao desfazer-se a tertúlia da mesa, Augusto diz:
– Pai, tô meio duro... O senhor tem algum trocado pra eu ir ao cinema?
– Huumm, também estou curto... Pensava levar sua mãe ao cinema e depois jantar fora com ela...
– Júlio, depois do filme tomamos apenas um sorvete e deixamos o jantar para a semana que vem, sem cinema. Que tal?
– Bem, Mariana, você não ficará chateada?
– Claro que não!
– Tome, Guto, o dinheiro.
– Uau! Obrigado a vocês e tchau. Vou arrancar o Alípio dos livros e arrastar o bicho para assistir um filmaço!
– Que filme você pensa assistir? – perguntam pai e mãe.
Conferidos título e trama, e não vendo no filme inconvenientes, despedem-se do filho.
Termina mais um domingo no Bixiga. A turma da Santo Antônio amarga a derrota para a Conselheiro Ramalho... Oh, dor, que nunca se desgruda da raça dos moleques...
Na casa dos Larletos a irmã mais velha aquece o jantar dos que ficaram, feliz por ver que os pais se tratam como namorados. Antes de dormir, a criançada insiste em brincar no portão, sob régio tratado de guerra:
– Sem se sujar, tá bom?! – propõe Ciça.
Promessa feita, folia principiada. Mas em meio à expectação pelo regresso dos pais, amolecem de sono e são carregados para a cama pelos braços de Ciça. Augusto retornou antes dos pais e foi dormir. Sonhou com um sisudo personagem de barba, toga e bigodes à anzol, que ia lhe anunciar o resultado dos exames. Acordou sobressaltado e aproveitou ir ao banheiro fazer xixi.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

