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O Zé faz pagamentos e distribui correspondências nas imediações das ruas 24 de Maio, Barão de Itapetininga e Dom José de Barros. Lépido no andar, descontraído nos modos, as sobia abafado o “Samba do Crioulo Doido”. Vê coxinhas fumegando na vitrina de um bar e, por motivo não sabido, é subitamente atacado por sua fome voraz. Contra-ataca. Lambuza-se. Refestela-se.Escorado no umbral da porta do bar, pernas fazendo quatro com o bico do tênis fincado no chão, traça a quinta esfirra. Aprecia o mundaréu de gente afobada que vai e vem numa desencontrada dança. De repente relanceia alguns cartazes da campanha do livro afixados na rua e com mensagens sugestivas: “Descubra um mundo novo: o livro”; “Leio, logo existo”; “Livro, o melhor amigo do homem”; “Seja rico de verdade: ame a leitura!”; “Não perca tempo! Aprenda lendo”.
Os cartazes sempre golpeiam o Zé... Põe-se a caminho travando no sovaco a sua ensebada pasta de cartolina, enquanto morde alternadamente a coxinha da mão direita e o quibe, da esquerda. O gigante da perna de pau, vestido de palhaço e desviando-se dos luminosos das lojas comerciais, traz decisiva mensagem gravada no peito e nas costas de seu poncho: “Não imite as toupeiras! Voe alto! Adquira um livro!”. Brios atiçados, o resultado não poderia ser outro:
– Puxa, nunca comprei um livro; só umas brochuras lá pra escola. Acho que vou comprar um bicho desse!
Confere os suados trocados economizados na marcha a pé até a Praça Marechal Deodoro. O relógio da parede de um bar concede-lhe tempo:
– Então vou comprar um livro!
Vê uma livraria do outro lado do calçadão e corre até ela. Plumb!, choca-se com um velho que titubeia em parar, seguir ou voltar, mudando repentinamente de direção.
– Seu moleque endiabrado, não vê por onde anda?
– Puxa, eu é que sou o culpado? Tá bom... Desculpa, vai.
Sem perder mais um minuto irrompe na loja.
– Nossa, quantos livros!
Percorre corredores, prateleiras, balcões. Admira-se com o cheiro, cores, capas, desenhos e espessura dos livros. Ameaça retirar um exemplar, mas hesita à meia distância, receoso de infringir alguma norma. Repara em fregueses apanhando livros para folheá-los, e se fixa num tipo empertigado, óculos encalhado na ponta do nariz, sobrancelhas altivas, que vira as páginas com desdém e à distância.
– Gozado, acho que é daquele jeito que se faz.
O mau exemplo da caricatura de intelectual deita raízes no garoto, que arrebita as sobrancelhas, infla o peito feito pombo e escora os óculos de sol na ponta do nariz. Empavesado com esses tiques, aproxima-se de uma estante que o convida a optar por um tema:
– Romance, posa... prosa, poesia, letratura; não, li-te-ra--tu-ra... Deixa eu pegar um de poesia; já ouvi falar nesse troço! O que será?
Insistindo no ar de intelectual idiota, retira um livro de cor atraente, desenhos na capa, e abre-o numa página qualquer, onde lê:
“Feliz é aquele que não tem filhos,
Porque as crianças não fazem senão chorar e cheirar mal;
Só dão trabalhos e cuidados;
Têm de ser vestidas, albergadas, alimentadas;
Contraem doença e morrem”.
Quando são crescidas podem seguir por maus caminhos e serem presas...”.
Fumegam os olhos do Zé, que abandonou os trejeitos ridículos de intelectual do avesso.
“Nada senão cuidados e desgostos;
Nenhuma felicidade nos compensa das aflições,
Dos trabalhos e das despesas com sua educação.
Há maior mal do que ter filhos aleijados?”
– Aahh, seu vômito de cachorro! – brada o Zé ante olhares que o censuram – Vai com o livro debaixo do sovaco até o gerente:
– Quero comprar esse troço. Quanto custa.
– Veja o preço na última folha, guri.
– Nossa! Esse preço é quase o meu salário!
– É, meu jovem, tá tudo tão caro: a tinta, o papel, a encadernação, o custo de vida. Além disso, blá, blá, blá; patati, pa-
tatá...
– Tudo bem, seu Zé. Mas posso tirar uma cópia dessa página aqui, ói!
– Huumm... – o gerente teme consentir; julga que o livro jamais retornará. Diz:
– Pedirei a um funcionário que lhe tire a cópia. Nossos clientes não precisam ter trabalho algum. Será uma honra fazer-lhe esse obséquio.
– Tá, eu espero o obséquio e a cópia também.
Esperou, mas muito chateado com o que lera.
– Droga de escritô... Porcaria de escritô... Gororóba de escritô...
A ladainha ia longe quando chega a cópia. Agradece e sai.
No percurso até a Praça da Sé, o Zé lê e relê a tal poesia. Os transeuntes da Rua Direita desviam-se daquele moleque compenetrado atrás de um papel, e que nem se dá conta de que acabara de pisar no cocô de cachorro.
De volta à empresa, afixa a senha de encontro da turma no painel junto aos relógios de ponto do subsolo: SA16 (leia-se: Setor de Arquivo, às l6 horas), recado compreensível apenas para o cerradíssimo clã dos bóis.
Dez minutos antes do combinado, o Zé caminha em círculos no Setor de Arquivo. Dona Ikeda, intrigada, pergunta:
– Zé, o que você aprontou desta vez?
Silêncio.
– Huumm, algo não está cheirando bem... Você cuspiu novamente no fosso da escada e lambecou outra vez a careca do chefe da seção de disco lá na loja, né?
– Não, dona Ikeda; não fiz mais isso, não.
– Ainda bem... Se ele souber quem foi... Anda perguntando por aí. Quer degolar o atrevido.
– O pobrema é outro...
Dona Ikeda conhece o Zé; sabe que não arrancará ella informação alguma. Apenas corrige o “pobrema”, e volta ao tricô.
Às 16 horas chega o pessoal.
– Fala, Zégas, onde é o pau hoje? A turma lá do banco da esquina tá enfrescando de novo?
– Não é nada disso, Pelé. Os cara agora já tão amigo da gente. O pobre... O plobrema... Como é mesmo aquela palavra, dona Ikeda?
– Problema, Zé...
– Obrigado... O negócio é outro. Calma que já te conto.
Chegam juntos vários garotos. Todos desembucham suas perguntas: Brachola quer saber se um bondoso cientista descobriu o remédio contra espinha no rosto; Dentinho, se trocariam gibis; Ferrugem, se haveria jogo de futebol; Chico Porco, se teria alguma festa no sábado à noite.
Apaziguadas as inquietações, o Zé pede para sentarem. Brachola vai ao seu canto junto dos armários grandes. Os demais se acomodam no chão. O Setor de Arquivo isola-os do mundo.
– Pessoal, todos nós temos irmãos pequenos lá em casa, não é mesmo?
– Ééé – respondem todos.
O Zé continua:
– Enquanto a gente tá batalhando, dando duro, nossos irmãozinhos estão lá em casa esperando crescer como a gente pra depois ajudar a gente, não é mesmo?
– Éééé.
– Pois então, queria que vocês ouvissem o que os caras andam escrevendo por aí dos nossos irmãozinhos. Fazem isso enquanto a gente tá dando duro e não tem tempo pra ler as besteiras que eles escrevem. Tem um gosma de sapo aqui que escreveu uma poesia. O nome do cara é Eu... ss... ta che...De...s...cham...pis. É isso aí: Eustaco de Chão... De Chão, não, Descham...ps.
– Dêxa pra lá, Zé; lê logo a birosca aí, que esse cara escreveu, pô!
– Calma aí, Ferrugem... Lá vai então: “Feliz aquele que não tem filhos porque as crianças não fazem senão chorar e cheirar mal; só dão trabalhos e cuidados...”.
Decorada de tanto ler, o Zé declama as estrofes enfatizando bem as palavras-chaves: chorar, cheirar mal, contraem doenças, dão despesas sem nenhuma compensação, vão presas. No final, abafa a voz e passa celeremente pelo trecho que diz: “e há mal maior do que ter filhos aleijados?”. Fez isso porque o Marmita, que chegara no momento das explicações iniciais, tem o braço esquerdo seco, e não quis magoar o inseparável amigo de todos – o Marmi –, campeão de tênis de mesa da temporada do Magazine, superando até o Pelé numa inesquecível disputa.
Ao final da leitura o Setor de Arquivo explode, insuflado por espíritos amotinados. Dona Ikeda levanta e fecha a outra meia folha da porta de entrada, e encarece aos rapazes um pouco mais de silêncio.
– Vou dar um pau nesse cara! Onde ele mora, Zé?
– Vai saber, Pelé...
– Desgraçado, filho da p...
Vários interrompem a frase lembrando a presença da dona Ikeda, e Pelé se corrige em tempo:
– ...filho de mãe que não foi santa porque deveria ter afogado esse p... (censura).
– Afogado ele na privada – esbraveja o Brachola, vermelho de raiva, com as espinhas eriçadas no rosto.
– É isso aí, vamos dar um cacete nesse tal de Destaque a Distância, e dizer pra ele uma pancada de verdades.
– Boa, tamos com o Dentinho!
Um choro contido, quase imperceptível, é ouvido e vem do caçula da turma: do pequeno Zico, sensível ao tema de crianças aleijadas e sujas:
– Chora não, Zico, senão eu...eu... vo...vo...cho-cho chorar também – diz Pelé que conhece bem a história do companheiro.
– Esse poeta tá abestalhado, Zico, e não merece que ninguém chore por causa de...dede...le... – diz Brachola, que também conhece a história do Zico, e decide calar o bico por prudência, já que inesperado nó lhe travou a garganta.
Zico, que até o momento estava em silêncio, fala:
– Sabe, eu tenho nove irmãos e sou o mais velho deles. A gente se gosta de verdade e minha mãe gosta pra chuchu de todos nós... Tá certo que uns choram, outros ficam doentes, outros fazem cocô e xixi fora da privada, e eu não gosto de tomar banho gelado no banheiro lá fora, no quintal. Sei que dou trabalho pra minha mãe, que me pega e me esfrega na marra com bucha e sabão de coco se fico um dia sem tomá banho...
Ouvem-se tímidos risos pelo plástico comentário do Zico, que respira e continua a narrativa:
– Minha mãe e meu pai sempre dizem pra nóis que o que seria deles sem nóis. Meu pai trabalhava que nem burro pra sustentá a gente, e até ficou doente por causa disso e agora ninguém contrata ele pra trabalhá. Mas num tem probrema porque ele faz uns biquinhos por aí, i tá sempre contente e isso deixa a gente contente também. Agora nóis tá rezando pra Nossa Senhora da Aparecida sarar ele. Meu pai gosta de um mundão de coisas, mas minha mãe diz que ele não tem tempo pras coisas dele... Mas minha mãe é a mesma coisa, porque lá em casa não tem empregada pra ajudar ela. Só ajuda ela as minhas irmãzinhas, que cozinham e fazem tudinho quinem muié grande. A Didinha tem sete anos e sabe cozinhá feijão e arroz gostoso pra caramba; a Fininha, com cinco anos, limpa a casa; e a Neninha, com quatro, ajuda as outras a limpá o quintal, a descascar batatas e lavar o feijão...”
Zico faz pausa e ninguém ousa romper o silêncio; só ele tem permissão para falar. Na verdade, todos estão desmotivados de pronunciar seja o que for, porque algo estranho no ar dá um nó na garganta, na menor tentativa de dizer algo.
Então Zico, que é o mais forte de todos, prossegue:
– O meu irmãozinho mais novo tem um ano e meio e é aleijado: tem uma peininha menor que a outra peininha... Esse seu Destampa disse que não existe mal maior do que um filho alejado... Acho que ele disse essa cagada porque não conhece de perto e de verdade nenhuma criança assim... Já imaginaram a gente sem o Marmita? Tudo aqui seria uma aperreação danada, não?
– Glup – respondem.
Sentados no chão, alguns garotos têm a cabeça enfiada entre as pernas dobradas e enlaçadas pelos braços. Todos se furtam de exibir uns olhos avermelhados.
– Lá em casa – continua Zico –, o irmãozinho que a gente gosta mais é esse da peininha curta... Todo mundo quando chega em casa vai direto brincá com ele... A gente não pode passar muito tempo longe dele que a gente sente uma baita duma vontade da gente tá com ele... Minha mãe gosta muito dele e a gente gosta pra chuchu que ela até goste pra caramba dele e até mais do que ela gosta de nóis... É uma gostação gostosa essa da gente gostar dele.
Tímidas risadas. Zico prossegue:
– Todos lá em casa vamos trabaiá pra esse meu irmãozinho alejado podê estudá bastante. Ele é muito inteligente e já sabe falá um montão de coisas que a gente se diverte só de ouvir. A gente acha que ele vai ser gênio de tão inteligente que é... Esse seu Eustaco não falaria uma merdaiada dessas se conhecesse também o meu irmãozinho da peininha curta.
Outra pausa e ninguém pia. Então, o doutor Zico pros segue:
– Sabe, o meu pai e a minha mãe dizem que quase num tem tempo de brigá porque a gente não dá tempo pra eles brigá... Se eles num tivessem a gente tariam brigando qui nem a dona Albertina e o seu Jorge, que estão cheio de tempo pra brigar porque só tem o Robertinho de filho, e porque dizem que não querem ter outro filho chato que nem o Robertinho, que é muito injuado e vai virá mariquinha.
Veladas risadas provoca o comentário do Zico, que pros segue:
– Outro dia quando eu mais meus irmão tavam na cama pra durmi, ouvi meu pai dizê pra minha mãe: – “Sabe, Pretinha, nossos fios num deixam a gente pensar em bobagens, né?” Aí, minha mãe disse: – “É, meu Baiano, por isso a gente é feliz. A trabaieira que essa fiarada dá, só faz a gente ter a cabeça neles... e em você, meu baiano”. Aí, meu pai disse: – “Neles e em você, minha Pretinha... E quando nós tamos falando assim sozinhos, nesse silêncio de nunca, até parece nosso tempo de namoro, né?” Eu não entendo muito dessa coisarada que eles falaram, mas me chêra coisa boa, né? – indaga o Zico.
– Ô si é... – respondem os companheiros.
Desabafo feito, Zico emudece. Entreolham-se calados os amigos. Alguns garotos permanecem sentados no chão, com a cabeça apoiada nos joelhos. Pelé tem uma ideia:
– Pessoal, eu e o Zégas podemos ir até a livraria e pegar o endereço do cara que escreveu todas essas baboseiras aqui. Aí, amanhã, na hora do almoço, nóis vai lá na casa dele e repetimos tudo isso que o Zico falou pra gente! Que tal?
– Boa, Pelé! – afirma Ferrugem.
– Falar? Que falar, nada! Vamos lá pra descer o cacete nesse tal de Eustaco a Distância!
– Calma, Brachola, precisamos de dipromacia pra lidar com esses tipos de caras – diz Pelé. Violência não resolve nada... Mas bem que ele merecia umas porradas!
Final de expediente. A sanha é grande e o tempo é curto para a empreitada, pois além do encargo assumido, os emissários – Pelé e Zégas – têm aula à noite. Correm e aterrizam diante da livraria. A porta está fechada. Os garotos batem, batem. Alguém se cansa e, contrariado, vem atender. Sob protesto do funcionário que brande a tabuleta de “expediente encerrado”, os garotos entram e vão à mesa do gerente:
– Oi, tá lembrado de mim? – diz o Zé ao chefe da loja.
– Boa noite, tio – cumprimenta Pelé.
– Boa noite! Oh, sim, estou lembrado de você.
– O senhor tem o endereço do cara que escreveu essa porcaria aqui? – e estende a cópia amarrotada. O livreiro, curioso, recebe o texto, coloca os óculos e logo se põe a rir:
– Oh, oh, oh... É um poeta lá da Idade Média. Creio que do fim dela, ou próximo disso.
– Onde fica esse lugar, Zé? Tem ônibus pra lá? – pergunta Pelé.
– Ah, ah, ah – diverte-se o gerente.
– Zé, tamos com cara de besta pro cara rir assim da gente?
– Garotos, Eustache Deschamps é um poeta triste que viveu, se eu não estiver enganado, lá pelos anos 1400, na França, e morreu faz uns 500 anos! Oh, oh, oh...
– Então o cara deu no pé, Zé?! Baita sorte a dele. Tava com uma gana de...
– Garotos, precisam ir andando. A loja já está fechada.
– Só uma pergunta, tio: as coisas que esse cara escreveu tão espalhadas por aí?
– Certamente que sim! Qualquer coisa escrita fica por aí.
Com essa os moleques não contavam! Entreolham-se desfeitos. Que mais fazer além de despedirem-se e partirem consternados e inermes para restaurar a depredada honra da pir ralha da de muco no nariz e sujeira nas bochechas? Honra conspurcada – é bem o termo – por um poeta que detratou e deu no pé. É muita covardia...
A garotada sente na carne o velho ensinamento de que a calúnia é pedra lançada para trás por quem, cândida e despercebidamente, nunca a vê onde cai, nem os estragos irreparáveis que produz. É pedra de material radioativo, indestrutível, que nem o passar do tempo faz cessar seu danoso efeito. Má coisa é tocar na pedra-calúnia: produz câncer interno tanto no detrator, como nos que com ele se divertem ouvindo a mentirosa narrativa, pois corrói-lhes a alma e o coração; e transforma-se em câncer externo, de pele, no detratado, desfigurando-lhe a imagem e tornando sua vida injustamente asquerosa e repelente.
Após a aula, o Zé vai para casa. O pai aguarda-o de cotovelo na mesa e o livro de contabilidade sob o queixo. O jantar do filho ocupa o outro extremo da mesa. O garoto entra. O pai percebe tristeza anuviando uns olhos sempre brilhantes:
– Oi, Zé, como foi o dia?
– Mais ou menos, pai.
– Huumm... Você quer laranjada ou limonada?
– Tô sem fome...
– É, eu também estava sem fome hoje no jantar... Que tal a gente beliscar só alguma coisinha, hein?!
– ...Tá...
Júlio muda o cardápio e coze dois ovos mexidos com tomate, irresistível para o Zé. Enquanto come, o pai pergunta:
– E aí, velhão, o que não foi bom hoje?
– Leia esse troço aqui, pai... O senhor já vai descobrir o que deixou a gente azarado da vida lá no Magazine.
Júlio recolhe os pedaços da cópia e a lê enquanto o filho janta. Sorridente, sem gesto de brusca repreensão ou mal-humor, qualidade essa que o faz ganhar a amizade e confiança dos filhos, comenta descontraído, mesmo não tendo gostado do que lera:
– Já li... Não conhecia o texto... Também nunca ouvi falar deste poeta. Onde você encontrou essa poesia?
– Entrei numa livraria pra comprar um livro e catei um de capa bonita onde estava essa poesia. Como o dinheiro estava curto, o vendedor me deu essa cópia, que pedi pra ele. O cara que escreveu isso deu nó pé; viveu nos anos 1400.
– Entendi.
O relógio da sala badala meia-noite. A casa dorme. Pai e filho velam na cozinha.
– Zé, lembra-se do dia em que você e a turma aqui da rua decidiram comemorar a noite de Natal por conta própria, e cada um contribuiu trazendo uma bebida alcoólica diferente? Recorda o pileque que vocês apanharam ao misturar tantas bebidas juntas?!
– Ah, ah, se tô alembrado! Faz tempo isso, né, pá? Eu nem sabia onde estava! Cheguei em casa me segurando pelas paredes e a mãe deu um grito quando me viu porque pensou que eu tinha sido atropelado, né?!
– Alembrado, não, Zé: lembrado... Pois é, que susto ela llevou!
– Tá... Acho que foi a partir desse dia que passei a gostar só de refrigerantes...
– Foi, sim... Vocês desconheciam o potencial do álcool e agiram como descreveu um santo que conta de um sujeito que entrou numa farmácia e foi engolindo os comprimidos que achava bonito. Dá pra imaginar como o cara saiu de lá, Zé?
– Se dá! Que cara louco! Estrebuchou todinho, não, pai?!
– É, ficou bem estragado. Pior do que você no dia da bebedeira!
– Tá doido; não quero nem me alembrá desse dia!
– Lembrar, Zé...
– Tá. Eu cheguei todo mole, torto e babado, né?
– É chegou, sim. E que conclusão você deve tirar?
– Que o álcool não me faz bem, e que não devo tomar qualquer comprimido bonitinho que anda por aí!
– Não, Zé... Uma gotinha de álcool não faz mal, não. Lógico, um porre tá fora de questão. Lógico, comprimidos desconhecidos, nem falar. Você não percebeu a semelhança dos fatos quanto às conseqüências?
– ... Não percebi... Acho que é culpa do ovo!
– Ah, ah, é simples, velhão! Veja, você antes de ler este treco, não estava bem?
– É, tava!
– E depois da leitura você não ficou triste?
– É, fiquei!!!
– Então o que você conclui, Zé?
– ... Que essa leitura me danou a cabeça como os comprimidos pro cara da farmácia, né?!
– Isso mesmo. Vamos brindar!
– ... Mas, por que não ler se tava escrito?!
– Porque ninguém tem resposta pra todas as coisas e fa cilmente pode ser enganado com argumentos falsos. Deixe que leiam de tudo os idiotas e prepotentes, que depois ficam com a cabeça mais confusa do que a de um bêbado.
– ... Nunca tinha pensado nisso... Rrroohhh – o Zé arrota e pede desculpas. Depois diz: – O que é preportente?
Corrigido e explicado o termo, Júlio sugere algo:
– Zé, você quer ler um livro bom?
– Perdi a vontade. Nunca mais vou ler livro algum!
– Êta moleque 8 ou 80! É preciso ler e muito! Mas peneire as leituras, sabendo que há livros bons e maus... Garotão, um princípio de sabedoria oculto aos soberbos é se informar com pessoas de critério sobre as leituras que gostaríamos fazer. Com isso, poupamos tempo, dinheiro e saúde... Zé, me pergunte sobre os livros que pretende ler. Caso eu não o conheça, me informarei sobre ele com pessoas de confiança. Certo?
– Ô, si tá.
– Posso sugerir um livro? Aposto que você vai gostar! Conta a história de um garoto!
– Então pode...
– Leia o Pequeno Príncipe, de Saint-Éxupery!
– Mas, pai!, ali no Pari só tem Santa; e a Santa ali do Pari é Nossa Senhora do Pari. Eu já fui lá com a mãe!
– Mas, Zé, quem falou aqui de santo ali do Pari?
– Pô, pai, o senhor não acabou de falar que o “Pequeno Príncipe” é do santo ali do Pari?
– Oh, não, mais essa, e a essa hora!... Eu não disse santo ali do Pari, mas Saint-Éxupery, que é um autor francês.
– Aaaah, não, pai; outro francês não! Estou por aqui de françuá. Bastou o Eutacho a Distância. E vai que esse “santo do Pari ou do “pé aí” fosse amigo do Destampa!
– Zé, aprenda a dizer os nomes: Saint-Éxupery e Deschamps... E garanto a você que não foram amigos, não. Pode ter certeza que o Éxupery nunca viu nem mais gordo e nem mais magro o Eustache Deschamps, pois viveram em séculos diferentes! Você não disse que o cara viveu no Século XV? Pois então, o Éxupery é do século XX.
– Tá legal, pai. Acho que vou comprar esse livro. Será o primeiro livro que comprarei!... O Pequeno Príncipe, do Santo Ezul Perri, que não é o Santo Ali do Pari, certo? Ambos riem.
– Depois vou emprestar pra turma ler!... Bem, acho que vou dormir. Tô podre de sono... Quer que ajude a limpar a sujeira que a gente fez?
– Não, Zé, eu limpo. Vá dormir.
– Pera aí, pá. Vamos brindá pra esvaziar os copos!
Brindam com laranjada a uma hora da madrugada... – a rima é doída, mas acontecida.
– Tchau, pá.
– Tchau... Ah, antes de emprestar o livro, leia primeiro, tá bom?
No corredor, o Zé diz que sim com a cabeça. Júlio limpa a mesa sorrindo, ao prever que o filho logo aprenderá outra lição: livro vai e não volta; por isso não se empresta: dá-se ou vende-se. Enquanto lava os talheres, Júlio se recorda da piada do bibliófilo que respondeu como compusera tão vasta biblioteca: – “Simples, nunca empresto livro; e os que tomo emprestado não devolvo”.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

