« Seu Modesto »
– Gente, ele vem vindo!
– Pode parar, pessoal!
– Teeempo! Já deu.
– Chega.
– Rrrrrrr rrrrrrr rrrrrr.
– Quieto, Babaréu; para de rosnar pra ele...
– Bom dia, seu Mm... Mod...
– Nem olhou, viram só!
É sempre assim: crianças e insetos, ele trata-os com o desprezo da indiferença. Sua sombra eclipsa o brilho dos jogos de rua. Tão próximo passou, mas distante estava. Altivo, gélido, inatingível, terá ouvido o cumprimento? Ouviu, sim, mas não se importou. Saudá-lo sendo moleque é falar ao vento e ficar com cara de tonto na rua. Ele só corresponde àqueles a quem tem interesse.
Um temor reverencial, excesso de observância, toma conta dos garotos ao serem banhados pela sua sombra: cessam a mãe-da-rua e quedam mudos, suspensos, até aquela silhueta estranha, de chapéu, dobrar a esquina... Dobrou... Foi como o passar do carro funerário trazendo à algibeira um caixão de defunto e arrastando um séqüito de veículos chorosos e pesados. Empanou o brilho da vida.
Mas esse sujeito age assim com todos? Já disse: só com crianças, animais e insetos. Com adultos, liquefaz-se em amabilidades, prodigalizando o levantar de chapéu acompanhado de vomitado sorrisinho, salamaleques e panegíricos de ocasião. É homem capaz de volver três quarteirões para mostrar-se serviçal a uma velhinha com a sacola de feira. Faz tudo certinho para mostrar-se escrupuloso no cumprimento dos deveres mais comezinhos... Por virtude? Oh, isso não. Por aparência. É do tipo que côa um mosquito e traga um elefante ao faltar-lhe a virtude-mãe: a caridade.
Beira os cinqüenta. Solteiro. Mora só, pudera. Traja invariavelmente terno escuro. Seu cabelo, besuntado de brilhantina, é penteado para trás à moda antiga. O andar pausado, de passadas largas, chega a ser solene. Caminha ereto sem mexer a cabeça, que só vira de lado acompanhada pelo corpo, sempre em tom pomposo. Profissão? Funcionário público, na iminência de se aposentar. Trabalha numa dessas repartições oficiais parca em iluminação, que entranha móveis velhos, escuros e paquidérmicos. Em seu setor há até porta-chapéus com penduricalhos para guarda-chuva e galochas... Para quem? Ora, para ele, sempre ataviado desses arreios, mesmo em dia de sol: – “Nunca se sabe quando vai chover”, é sua incansável ladainha.
Suas frases são entremeadas de palavras do tipo: destarte, outrossim, somenos, data venia. Em vez de introdução, prefere exórdio ou exagoge. Prefere calaceiro a preguiçoso; atascar a atolar; lançadura a arremesso; peguilho a embaraço; sarrabulho a confusão; marau a malandro. E assim por diante... Chama o pobre girassol do jardim de verrucária, termo mumificado em algum repositório (nome que ele dá ao coitado do dicionário).
Há 35 anos seu Modesto Gentil Penteado faz sempre o mesmo: de manhãzinha dirige-se ao seu ponto de ônibus e, no percurso, cumprimenta dona Concheta, que diariamente lava a calçada. Ao passar pela alcoviteira levanta o chapéu e repete, sem a olhar, a frase de sempre, de 35 anos!: – “Bom dia, dona Concheta. Linda manhã, pois sim?”. Ela responde: – “Bom dia, seu Modesto. Linda manhã, pois não. Bom trabalho, sim”. Todos conhecem – e fogem – da dona Concheta, a velha carquilhada de lenço na cabeça, língua ágil que destila veneno de áspide, e temida em toda rua. Ninguém escapa ao seu bote... Engano meu, alguém se mantém ileso, sim: seu Modesto Gentil Penteado. Ela, que nunca sabe louvar, mas só criticar – é sempre mais fácil meter a picareta do que construir – nada vê que desabone esse homem tão correto, tão... bonzinho, tão... tão escorreito, brrr, coitadinho. E assim a oficiosidade, o rapapé, a afetação e o pedantismo passam por virtudes.
Deixada a fofoqueira para trás, seu Modesto cumprimenta o senhor Manoel no momento em que o português abre a quitanda; saúda dona Zilá que compra o pão antes das aulas no Maria José. Ao cruzar com o segurança do edifício, tira-lhe o chapéu em reverência, porque o esquálido funcionário está investido de autoridade policial. Todos pensam o mesmo: é tão bonzinho, tão correto, tão emendado o seu Modesto.
Osório, o motorista do ônibus, invariavelmente presencia a mesma cena: um tipo magro, rosto anguloso que escora uns óculos de armação preta com grossas lentes, guarda-chuva no antebraço esquerdo pendurado feito morcego, que dá sinal com o braço direito imóvel e hiper-esticado desde que o veículo aponta no início da rua até que pare no ponto. Quando, então, a estranha figura recolhe o pobre membro exposto a tão ridícula postura, muda de antebraço o para-águas, arregaça a calça até a canela e entra no coletivo – nome careta que seu Modesto dá ao pobre ônibus –, sem nunca perder o ar pomposo. E tudo isso, um dia e outro, ao pasmo de todos os passageiros que pouco lhe importam, pois são uns desconhecidos a quem nada deve e nada tem a receber.
Mas amanhece um novo dia. Seu Modesto acorda, tira as ceroulas, a touca e banha-se. Toma um gole de café e encaminha-se ao ponto do seu coletivo. As mesmas pessoas, os mesmos cumprimentos. Porém, nessa manhã, surge um personagem inesperado.
Seu Modesto apropinqua-se do ponto, como sempre diz. Não há ninguém por ali. Teso feito cajado, mira fixamente o início da rua, de onde deverá apontar o ônibus. De repente percebe algo movimentar-se lépido pelo chão. Sem mover a cabeça – apenas o olho –, vê aproximar-se um... um... gatinho! Sim, um gatinho bem pequeno e rechonchudo. É do tipo brincalhão que encanta qualquer criança só pela maneira sapeca de caminhar, que nunca traça trajetória retilínea, desviando-se pelo motivo mais banal: perseguir uma mosca, tocar com a patinha um inseto aflito por se livrar dela, correr até a embalagem de cigarros vazia e atirada ao chão. Tudo só para brincar, única inspiração desse miúdo ser.
O bichano vem ao encontro do seu Modesto e detém-se a pouca distância. O homem inspeciona o entorno e constata não haver ninguém. Então, deixa seu granítico coração se enternecer e expandir-se numa demonstração de afeto pela terna criatura. Faz o consagrado “psss, psss” com a boca, acompanhado da fricção do polegar e o indicador da mão direita.
O gatinho é daqueles que topam qualquer parada e acede ao convite. Achega-se ao homem. Roça-se em seu sapato, dá patadinhas no cadarço e desenterra daquele rosto hierático e mumificado um esboço de sorriso vulgarmente chamado de amarelo, mas partindo de quem parte tenha-se por gargalhada.
Entretido com o animalzinho, nota a aproximação de pessoas ao ponto. Presto, seu Modesto passa a tributar total indiferença ao ínfimo felino e, com ar de repugnância, afasta-o suavemente com o bico do sapato na fração de segundos em que os demais calibram o início da rua para ver se desponta o atrasado ônibus. O animal estranha o repentino proceder e mira seu Modesto com sua cabecinha ora inclinada de um lado, ora de outro. O ônibus tarda. O clima é de expectação e seu Modesto padece. Os olhares dividem-se entre o relógio, o extremo da rua, o gato e o envergonhado seu Modesto. Suspiros inconformados pelo atraso da condução. Seu Modesto sente outra vez a presença inoportuna do bicho aos seus pés, ruboriza-se e empurra com mais veemência o pobre gato que, afeiçoado àquele monólito de gelo, aceita o recuo como um convite para brincar e diverte-se ainda mais com o cadarço do sapato. Transtorno maior se dá quando o animal salta à cintura do seu Modesto, pendurando-se na fivela do cinto, cujo brilho o atraiu. Descomposto, passando do rubro ao marfim, o homem colhe o animal pelo cangote e o repõe no seu devido lugar. Sente ímpeto de retirar-se. Fica.
O ônibus! Suspiros. Fazem bolo na porta para entrar, exceto seu Modesto que cavalheirescamente dá passagem às senhoras; depois, quando poderia entrar, cede a vez aos senhores e moços. Por fim, quase em último lugar, atropela e arremessa para trás um garoto que se iludiu com a aparente bondosidade e insinuou entrar. Dentro do ônibus, seu Modesto lança o olhar pela janela e bafeja longa e profundamente, estufando as narinas que dão passagem ao ar do alívio. Vê com gozo a desolação do animalzinho na calçada perdendo o “amigo”. Súbito, a porta fechando, o gato pula para dentro do ônibus acantonando-se entre as pernas do seu Modesto. O cobrador, mal educado e novo na linha, não perde tempo em mostrar autoridade, e desaprova altissonante:
– O senhor aí, não sabe que é proibido transportar animais no ônibus?
O seu Modesto empalidece vendo-se olhado por todos e balbucia:
– Mm... Mas não é meu este gato!
– Ora, como não é, se não larga dos seus pés?
Diante de tais palavras, o gato é repelido mais bruscamente. Retorna.
A velha sentada junto à entrada toma as dores do gato:
– Sujeitinho ingrato! Deixe o gatinho em paz senão vou denunciá-lo à Sociedade Protetora dos Animais... Bestão.
– Vai lá, dona, que vão enfiar a senhora numa jaula!
Risos. Vexada, a velha levanta-se e dá com a sombrinha na cabeça do cobrador, ficando apenas com o cabo desse delicado utensílio na mão.
– Sua bruxa, vai bater no diabo que a carregue!
Desdobram-se os fatos: o cobrador, encolerizado, abandona a roleta e parte em direção ao seu Modesto, estopim dos desentendimentos e, a título de prêmio à confusão armada, dispara um potente soco no olho esquerdo do almofadinha, que estatela-se desacordado no corredor do ônibus, esboçando prazenteiro sorriso de quem dorme exausto e profundamente.
Vários passageiros compadecem-se do dono do gato e avançam colericamente sobre o cobrador. O motorista freia o veículo e corre em auxílio do companheiro, distribuindo socos e pontapés em pessoas e poltronas. Um forrobodó geral toma conta do ônibus, parado no meio da Avenida Nove de Julho, imediações do Bixiga, obstruindo o intenso tráfico que tão avidamente deseja chegar ao Centro da cidade para iniciar mais um dia laboral.
Na pista contrária trafega uma viatura policial que percebe o motim no interior do ônibus. O sargento destaca os dois guardas do banco traseiro que distraidamente contam piadas. São incumbidos de apaziguar a rebelião intestina. Ambos penetram temerosos pela porta da frente do ônibus e percebem ânimos exaltados. Um tabefe errante desenrosca o quepe do policial que, impetuoso, tomou a dianteira. Ao abaixar-se para recolher a indumentária, o turbilhão avassalador succiona o pobre homem e lança-o fora do ônibus pela porta de saída, naturalmente sem o boné, que chega por partes. O guarda Melo desconhecia a armadilha chamada “corredor polonês”, acervo cultural de qualquer moleque de rua, e amargou o desprazer de conhecê-lo agora, já adulto.
O segundo policial, precavido, desistiu da empreitada e lembrou-se de que certa vez, quando garoto, tentara passar entre duas fileiras de moleques com o objetivo único de tomar o menor número de tapas possível. Não deu; acordou dorido na casa dos pais: faltou-lhe prever na ocasião – pela inexperiência de vida – que a turma atalharia a passagem para lhe descer a mão, e o pé, em pontos inenarráveis do corpo. Versado agora, tira o calibre 38 do coldre, levanta o braço e grita, naturalmente sem despregar-se do degrau da porta de entrada:
– Bêeleezaa, vou estourar um montão de miolos por aqui; lá vai o primeiro! – e aponta o tão respeitado instrumento para o interior do ônibus.
Paralisação geral! Ninguém respira, hipnotizados que estão, não se sabe por que, todos olham para o mesmo ponto. O esperto policial vendo-os petrificados lembrou-se de outra brincadeira infantil chamada de “estátuas mudas e imóveis”, que consiste na arte de proferir essa tão imperativa e peremptória ordem a um distraído amigo, melhor, vítima, obrigando-o a permanecer feito estátua na posição em que se encontrava ao ouvir o mando; brincadeira que se presta a vasta série de insultos, inclusive enfiar a mão no bolso do imobilizado para lhe tirar o que houver dentro. Mas, voltando ao ônibus, apesar do quietismo dos passageiros, o guarda Amâncio resolveu não se arriscar – prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém –, e permaneceu ali mesmo na porta, de onde gritou novamente:
– Agora, todos pra delegacia; tão em cana!
Revólver em punho, o policial obrigou o motorista a ir direto ao distrito policial da região central, fazendo lembrar a velha estrofe da canção de Noel, quando pretensos passageiros acenavam nos pontos para entrar: “quem está fora não entra, quem está dentro não sai”.
Na delegacia, outro fato: a dor de dente não deixou o delegado de plantão dormir, o que motiva agora o seu tremendo mal-humor diante do bando de desajustados:
– Quem foi o causador de toda essa confusão?
Respondem os passageiros que foi o motorista; o motorista que foi o cobrador; o cobrador berra que foi a velha; a velha relincha:
– Foi esse senhor – e aponta o seu Modesto.
– Sim, foi ele – confirmam todos.
– Não, não fui eu; foi esse ga... gato! Onde está o gato?
– Gato? – indaga a autoridade policial. Delira, homem? Não há gato algum aqui. Todos estão dispensados. Fica apenas o almofadinha desordeiro.
E o gato? Bem, ao principiar a pancadaria no ônibus, o esperto felino escapuliu pela janela e assistiu de camarote sobre a lata de lixo de um restaurante, plena de deliciosos restos de peixe, o bafafá que o amigo causava: “não confie em gatos”, diz a sabedoria popular. Mas seu Modesto nunca deu ouvidos ao vulgo. E deu no que deu.
Pois é, seu Modesto ficou preso. Foi fichado como desordeiro com direito a tudo: impressão digital – tocou piano, na gíria de caserna –, boletim de ocorrência, revista, antecedentes. Por falta de matéria, repórteres policiais de plantão tiraram fotos do amotinador, que permaneceu no xadrez até o dia seguinte, e tudo foi estampado em alardeantes manchetes de jornais:
Arruaceiro do Bixiga causa pânico em coletivo”.
“Quiproquó em ônibus na nove de Julho bloqueia a cidade na hora do rush e faz fila de 30 quilômetros”. Puro exagero de um sensacionalista matutino paulistano.
A impoluta reputação do seu Modesto quedou maculada. Tantos anos de esforços para não cair na língua da dona Concheta foram jogados às traças. O basilisco – a serpente que matava só com o bafo –, teve apetitosa vítima para se deliciar, e fartou-se até às ânsias: “Sabem o que aconteceu?”; “Viram a notícia?”; “Imaginem só...”; “Gente do céu, sabe quem...”; “Quem diria, mama mia!...”. Foi prato cheio. Se foi... Ô doido.
Dois dias de cela para acareações e verificação de antecedentes criminais, depois é solto. Desde o dia das manchetes dona Concheta, seu Manoel, dona Zilá, o guarda e o motorista não viram mais o seu Modesto, apesar de ansiarem um encontro com ele. Aliás, nunca mais o viram. Quinze dias após o incidente, um caminhão de mudanças trouxe nova família que ocupou a casa do arruaceiro. Sim, seu Modesto Gentil Penteado sumiu do bairro, sem despedidas. Não se sabe em que dia, pois fez sua mudança na calada da noite, tendo como únicas testemunhas a lua, as estrelas e os pirilampos do campinho de futebol. Não aguentou o baque. “Sacudir a poeira e dar a volta por cima” não é com ele. Se mandou para a Freguesia do Ó, para o azar da boa gente desse bairro. Foi-lhe impossível ser moeda de ouro que a todos agradasse. Não quis coxear no caminho e andou depressa para fora dele. Bem-feito. Danou-se.
A ridícula figura do seu Modesto ainda é recordada no Bixiga. Vez por outra um espectro de terno velho, escuro, guarda-chuva no braço e ereto feito poste com pernas, perambula pela Santo Antônio ao riso geral. Todos sabem que um sombrio ser está sendo revivido pelo pirralho que desentranhou bolorenta indumentária de um mofado baú que apodrece em algum porão do bairro.
E assim, no Bixiga, da tristeza se faz a alegria.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.

