« Visitas para o jantar »
– Crianças, hoje à noite um amigo do papai lá da empresa virá com a esposa pra jantar com a gente. Quero ordem e sossego na casa, tá bom? Droga, pelo menos um dia! – desabafa Mariana.
– Tá bom, mãe – responde Margarida em nome de todos.
A promessa é mantida até o final da tarde. Depois do banho das crianças, Mariana pede à Ciça que adiante o jantar dos pequenos, pois com os convidados apenas cearão os mais velhos.
Em cumprimento do decreto materno, no repasto antecipado fartam-se apetitosamente os pequenos. Margarida olha para a Glorinha, sentada à sua frente, e diz:
– Gló...
– Huumm... – Glorinha sorve a sopa.
– Sabe o que tô vendo atrás de você?
– ... Não... sssffff... – o desinteresse é total. A sopa está ótima.
Tonico e Thiago não dão a mínima para o diálogo das irmãs: é a fome, pontificam os especialistas, necessidade primária dos seres vivos, que os alheia de outros interesses. “Não se pode matutar de bucho uivando”, arremata o vulgo.
– Não sabe mesmo, Gló? – ouve-se apenas um repetido e sonoro sorvo de caldo.
– Pois tô vendo uma baita caveira no vitrô olhando pra você e...
Ai, ai... Tocou no tendão de Aquiles da irmã. Sem esperar para conferir, Glorinha inicia desastradamente a fuga. Ao pular da cadeira, a franja da toalha enrosca-se em suas pernas e tudo vem abaixo: travessa, copos, jarra, pratos, talheres. Apenas não caem as colheres presas entre os dentes dos dois irmãos, que suspiram tristemente os seus pratos despedaçados no chão.
Desequilibrada, Glorinha bate a cabeça no fogão e cai sobre o armário ao lado, que principia a dançar feito idiota, arremessando a louça nele guardada. Ao friccionar a cabeça, a menina vê sangue em seus dedos e põe-se a chorar como carpideira do Oriente.
O estrépito traz prontamente Mariana e Ciça, que se afeitavam para receber as visitas. Augusto, que acabava de chegar do trabalho e dedilhava o violão na sala, corre também. O panorama é desolador: Glorinha berra já sem fôlego; Tonico e Thiago, paralisados na cadeira e com a boca aberta feito dois idiotas petrificados, fitam doloridos a fugidia sopa que sem pena deles escapa pelo ralinho da cozinha. Margarida, desesperada, não sabe se foge, se fica, se socorre a irmã ou estanca o malabarismo do relutante e mal equilibrado vaso que pena para não ser ejetado do besta do armário que insiste nuns ridículos passinhos de dança – 1, 2; 1, 2 –, como se fosse um paquiderme de saiote e sapatilhas de balé.
Mariana, com o bom senso das mães, prontamente recolhe a Glorinha no colo e dá ordens com firme autoridade quando ninguém sabe o que fazer. Sua voz soa à eufonia que serena os ânimos arrastados pelo turbilhão da confusão:
– Ciça, Margarida, limpem rapidamente esta bagunça. Augusto, me pára um táxi que vou levar a Glorinha ao pronto-socorro e em seguida volte e ajude a limpar tudo isso. Janaína, vem comigo.
– Mãe – diz Augusto –, não quer que eu vá com a senhora?
– Não é necessário. O importante é vocês deixarem tudo em ordem e bem depressa.
Hora e meia depois, Mariana regressa. Glorinha recebeu três pontos na cabeça e traz um simpático curativo que parece uma fita borboleta. Sedada, a menina dorme nos braços da mãe, e é levada ao berço. Tonico e Thiago recebem suprimento extra de biscoitos com a indicação de comê-los no quarto dos meninos. Margarida, encarregada de zelar pelos glutões, sabe que a mãe terá uma boa conversa com ela no dia seguinte. Tal suspeita deve-se ao fato de que Mariana não deixa nunca de se manifestar sobre as coisas que julga erradas – ah, não deixa mesmo –; só que prefere calar-se quando está nervosa e no limiar de dar broncas aos berros e com palavras impensadas que sempre magoam... A Margarida até que preferia liquidar o débito de imediato; mas sabe que a precipitação não é do feitio da mãe.
E como a imaginação de criança beira aos extremos, Margarida prescreve a pena que julga merecer: ser abandonada junto ao túmulo da família no Cemitério do Araçá, à meia-noite; ou amarrada na goiabeira do quintal à mercê dos ataques do marrudo ganso Pilantra, que vive beliscando com seu bico de serrinha todos que entram no território onde se julga rei: – “É bem besta esse ganso”, é o refrão já gasto da Margarida.
Júlio chega pontualmente com os convidados. O jantar é servido na sala com a baixela presenteada aos anfitriões no dia do casamento, e utilizada apenas em ocasiões solenes. Nem Júlio, nem os convidados atinaram com o ocorrido naquele final de tarde.
O jantar é seguido de divertida tertúlia. Com exceção do Zégas, que fora direto do trabalho para a escola, e da Glorinha, dormindo “porque estava um pouco indisposta”, todos os demais filhos do casal participam da alegre reunião. O jeito sapeca do Tonico e do Thiago diverte os convidados. Augusto toca o violão para Ciça, Janaína e Margarida cantarem. Na saída, o casal amigo se despede dando louvores especialmente a Margarida, comportada feito velha condessa. Como é a vida...
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.

