« O Barbeiro »
– Mãe, quer que eu pego a sacola?
– Se diz pegue, pe-gue, Margarida, e não pego!... Pode pegar e coloque aqui no bagageiro – afirma Mariana.
– Obrigado, mãe – diz Margarida.
– Mulher diz “obrigada”, Margarida; o-bri-ga-da. Ufa.
– Ciça... Ô Ciça...
– Que é, mãe?
– Coloque o Tonico, o Thiago e a Glorinha no banco de trás, e sente-se com eles.
– Paiê, deixa eu ir na frente com o sinhô?
– Zé, fique no meio pra sua mãe ir também.
– Oba, que bom!
– Ah, paiê, eu queria ir na frente...
– Margarida, na volta você vem na frente, tá bom?
– Tá!
– Pai, já fechei a casa. Pedi pro tio Faié olhar ela pra nós.
– Boa, Augusto. Agora entrem todos na perua e vamos embora.
E a Kombi emprestada pelo tio Alfredo parte rumo ao interior. Férias, ah, férias, que maravilha!
– Pai, a colônia de férias da sua empresa é grande?
– Você vai ver como aquilo é grande e bonito, Janaína; tem até cavalos pra gente andar!
Ganham a estrada. Os olhos de todos rutilam. Cantos, folia, admiração pela paisagem. Viagem longamente preparada. Difícil foi todos acertarem o mesmo período de férias; Augusto até fez provas adiantadas na escola para ter livre este período. A fim de economizarem o máximo possível, na bagagem há suprimento extra de comida e um pequeno fogareiro. As refeições principais serão servidas pontualmente no restaurante da colônia de férias, mas o horário não coincide sempre com o do estômago da gurizada.
Chegam. A alegria é estrondosa: mulheres se reencontram, crianças de pronto se fazem amigas para um banzé generalizado, maridos se cobram em mútuo escarcéu o paletó e a gravata não embarcados para as jornadas que se iniciam.
A primeira semana de férias voa. Chega o domingo seguinte.
– Júlio, vamos logo; o pessoal tá lá no campo!
– Já vou, Chicão. Tô acabando de consertar este abajur.
Enquanto Júlio faz um reparo elétrico na luminária do chalé onde a família se aloja, ocorre o imprevisto:
– Ui!
Júlio acusa uma picada no pescoço, onde instintivamen-
te leva a mão com um tapa, acertando em cheio o inseto sanguessuga que mergulha durinho no chão.
– É um barbeiro!!! Mamma mia, fui picado por um barbeiro!
O susto desanda-lhe o coração. Sente tontura. Está nervoso. Nunca esquecera a aula de biologia do professor careca do ensino médio. O vil inseto a seus pés é o portador – hospedeiro, lembra-se do termo –, de nada mais nada menos que do trypanossoma cruzi, ceifador impiedoso de muitas vidas por esse Brasil afora. O coração entupido pelo tripa vai resfolegando vida afora até que, subitamente, num distante dia, cansado de sua faina diuturna, cessa de bater. Júlio senta-se. Suspira. Encara o crucifixo em frente da cama do casal:
– O que faço agora, Amigo meu?
Silencioso, o Cristo, de braços abertos na sua cruz, apenas olha-o serenamente: deseja ser aliviado de um espinho de sua coroa, e partilha-o com aquele filho.
Júlio cobre o rosto com as mãos e apoia os cotovelos nas pernas. Dialoga com o Cristo e decide não alarmar a família, necessitada do descanso. Localiza um maço de cigarros vazio do colecionador Zégas e amortalha o inseto. Vai ao banheiro e lava o local da picada. Desinfeta com álcool. Raspa. Suspira. Torna a lavar, desinfetar e raspar. Sorri ao olhar o Cristo... Mas não aguenta e resmunga:
– Desgraçado de bicho; me mordeu bem aqui embaixo do queixo, onde a pele é fininha! Então é por isso que chamam esse filho da... de barbeiro! Agora, o jeito é esperar os tais 15 anos pra doença se manifestar. Enquanto isso eu vou é jogar bola!
Desconcentrado na partida de futebol, erra vários lances e, como é de se esperar entre os futebolistas, o time não deixa por menos e abre o bico, xingando. No final da tarde, Júlio mostra ao Chicão o inseto e conta-lhe o incidente:
– Puxa, Júlio, parece um barbeiro mesmo. Não entendo nada de insetos, mas acho que é igual ao bicho que me mostraram uma vez.
À noite, na cama, Júlio pensa na morte, esse inexorável encontro de todo homem. Conclui andarem juntas a fronteira do tempo e da eternidade. Adormece meditando o quanto é bom conhecer o termo da existência pessoal, pois torna mais fácil sopesar as valias e abrir mão dos enredos.
Terminam as férias. A família regressa novinha em folha. Júlio até tirou importância da picada do barbeiro na esperança de que as providências tomadas na ocasião teriam impedido a inoculação do trypanossoma. Comentaria o fato com a esposa na primeira oportunidade, em São Paulo. Não comentou. A desculpa foi a correria do dia-a-dia.
Um mês depois, ordenando sua gaveta no guarda-roupa, vê o maço de cigarros com o barbeiro:
– Mariana, veja isto! Que lhe parece?
– É um barbeiro, não Júlio? – Mariana rói um milho que acabara de cozinhar.
– É sim... Ele me picou nas nossas férias.
Mariana empalidece. Limpa os lábios no avental e, silenciosa, fixa o olhar no marido.
– MM... Mari, não queria estragar as férias de vocês...
– Sei, e por isso não me disse nada.
– É...
– Júlio, não precisa me esconder as notícias tristes. Tenho o direito de sabê-las.
– Desculpe, Mariana...
– Vamos levar esse inseto para uma análise clínica. Antes, vamos telefonar para o Neno nos orientar.
Telefonam, e o Dr. Nilton – Neno para os íntimos –, médico e amigo do casal desde a infância, sugere encaminhar o inseto ao Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Medicina.
Na segunda-feira, Júlio sai mais cedo de casa e, antes de ir ao trabalho, passa na Faculdade de Medicina. Na portaria, dirige-se ao balcão de informações:
– Por favor, o senhor conhece alguém especializado em insetos por aqui?
– Oh, sim, o Professor Barata, no 1º andar!
Perplexo, Júlio desanda a pensar: – “Profess... Professor Barata? O cara tá mangando de mim? Onde já se viu brincar numa hora em que a vida de um sujeito tá comprometida!”
De qualquer modo, Júlio agradece secamente e sobe ao Departamento de Epidemiologia, conformado em se virar sozinho.
“Entre sem bater”, diz a tabuleta. Empurra a porta e depara-se com várias funcionárias batendo papo:
– Por favor, senhoras, o Professor Ba... Ba... Por favor, senhoras, há alguém aqui especializado em insetos?
– Há, sim, o Professor Barata – respondem em coro.
“Nooossaaa! – pensa Júlio –, o homem existe mesmo!”
E o Professor Ba...rata estaria?
– Ainda não chegou. Se quiser pode esperá-lo.
Espera 20 minutos e impacienta-se. Muito trabalho o aguarda na empresa:
– Senhoras...
Embaladas na narrativa da chefe, nada mais ouvem. Pudera, no sábado ocorreu o último capítulo da novela! Júlio raspa a garganta e chama a atenção. Estranhada, a narradora interrompe o relato:
– Bem, tenho que ir. Posso ligar mais tarde?
– Oh, sim, aqui está o telefone dele.
– Poderiam adiantar-lhe o assunto?...
– Claaaaro! – dizem todas.
– Gostaria que ele analisasse um barbeiro que me picou.
Prestativas, aceitam o encargo e voltam à novela.
À tarde, Júlio telefona:
– Você é o moço do barbeiro?... Pode passar hoje às 16h? Traga o barbeiro!
Chega pontualmente. Acanha-se ao ser observado por todas. Envergonhado, sente-se paciente não de picada de barbeiro, mas de lepra ou algo bem contagioso. Pedem que aguarde.
Humilhado, Júlio senta e põe-se com os dedos a tamborilar um ritmo no braço da cadeira. Vê o relógio da parede, parado e fora do tempo. O vaso solitário do arquivo verde espera uma rosa vermelha para amar... – “Quem será o velho barbudo do quadro? Talvez o fundador da escola”, pensa Júlio... A cadeira range e enrubesce seu ocupante, que reclama interiormente: – “Quieta, desgraçada”.
Irrompe na sala um baixote de meia-idade, bigode desproporcional à estatura, rosto redondo, tez morena. O andar ágil não lhe tira a gravidade; e por ser daqueles que desdenham preâmbulos, vai direto ao assunto:
– Está vivo ou morto?
O susto é grande! Júlio salta da cadeira e com o olhar indaga as funcionárias se é o tal professor. Com um sorriso e cerrar de pálpebras, respondem afirmativamente.
– Po... po... por enquanto estou vivo, professor – e a saliva estanca-lhe na garganta, e se ouvem sonoros glup, glup.
– Ora, ora, não é você homem! É o bicho!
– Ufa... Tá morto – e entrega-lhe o invólucro. O maço de cigarros tá um pouco estragado, né?... Não o troquei porque pensei estar também infectado e poderia auxiliar na análise...
Absorvido pelo pequeno volume, o professor desatenta-se das razões do Júlio e entra em sintonia com sua paixão: insetos.
O mestre vai a uma das mesas locais e empurra para o canto os utensílios que a adornam. Retira duas pinças do bolso do avental e inicia um cauteloso processo de abertura do maço, pois não quer danificar o inseto. Júlio, tenso e sem piscar, observa os movimentos precisos do entomologista. Chegou o momento da sentença fatal. Seu coração martela forte; as mãos regelam-se. Na sala ouve-se apenas o ruído do papel que cede passagem às pinças, pois a presença do chefe silenciou as matraqueiras.
– Minha Nossa! – exclama o professor.
Júlio cai sentado, pronto para tudo; mete a mão no bolso e constringe o crucifixo que sempre traz consigo. Espera a triste sentença.
Outra exclamação do chefe do departamento faz as funcionárias acorrerem à exumação. O cientista se perde de vista; Júlio apenas ouve sua voz.
– Oh!... Ooooh!... Puxa! – exultam mestre e funcionárias.
Sucedem-se os “ohs” e, em cada um, morre aos poucos o impaciente paciente.
– Professor! Ôôô professor...
Ninguém dá atenção ao Júlio.
– Professor, o meu caso é grave? – grita.
Não é ouvido. O inseto reina absoluto. Júlio larga-se na cadeira e rascunha na mente um testamento para a família. Confere o nome da esposa como beneficiária da apólice de seguro, que por acaso trazia na pasta, e estuda o modo de crescer os ganhos profissionais, no pouco tempo que lhe resta de vida, para garantir a subsistência dos seus.
– Moço!
– Mama mia, o professor me chama! Sim! – salta da cadeira.
Abre-se um corredor até o mestre, por onde Júlio penetra recolocando a apólice na pasta. É alvo de olhares. O coração dá pulos tresloucados.
– Moço, isso é um autêntico akaeorrhynchus grandis, da família dos Pentatomidae [Dallas, 1891].
– “Minha Nossa, estou frito!” – pensa Júlio. – “Chegou mesmo minha hora” – suspira. Mariana e as crianças preenchem-lhe a mente, enquanto a imaginação assina o atestado de óbito. Respira fundo, cria coragem e interroga:
– Muito bem, professor, quanto tempo ainda tenho de vida?
– Ah, ah, ah – riem as funcionárias. Outra vez o moribundo indigna-se com o tão pouco caso para com a vida alheia... Talvez já estivessem habituadas a dramas desse calibre!
O professor estranha a pergunta e os risos.
– Você está com algum problema, filho?
E Júlio, cada vez mais perplexo, diz em tom respeitoso:
– Estou preparado, professor; pode dizer... O barbeiro está contaminado, não!?
– Ah, ah, ah...
– Mas será o benedito! Até o professor ri de mim?!
– Filho, este inseto é um autêntico “piolho de planta”, que se alimenta de seivas. Sua picada é inofensiva.
– Mmm... ma... mas não é um barbeiro?
– Claro que não! É de uma família muito parecida.
Júlio ri, ri, ri.
– Venha comigo ao laboratório.
O andar pressuroso do insetologista os conduz a uma sala onde as paredes estão ocupadas por prateleiras carregadas de estojos. Equilibrando-se no alto da delgada escada metálica, o mestre entrega uma caixa ao Júlio e desce de retro tateando os degraus com os pés.
– Veja, estes são os autênticos barbeiros!
Divertido, Júlio cumprimenta os insetos abanando-lhes a mão junto às têmporas e diz:
– Prazer, rapazes – e o mestre ri.
Não os saúda apertando-lhes as patinha, pois, atravessados por alfinetes como estão, desapreciariam tais formalidades. Apenas examina-os curiosamente com os olhos. Outro estojo é trazido por esse homem apaixonado pela insetologia:
– Veja, esta é a família dos “piolhos de plantas”. Me faltava nela o espécime que você trouxe!
Corrige-se o professor em tom humilde:
– Quero dizer: se você puder me dar o piolho! Poderia?...
Júlio sorri a quem parece uma acanhada criança pedindo um pirulito:
– É todo seu, professor.
– Oh, obrigado! Puxa, obrigado mesmo! Logo, as feições de felicidade dão lugar ao ar sério do catedrático em funções:
– Repare, tanto esta espécie de piolho de planta como o barbeiro têm a cabeça separada da estrutura do corpo, unida apenas por um fino pescoço. Daí porque muita gente os confunde. Na maioria dos insetos a cabeça forma uma unidade com o corpo, exceto em algumas famílias, tal como estas duas.
– É mesmo!... São bem parecidas...
Que felicidade! Tudo esclarecido! De volta ao departamento, o mestre pede dados sobre a zona rural onde fora encontrado o inseto para futuras coletas na região, que desconfia estar farta de tais preciosidades. Depois, encarece ao Júlio para enviar-lhe os insetos que encontrar por aí. Explica que os meni-
nos – refere-se aos seus alunos –, durante as práticas (aulas), danificam acidentalmente as peças (insetos). Caso os bichinhos não sirvam às preleções, se somarão à sua coleção particular com mais de cinco mil desses personagens. Um tesouro a serviço da ciência, mais útil que todo o dinheiro de gananciosos aplicadores.
Júlio se despede decidido a caçar todos os bichos do mundo, só para fazer feliz aquele bondoso velhinho. Sente-se um privilegiado: afinal, poucos conhecem uma Barata que entende de piolhos! E como entende... Ah, que bom é retornar à vida. Aperta novamente com a mão o crucifixo dentro do bolso e agradece o dom de viver. Já na rua, Júlio põe diante dos olhos o crucifixo e diz:
– Obrigado, Amigo, pelo susto e por tudo que aprendi. Até passei a me conhecer melhor, e só posso dizer: que baita covardão eu sou!
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.

