« O Desodorante »
Dona Zilá, professora decana da Escola Estadual Maria José, na Bela Vista, acaba de ler no jornal a frase ganhadora de um concurso de slogans promovido pelas Indústrias Jacó de Frangos Fritos: “Có, có ró, cócó. Frango só Do tio Jacó”.
Dobra o periódico e vai à missa dominical. O padre Domênico inicia o ato litúrgico e a professora nem percebe. Longe vai seu pensamento: “Có, có ró, cócó. Frango só do tio Jacó”. A distração dói-lhe. Arrepende-se. Principia o sermão. Termina. Dona Zilá só lembra do “có, có ró, cócó...” Esforça-se por recordar algo da homilia, mas nada ficou. Nadinha mesmo. Triste, contrita, vai para casa certa de ter avoado feito uma colegial. Reitera o pedido de perdão ao Pai Eterno.
– Adalberto, o almoço está na mesa. Venha.
O marido vem:
– Mmm... mmm... mas Zizi, você sabe que não suporto frango, ainda mais frito! Puxa vida...
Conclui, então, a professora:
– Madona, que força tem a propaganda!
Impressionada com o fato, entra em classe na segunda--feira, dizendo:
– Meninos, quero testar a criatividade de vocês! Cada um, junto com o colega ao lado, deve formar uma frase bonita anunciando um produto... por exemplo, desodorante! Sim, de-so-do--ran-te! Ótimo, podem começar.
O zum-zum-zum da garotada ecoa no segundo pavimento da velha escola. Os parceiros de carteira tentam criar o palavreado que mais agrade à mestra, o que redundará em nota dez para cada membro da dupla vencedora.
Zégas e Feijoada, no fundo da classe, concluem o dito antes dos outros e põem-se a rir, à espera de que os demais finalizem a tarefa.
Decorrido o tempo necessário, dona Zilá diz:
– Muito bem, meninos, vamos às frases!
Feijoada cochicha com o Zé:
– Quer ver só como a fessora vai começar pelos queridinhos dela?
– Robertinho Alexandre e Rodrigo Augusto, falem vocês.
– Está bem, dona Zilá, a frase é esta:
“Mademoiselle, a fragrância de um campo em flor é o aroma do seu odor”
– Oh, bravo, doçuras! – responde a professora. Agora é a vez de vocês, Rubinho, meu amor, e Julinho Alexandre!
– Certo, dona Zilá. Lá vai:
“Passe e enleve! Olimpus: o perfume dos deuses para o buquê de uma deusa”.
– Oh, lindo, lindo, meninos!
A frase dos irmãos Marcelinho e Fabinho, donos do melhor lanche da turma – salame, presunto gordo, rosbife –, saboreado apenas quando o Feijoada encontra-se sem apetite, arrancou da professora expressões grudentas: gracinhas, amorecos... O slogan deles foi: “Nos corações ficará seu traço: passe e arraste com Gardênia Laço”. Ai, que fresquinhos. Brrr.
No fundo da classe, o Zégas e o Feijoada se esforçam para não dar gargalhadas. Cochicham:
– Cada frase fresca, né, Zé?
– Si é... É muita maricagem mesmo.
De dupla em dupla a professora esquadrinha a turma. Expressões melosas, adocicadas lambuzam a sala. Palavras como “néctar”, “aroma”, “essência”, “suavidade” e “suspiros” espirram aos borbotões.
Por fim, a vez dos dois pirralhos lá do fundão:
– Senhor José Larleto e senhor Francisco Feijó, digam a frase de vocês. Andem logo.
– Tá bem, fessora – diz Feijoada.
Em uníssono declamam:
– Fedobom, o desodorante que desfedora o fedor do seu sovaco.
A classe explode em gargalhadas e em coro brada:
– Nota dez... nota dez... nota dez – entremeando as aclamações com três sonoras palmadas.
Desconcertada, dona Zilá vacila entre um gordo zero e a conclamada nota. Pressionada pela corja delirante, não tem como evitar o dez. Esperta, encontra estupenda saída para dar e não dar essa nota, já que pretendia mesmo era socar um polpudo zero em cada um:
– Muito bem, meninos, uma nota dez, mas para os dois juntos! Ou seja: cinco para cada um!
– Aaaah, fessora, assim não vale... – protestam os “vencedores”.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009, e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura).

