« Contar estrelas? »
Ora, ora, contar estrelas para o Zégas é muito pouco! O que ele quer é dar nome a cada uma delas. Acampado com a família no Parque Nacional do Itatiaia, desentoca-se de sua barraca e ajeita o saco de dormir na grama miúda, que se despede de se embriagar com o sereno da noite em doces libações.
Emborcado em seu envelope de gorda espuma, o garoto se põe a fitar o firmamento em noite sem luar e numa explosão incontida diante da esplendorosa e soberba Via Láctea, nosso lar galático, exclama:
-Minha nossa!, que coisa mais linda! Nunca vi um céu assim no Bixiga! Parece a cristaleira da minha mãe quando o sol penetra nela!
Abestalhado com o impressionante fundo negro cravado de infinitos brilhantes, esmeraldas e rubis, o garoto emudece com cara de embasbacado. Despreocupado de pressa contempla o vitral de imensa beleza. Naquele horto sagrado sua alma entra em êxtase. O Zé não encontra palavras para descrever o que tem diante de si, pois a pobre criatura humana quando se assoma para além dos sentidos e penetra na esfera do espírito, experimenta a angustia de ser muda. Conclui, então, o garoto que as palavras foram feitas apenas para as coisas miúdas do dia a dia e intui que os caminhos da beleza são místicos.
Braços metidos no acolchoado e dedo indicador de fora com o qual aponta cada estrela, diz em voz surda para não acordar ninguém:
-Vou contar as estrelas! Contar estrelas? Não, darei nomes a elas: Margarida, Rosa, Cravo, Petúnia, Antúrio, Maria-sem-vergonha... Zínea... Puxa, como sou burro; devia conhecer mais flores.
Muda a página do seu dicionário mental:
- Já sei, darei nomes de pedras preciosas a elas! Aquela grandona é a Diamante; a outra, Cristal. Ah, ali está a Esmeralda, a Ouro, Prata, Ferro, Zinco... Puxa, não conheço muitas pedras nem metais; vão me faltar nomes. Então aquela é a Linda; a outra, a Bela, Formosa, Bonita, Marinez... Marinez? Xi, estou pensando nela outra vez. Mas que nome dar às estrelas? Misteriosa, Profunda, Silenciosa, Muda, Enigmática... Brrr, esses nomes me dão medo.
O Zé faz silêncio e sua alma vai até Deus:
-Deus, que nome darei a cada estrela? Fria, Distante, Indiferente? Pastora da Noite, Guardiã, Zeladora? Terna, Meiga, Ingrata, Pérfida? São as palavras melosas que o Augusto vive escrevendo em seus poemas e que me obriga a ler.
Silêncio.
-Puxa, como é difícil dar nome às estrelas.
Para complicar a tarefa o Zé lembrou que o professor de física disse que há milhões, zilhões, de estrelas. Então, se sente um ínfimo grão de poeira à toa no Universo, e conclui:
-Puxa, se há infinitas estrelas e planetas, não bastariam os dicionários de todas as línguas da terra para dar nome a cada uma delas! Vou desistir disso.
Nesse momento um grilo pousa no nariz do Zégas e ambos se encaram. Diz o garoto ao grilo:
-Meu chapa, sabia que Deus criou todo esse universo e também criou você e milhares de outros insetos? Nem desconfiava? Como você é burro, meu. E não criou só vocês, mas também as árvores aqui do parque, os pardais e os tico-ticos que agora dormem. Sei que os passarinhos almoçam os grilos e imagino que você não vai com a cara deles. Mas fique sabendo que as aves esparramam as sementes das plantas por aí quando fazem cocô, e com isso produzem alimentos para a sua laia. Se não fossem eles vocês,grilos, estariam fritos. Caramba, eu também não teria frutas! Seu grilo, reparou como a gente precisa um do outro na criação? Nunca havia pensado que Deus fez a gente se precisar tanto assim um do outro. Mas será que eu preciso dessa sua cara de bocó? Como é que você me completa, me ajuda? Tá mexendo as patinhas da frente e as antenas pra me dizer alguma coisa? Já sei, já sei: os grilos alimentam os pássaros e dão uma mãozinha para levar o pólen que fecunda as flores, e estas dão as frutas, verduras e legumes que alimentam homens e animais, certo? Está bem, me convenci de que preciso dos grilos, e que estaria ferrado sem vocês! Muito obrigado mesmo, seu grilo.
Mas, se as estrelas que sinalizam as rotas do mar parecem inertes faróis, o Zégas as contempla cheias de vida e encantamento. E nesse silêncio profundo, nessa beatitude de gozo contemplativo, a beleza o faz se desprender do tempo e não percebe o passar das horas. E assim, mergulha em profundo sono e sonha que Deus vem chamá-lo:
-Oi, José, boa noite! Vamos dar um giro por esse céu?
-Oba, legal! Vamos, sim, Deus!
Convidado a se enfiar na bolsa marsupial do manto divino, o garoto parte com Deus pelo Universo afora. Na verdade não percebe que Deus não necessita voar, pois está presente em todos os lugares; e que ele, o Zégas, é quem voa como um cãozinho na janela de um carro, cabeça ao vento, que vai feliz com o vento que lhe enche as ventas.
Passam próximo à lua e vêm já gastas as marcas das botas dos astronautas. O Zé repara que a lua é o satélite da Terra, mas não percebe ser ela o maior satélite do nosso sistema solar. Passam por Mercúrio, o menor dos planetas interiores e o mais próximo ao sol. Ah, o sol, ali está ele! O Zégas emudece ao ver a esfera ardente de hidrogênio e gases, a 150 milhões de quilômetros da Terra, fonte de calor e luz da nossa galáxia, cuspindo violentas labaredas, em meio a explosões atômicas. Seguem em direção ao vulcânico e infernal Venus, a estrela da manhã e da tarde. Desviam-se de Marte, o planeta vermelho, menor que a Terra, cheio de cavidades e acidentes geológicos que põe medo ao Zé.
Indo de um lugar para outro cruzam com milhares de asteróides errantes que patrulham o espaço -alguns com mais de vinte quilômetros de extensão!-, e o Zégas se emborca dentro do manto divino temeroso de que lhe acertem a cabeça. Deus diz:
-Não tenha medo; não acertarão você. Veja ali os asteróides Eros, Mathilde, Ida, Dáctil, Vesta...
Que fina danada tira Deus dos fugazes e inesperados visitantes alcunhados de cometas!
Ual, que legal! O Senhor tirou a maior fina deles!
Deus ri e leva o Zégas para conhecer os gigantes planetas ubicados no sistema solar externo. Mundo coberto de nuvens e açoitado por tormentas: Júpiter, o mais próximo e o maior dos gigantes gasosos, rodeado de um mini-sistema de luas, tempestuoso e com manchas vermelhas; Saturno, a jóia do sistema solar, o sexto planeta a partir do sol, com seus espetaculares anéis onde Deus e o Zégas brincam de skate e deslizam em alta velocidade, empurrados por ventos de 500 metros por segundos. Em manobra magistral saltam até Titã, a lua gigante de Saturno, satélite complexo, misterioso e ornado de densa e opaca atmosfera alaranjada, mundo oculto de rios, lagos e vulcões. Urano com suas luas é deixado ao largo. Aterrizam em Netuno, azul e brilhante, com um diâmetro equatorial de 49.500 km em cujo bojo caberiam 60 planetas terras, e que marca o limite do reino dos gigantes, sendo o introdutor das regiões mais distantes do sistema solar.
O Zégas repara que os vazios entre as estrelas estão ocupados por uma mescla de moléculas de gases e partículas de pó que formam o armazém da nossa Galáxia e gera novas estelas.
-Ual, as nebulosoas!
-Sim José! Nebulosa da Águia, da Rosetta, da Lagoa, Trífica, do Cisne...
A Via Láctea está plena de estrelas que brilham em seus fornos nucleares com cores e tamanho distintos: vermelho escuro, tons de marrons, azuis violáceos; brilho e cor que variam com a distância e temperatura, e irradiam energia ultravioleta e infravermelha, invisíveis aos olhos do Zé, mas que Deus lhe permite apreciá-las. O Zé reparou que as estrelas ficam a distância inconcebível da terra.
-Veja, José, aquelas estrelas novas! Sofrem os transtornos do crescimento e estão propensas aos excessos de fúria e atrevimento dos jovens. São impetuosas e expulsam matéria para todos os lados. As estrelas nascem em escala de tempo inconcebível aos seres humanos.
-Nooossaaa, Deus, é mesmo?
-É... Em alguns milhões de anos, uma vez iniciado o processo, as sementes que ocupam o espaço interestelar se comprimem até se converterem em estrelas.
-Caramba, Deus!
-José, vamos dar uma voltinha por outras galáxias!
-Outras, Deus?
-Sim, José, a Via Láctea não está só no universo. Há tantas galáxias quanto estrelas na Via Láctea. Vamos até a Galáxia Andrômeda, depois até a Barnard, Silverado...
E então passam por Plutão, o planeta mais longe do sol, e vão se distanciando da bela Via Láctea. O Zé envia beijos à nossa galáxia, que vai ficando para trás como um fino disco de bulbo ovóide e núcleo no centro, e com enormes nuvens e estrelas que a dominam até seu centro, onde mal se vê a Terra. Diz o Zé:
- Deus, como a Terra é pequenininha! A gente quase nem consegue mais enxergar ela daqui! Caramba, se ela é tão pequenininha, o que é o homem dentro dela? O Senhor não poderia ter escolhido um planeta maior pra gente morar? Veja aquele grandão ali!
- José, a grandiosidade dos homens não está na dimensão das coisas externas, mas na semelhança que têm Comigo. A Terra não precisa ser maior do que é; está na medida certa.
- Xi, Deus, não entendi.
- Oh, Eu mesmo –já que não preciso dizer: Oh, Deus. Vocês homens por vezes são uns cabeças duras! O espírito inteligente e livre de vocês é uma chispa do Meu entendimento. Além disso, Eu adotei vocês, que agora são meus filhos. A Terra não é o vosso lar definitivo.
O Zégas medita de boca aberta no que acabara de ouvir, até que chegam a mundos imensos, estranhos e bem diferentes do nosso sistema solar. Cruzam por nebulosas planetárias, estrelas supergigantes que brilham intensamente e estrelas novas, que em dores de parto que passam ocultas aos olhos dos homens, começam a como vida bebês em obscuros rincões da galáxia. O Zé vê a Galáxia Andrômeda, a dois milhões de anos luz da Terra, e num relance pode observar que há bilhões de outras galáxias.
No caminho, cruzam com supernovas.
- Deus, o que é aquilo ali?
-O que? Ah, aquilo! Quando estrelas massivas chegam a pesar oito vezes o tamanho do sol, terminam a sua vida com um último grito de glória a Mim e explodem numa efusão de brilho maior que a galáxia inteira; essas explosões semeiam o Universo de elementos pesados que formam novas gerações de estrelas ou as supernovas que você está vendo. As galáxias, José, estão em constante fluxo e refluxo, vão e voltam à forma anterior ao longo de milhões de anos; evoluem e envelhecem.
-Caramba, Deus, como foi que o Senhor criou tudo isso?
-Ora de um jeito, ora de outro... José, vamos voltar. Ao amanhecer sua família irá subir o Pico das Agulhas Negras e você precisa dormir e descansar para a essa empreitada.
No regresso, ambos vêm papeando descontraidamente:
-Deus, os homens conseguem explicar como tudo isso se formou?
- Fazem conjecturas, mas entre o ser e o não ser há um espaço infinito que criatura alguma jamais conseguirá ultrapassar para dar razão à sua existência e explicar a existência das demais coisas!
-Nossa, Deus, não entendi nada!.. O Pe. Domenico disse que os homens acreditam mais no acaso do que no Senhor. Somos burros demais, não, Deus?
- Eu quis correr o risco da liberdade de vocês...
- Sabe, Deus, o Padre Domenico também falou num sermão da Missa que a gente acreditaria mais facilmente na história maluca onde fortes ventos e chuvas teriam feito rolar do alto de uma montanha uma grande pedra que, batendo aqui e ali, se esfacelou em centenas de lascas e no atrito de umas com as outras se transformarem em arruelas, pinos, molas e pequenas engrenagens. Por fim, e por acaso, essas peças se juntaram na base da montanha e formaram um belo relógio de pulso. A molecada riu pra chuchu quando ouviu essa história. Legal o exemplo, né, Deus?
- É uma boa imagem, José. Um filho meu, camponês na Inglaterra, ao ouvir um filósofo ateu afirmar em sua palestra que o mundo era obra do acaso, contou essa história e saiu da sala.
-Deus, se os cientistas vissem numa ilha desabitada uma casa com violão na varanda, pensariam que aquilo seria obra do acaso?
Deus ri com o comentário do Zé e silencioso se põe a olhar distantes mundos, talvez o do coração dos homens. Depois diz:
- A razão humana por vezes como cega usurpadora se esquece sua condição de criatura e se julga onipotente, e não reconhece o artífice dela mesma. Mas, já disse, prefiro correr o risco da liberdade humana.
O Zé navegou. Não entendeu nada e achou razoável não compreender o que dizia aquela inteligência infinita. Então, mudou de conversa:
Deus, deixa eu criar umas estrelas?
-Só eu crio; vocês apenas transformam...
-O Senhor continua criando coisas?
-Sim, crio a alma de cada mulher e de cada homem que nascem...
- Deus, é aquela história do ovo e da galinha: quem nasceu primeiro?
-Tanto faz. O importante não é saber quem nasceu primeiro, mas quem Eu criei primeiro, já que nem um, nem outro foram causa de si mesmos. Dei o primeiro movimento e dei tudo o mais foi apenas sucessão.
-Deus, se os cientistas estudarem de verde uma galinha descobrirão que foi o Senhor que criou tudo?
-Se estudassem a criação com a verdade e não com a vaidade, descobririam não apenas a origem dos seres, mas também a finalidade deles e da vida dos homens...
-Meu professor de física disse que a ciência vai desbancar o Senhor! É verdade isso?
Deus ri gostosamente e diz:
- Bobagem, José. A ciência assentada na verdade não chega a conclusões contrárias à fé; e a ciência apoiada em bases falsas se destrói a si mesma, não sem antes causar muitos estragos...
Deus conclui:
- E como não me contradigo, tanto a ciência como a fé conduzirão os meus filhos a Mim.
- Mas Deus, meu professor nunca diz que foi o Senhor que criou tudo isso!
- Eu sei, José... Por isso os homens chegam ao absurdo de afirmar que o nada criou o ser, que do caos veio a ordem, que da matéria bruta se originou o espírito do homem. A razão humana fechada em si mesma conduz a existência para um sem-sentido. Se revelo verdades acima da natureza criada -por isso se chamam sobrenaturais ou sobre o natural-, é porque a pequenina mente humana jamais atingiria a compreensão do que Sou e como fiz. José, se Eu coubesse na cabeça dos homens não seria Infinito. Continuarei a iluminar vocês para concluírem que se há beleza nas minhas obras é porque existe uma Beleza suprema que as originou; que se há inteligência nas leis das criaturas –leis que os homens não criaram, mas apenas descobrem–, é porque uma Inteligência suprema as estabeleceu. Como disse, a ciência é minha aliada...
O Zé está de boca aberta, e de nariz escorrendo. Funga, lixa o nariz co o braço e diz:
-Olha, Deus, não entendi tudo isso que o Senhor disse.
-Nem que do nada não pode surgir algo? Ou que uma coisa não pode criar algo diferente dela mesma?
- Bem, isso entendi: uma pedra não cria vida; um cachorro não cria um ser com inteligência.
-É isso mesmo, José.
Acabam de entrar na nossa Galáxia...
-Deus, tudo isso que o Senhor criou vai durar pra sempre?
-Não durará, José. Os homens até descobriram que o mundo vem se desgastando...
-É mesmo, Deus, meu professor de física já disse isso!
-Pois, é, José, mas ele não concluiu o óbvio: se o mundo vem se desgastando eternamente, já não poderia continuar a existir.
- Deus, essa também não entendi!
-Oh, José, você está tão falto de ideias quanto aos doze Apóstolos logo que o meu Filho os juntou para segui-Lo. José, como pode algo ainda existir se eternamente vem se desgastando? Se não é eterno, então é criado; se criado, Alguém o criou.
-Essa é muito boa, Deus!
-Vê, até as crianças percebem isso...
-Caramba, Deus, como o Senhor é inteligente e tira umas conclusões espetaculares!
-José, não desanime com o que vou dizer, mas o mundo e tudo o que há nele ficará obsoleto.
-Que quer dizer absoleto, Deus.
-Obsoleto é sem utilidade.
-O que? Cidades, prédios, máquinas e aviões ficarão sem utilidade?
-Sim, José, só restará o amor com o qual medirei os corações dos homens e retirarei o meu último filho deste seu mundo. O resto para nada servirá. A ciência, que tanto ilude os homens, envelhecerá e perderá sua utilidade.
O Zé não entendeu bem o que Deus quis dizer, mas baba de estupefação.
-José!
O Zé, ainda absorto, imagina um mundo de prédios abandonados, carros sem motoristas...
-José!
- Ah, me desculpe. Fala, Deus.
-Sabia que eu criei também milhões, bilhões e quinquilhões de anjos, e que cada um deles esgota sua espécie e tem natureza única, singular, só dele?
- Ai, ai, Deus, de novo não entendi...
- Zé, se a pedra é diferente da planta, e a planta de um macaco, porque são de naturezas diferentes, mais são os anjos entre si.
- Verdade, Deus?
-Claro, Eu nunca minto!
- Mas, Deus, nós os homens também não somos diferentes uns dos outros?
Deus ri e diz:
-A natureza de vocês é a mesma, concretizada em cada pessoa com diferente alma, temperamento, gostos, habilidades. Mas só há uma natureza: a humana, que une matéria e espírito. Mas aos anjos criei cada um com natureza única, diferente da do outro. Poderia ter criado cada homem com uma única e diferente natureza: um poderia voar, outro respirar debaixo da água sem equipamento, outro atravessaria sólidos, outro andaria sobre a água e outro tocaria no fogo sem se queimar. Entendeu?
- Caramba, Deus, como o Senhor consegueria fazer isso?
- É por isso que me chamo Deus
- E porque o Senhor quis criar os anjos e os homens?
- Quis brincar um pouco... Nada disso, foi para partilhar a minha felicidade com vocês.
- Olha, Deus, eu não sou filósofo. A coisa tá ficando complicada. Quando eu crescer o Senhor me explicará isso novamente. Combinado?
-Está bem, José.
- Mas gostaria só de saber se o Senhor poderia criar mais coisas ainda, sem repetir nenhuma delas.
-Infinitas, se quisesse!
- Nossa, Deus, como o Senhor pode fazer isso?
-Pois é, meu garoto, já disse que é por isso é que me chamo Deus... Bem, chegamos. Durma um pouco para enfrentar com disposição a empreitada do Pico das Agulhas Negras.
- O Senhor não quer ir com a gente lá no pico?
-Claro que irei! Eu estou sempre ao lado de vocês. Durma bem, garoto.
-Bem, obrigado por me trazer de volta esta querida Terra.
-De nada, José. Este também é o meu planeta preferido. Minhas alegrias são estar com os filhos dos homens.
- Como o Senhor pode dar tanta importância a nós, que moramos nessa minúscula casinha de poeira do Universo?
- Vocês têm algo de Mim! Das criaturas deste mundo visível apenas os homens podem amar como Eu.
Deus se entristece um pouco e o Zé pergunta:
-Por que o Senhor ficou triste?
- Ah, José, meu Zezinho, se os homens não Me amarem não saberão amar a si próprios, nem aos seus irmãos. Esta é a razão de que haja tanto sofrimento entre vocês.
-Deus, as vezes a gente pensa que se o Senhor existisse não haveria tanto sofrimento no mundo.
- Sei que pensam assim. Mas quem trouxe o sofrimento não fui Eu, mas vocês, pelo mau uso da liberdade. Faço da dor a minha aliada; ela faz os homens se desapegarem das criaturas e se lembrarem de que Eu sou a verdadeira felicidade... Tiro do mal um bem maior.
- Mas, Deus, se o Senhor sabia que os homens usariam o mal a liberdade, e se perderiam por isso, porque permitiu que agissem mal?
Depois dessa indagação o Zégas ficou com panca de sabido; julgou que Deus não teria resposta:
- José, repito que quis correr o risco da liberdade humana. Prefiro que poucos me amem livremente do que criar seres autômatos que não possam usar de sua liberdade. Dei a cada homem dias contados e tempo determinado, e não é porque uns desejam ser infelizes que outros não possam ser felizes.
- Pensei que a minha pergunta ia ficar sem resposta. Quando ficar mais velho entenderei tudo isso que o Senhor acabou de dizer.
-José, Eu sempre tenho respostas para todas as dúvidas dos homens; basta que haja a humildade de aceitar a verdade. Quanto a ficar mais velho para compreender o que digo, não se engane, pois a idade não trás a sabedoria... Se assim fosse todos os velhos seriam sábios e prudentes, coisa que não ocorre. Medite nas minhas palavras e viva as minhas leis que você será sábio sendo jovem.
Deus deixou que o Zé tivesse uns momentos consigo mesmo para tirar conclusões. Depois disse:
- José, boa noite e durma com o Anjo da Guarda que coloquei para proteger você.
-Ah, o Anjo Tião? Converso muito com ele, e zzzzz...
A noite enlaça o dia e surge a aurora. Júlio e Mariana saem da barraca do casal e notam que na tenda das meninas ainda não há sinal de vida, e que na dos meninos um deles vazou e dorme fora em plácido sorriso. Mal sabem os pais que o pirralho ali emborcado no saco de dormir curtira a maior balada madrugada afora, e com que Parceiro de farra! Saberão da zoada noite afora, mas não dos detalhes dos diálogos, porque ao Zé ocorre o fenômeno de sonhar coisas tão reais como ouvir versos inteiros em inglês das melodias que aprecia, mas ao acordar não consegue repeti-los por não saber patavina desse idioma. Fica-lhe apenas um vago e doce sentimento da música amada. Da balada noturna ficará nele a suave lembrança de que Deus é um Paizão, e de que ele, Zégas, pode ser mais sábio do que os velhos.
Copyright©Ariovaldo Esteves Roggerio. Conto registrado na Biblioteca Nacional, e disponível no site www.familiaemcontos.com.br.

