« Ataque cardíaco »
No intervalo de aulas do Grupo Escolar Maria José, o Zégas e seu primo Aristeu mantém entretida conversa com o nissei Tiba, amigo de ambo. O papo deriva para os encargos que os dois primos têm em suas casas, o que lhes amofina a paz. Então Tiba lhes passa sua infalível receita para se livrar do que lhe causa ansiedades e preocupações:
- Olha, caras, quando a minha mãe ou a minha irmã me pedem para fazer algum trabalho em casa, simulo um ataque cardíaco.
- Ataque do que? –pergunta Aristeu.
- Cardíaco –do coração–, seu burro. Ele é assim...
Tiba esganiça o pescoço, arregala os olhos, morde o lábio superior, joga adiante sua queixada e se põe a agitar desesperadamente as mãos junto às têmporas. Zégas e Aristeu se impactam com o repentino ar agonizante do amigo, mas se encantam com o bendito remédio que lhes livrará das aporrinhadas tarefas caseiras.
Alguns dias se passam até que chega o aguardado feriado do mês. Dona Maria, avó do Zégas e do Aristeu, veio ajudar a filha Mariana nas tarefas do lar, e acabara de lavar e torcer roupas e tecidos da casa, entupindo com elas uma bojuda bacia de alumínio. Em seguida, a avó se dirige aos varais do quintal com a enorme bacia nos braços. Porém, ali no lajeado que antecede a parte de terra do quintal, seus dois netos, numa existência vagabunda, têm as pernas e braços esparramados apachorradamente no chão, feitos dois crucificados sem cruz. Ao ver Dona Maria se aproximar, o Zégas –cuja preguiça sufocara a vontade– cessa de contemplar as nuvens e interrompe os argumentos que tencionam dissuadir o primo a evitar o esforço de empinar pipas para continuar a aproveitar a gostosa manhã tal como estão, diz:
- Xi, Aristeu, a vovó vem vindo com um monte de roupas para estender nos varais; ela vai pedir pra gente ajudar...
- Xiii, Zé, isso vai dar um baita trabalho. Ei, vamos fazer um ataque cardíaco pra vó não pedir nada pra gente?!
- Cara, grande ideia!
Então os dois moleques, que permanecem no chão, esganiçam o pescoço e envergam o corpo, apoiado-o com a cabeça e os calcanhares no solo. Em seguida, mordem os lábios, lançam adiante o queixo, e agitam desesperadamente as mãos junto às têmporas, enquanto dizem sufocada e entrecortadamente para não deixar dúvidas:
- É.. ataque...cardíaco, vó; ataque car-dí-a-co, vó.
Mas a avó, que de boba não tem nada, não titubeia e pisa no pescoço do Aristeu e descarrega a pesada bacia na cabeça do Zégas, enquanto diz:
- Seus coronéis, vão molestar vossas mães! –a mãe do Aristeu, Mercedes, é irmã da Mariana, mãe do Zégas.
Prontamente os garotos se levantam, um com a mão no pescoço e outro coçando o galo da cabeça, e saem de fininha a reclamar e quase a chorar:
- Puxa, vó, a gente tava com ataque cardíaco!
- Venham aqui, seus coronéis, que vou curar vocês. Não fujam, não. Abaixem os paus do varal e me ajudem a estender os lençóis e as roupas.
Copyright©Ariovaldo Esteves Roggerio. Conto registrado na Biblioteca Nacional, e disponível no site www.familiaemcontos.com.br.
Ariovaldo Esteves

