« É proibido fumar »
O Zégas entra no ônibus e cansado de bater pernas a para o Magazine, se desmancha sobre o estofado de um dos acentos estofados. Almeja paz e serenidade no percurso de regresso à empresa, mas pressente confusão ao ver que um tipo de cuca fresca acende o cigarro dentro do ônibus. Em baforadas profundas, o que pita o estoura peito aprecia a viagem pela janela quando um zeloso passageiro, diante de tamanha insubordinação legal, diz:
- É proibido fumar no ônibus. Apague o cigarro.
- Não apago.
Então o zeloso vai até o motorista, e se ouve a voz do fumante:
- É proibido falar com o motorista.
- Em caso de urgência a lei permite.
- Não há urgência neste caso.
Então, alguns passageiros decidem apoiar o do cigarro e vários pitos são acesos. Ao olhar para trás, o reclamante se irrita com o desaforo e ordena ao motorista:
- Pare o ônibus junto àquele policial.
- Ali não é permitido parar, diz o que primeiro acendeu o cigarro.
O motorista teme ser espancado e cumpre o mandato ao estacionar junto à placa de proibido.
O reclamante desce à calçada e se põe a parlamentar e a gesticular com o policial, e retorna ao ônibus acompanhado deste.
Ao entrar, ninguém fuma: um lê o jornal, aquele aprecia distraidamente a rua, e outro finge dormir... Indagados sobre o fumo, o silêncio é absoluto. Alguns passageiros torcem o queixo e fazem bico com os lábios a modo de "Este cara está louco?". Então, o fiscal de fumantes diz ao seu desafeto:
- Fume agora, vamos!
- Não estou com vontade.
Sem provas, o policial diz:
- Meu caro senhor, não posso dar flagrante e não há corpo de delito (as bitucas jazem na calçada). Não há como dar voz de prisão.
Então, a autoridade desce e o ônibus parte.
Não mais incomodado, o zeloso volta à sua poltrona e o motorista segue viagem. Mais adiante, o farol vermelho obriga o ônibus a parar e, pela janela , o não mais incomodado pelo fumo vê algumas crianças a lavar pára-brisas, outras pedir esmolas e, mais ao lado, vê que duas delas fumam algo que intui ser crack, pois nota um pequeno cachimbo na boca de uma delas. Mas como tudo aquilo não o afeta diretamente -por enquanto-, não se sente indignado e segue de consciência tranquila e orgulhosa de si.
Copyright©Ariovaldo Esteves Roggerio. Conto registrado na Biblioteca Nacional sob nº 1304/11, e disponível no site www.familiaemcontos.com.br.

