« O beijo »
É sábado. Cai a tarde. Júlio lê o jornal na sala e fica feliz com a notícia de que ainda está em cartaz na Avenida Paulista, o filme que não assistira com a esposa na semana anterior. Seus olhos brilham e espanta do rosto seu pesaroso ar de culpa por não ter ainda pensado no modo de fazer a esposa descansar da dura semana de trabalhos no lar. Dobra o jornal e vai mansamente à cozinha. Mariana, de costas, segue entretida a derramar na forma a perfumada massa do bolo para o lanche da tarde. Dada a rara ausência de filhos na casa –apenas o pequeno Thiago dorme no berço– Júlio aproveita o momento e, silencioso, abraça a esposa por trás, vira o rosto dela e lhe dá um demorado beijo nos lábios, comportamento que nunca tem diante dos filhos. Mariana, de olhos fechados, abandona na tigela a colher de pau com que escorre a massa, e diz:
-A que se deve tão repentina efusão de amor?
Júlio finca o joelho direito no chão e diz:
-Oh, amada minha, este cavaleiro apaixonado salta de seu corcel para revelar os desejos de um coração lancinado de amor.
-Que desejos alberga o valoroso coração do meu belo e intrépido cavaleiro?
-Este cativo servo de uns olhos negros anseia levar sua amada a um bom filme no sobranceiro espigão que pouco dista deste castelo. E depois, tendo já a lua rompido no escuro firmamento, tenciona conduzí-la à Taberna do Júlio para, à luz tíbia e suave música, jantar com ela uma boa massa regada a duas taças de vinho. E, adentrada noite, conduzirei a mais adorável das mulheres em meu corcel de branco encandeado pelo luar e de arreios de prata, para introduzí-la na câmara ardente do quarto onde repousa o santuário do nosso leito de alfombras matizadas de mil cores e de ouro bordadas, para ter com ela a mais amável noite de amor, que findará no romper da doce e ridente aurora e ao canto de mil pássaros.
Mariana diante do inesperado convite completa a cena:
-Oh, embevecida com tais requebros, que muito me quadram, anseio por tudo no mundo a que se realizem os benfazejos desejos albergados no valoroso peito do meu senhor. Oh, oh, a comoção toma posse de minh'alma e esvaem-se as forças que restam deste desvairado coração que pulsa em fibrilantes e doidos latejos. Vou desfalecer em delírios de felicidade! Mas antes, selo com esta colher de pau o meu aceite aos sublimes convites do amado de minh’alma; alma de onde afloram doces sentimentos que desterram para longe os cansaços do servir.
Mariana toca o nariz do marido com a colher besuntada da perfumada massa de bolo, e cai suavemente sobre os braços do marido, ainda ajoelhado e em postura de reverência, que a acolhe e apoia-a em sua perna dobrada, e diz:
-Oh, amada minha, recosta-se sobre meu valoroso braço, e nele encontre remédio suas dores. Vendo esta bela e adormecida face e estes negros cabelos esparramados sobre meu corpo, olho para o céu e agradeço ao Deus de nossoas almas por me confiar tão grande fortuna. Lágrimas vertem meus olhos e de meus lábios trêmulos de emoção receba a força de um encantado e ardente beijo, que a trará dos distantes mundos que a escondem, pois és minha e só ao meu lado deves estar.
Júlio dá outro profundo beijo nos lábios da esposa, e tinge de massa branca o rosto dela.
Neste tão sublime momento adentra na cozinha a Margarida, que brincava na casa da Aninha. Ao ver o pai de costas, ajoelhado, e tendo nos braços a desfalecida mãe, grita em sobressalto:
-Pai, o que aconteceu com a mãe?!
Júlio quase rindo responde:
-Oh, Princesa Margarida, herdeira deste condado, saiba que desfaleceu de amor, nos intrépidos braços deste cavaleiro andante, a mais amável das mulheres que este mundo alberga. Venha, doce infanta, e prepare as demais princesas desta casa para cuidarem do pequenino principe cujos icônicos sons se fazem ouvir de seu berço lavrado em ouro, pois partirei com esta adorável senhora e apenas retornarei quando as virgens infantas desta casa já estiverem em sono desfalecidas.
O tom jocoso do pai faz a filha se descontrair. Em comichões de curiosidade, Margarida aproxima seus olhos do rosto da mãe e esta, devagarinho, descerra uma das pálpebras e mira divertida o curioso modo com que a filha a perscruta. Então, não se contendo, Mariana explode em risos. A filha resolve participar da brincadeira e se lança sobre os pais, mas o valoroso cavaleiro não tem pernas tão fortes quanto os braços e, rindo, tomba de lado com as duas damas. Em meio à chiadeira de risos, chegam do supermercado a Ciça, Janaína e Glorinha –outras filhas do casal–, que surpresas com o pai, a mãe e a irmã esparramados no chão da cozinha, não se aguentam de curiosidade e se lançam sobre eles suplicantes:
-Pai, mãe, contem pra gente o que aconteceu? Andem, contem, logo, vamos!
Terão que aguardar um tempo que se fará longo para saber do ocorrido, pois agonizantes de curiosidades, insistem em saber a razão da algazarra, o que provoca mais risos dos pais e da Margarida.
Copyright©Ariovaldo Esteves Roggerio. Conto registrado na Biblioteca Nacional, e disponível no site www.familiaemcontos.com.br.


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