« O papagaio endoideceu »
O loro endoideceu. O desgraçado insubordinou-se. E bem na semana que Mariana carece de silêncio para repassar a sua tese de mestrado, já próxima da defesa. Não bastasse o farto léxico com os ditos habituais da casa, o safado do papagaio captou no ar os impropérios catapultados do campinho de futebol da vizinhança.
A semana principia com a ardida ladainha “o loro qué café; o loro qué café”, somada à sua maior mania: “dá o pé loro; dá o pé loro”. A tais reinações, o galhofeiro deu de imitar choro de bebe, obrigando Mariana a disparar infinitas vezes ao berço do Thiago.
Até os vira-latas da casa são vítimas do papagaio! Ao som de latidos inimigos, zarpam aos berros até o portão com ânsias de impor autoridade no território ao qual se julgam reis, mas nada de cães salafrários. Dão-se conta de que o papagaio os imita a ladrar, pondo em risco o título de guardiões da casa, com o qual ganham o merecido pão de cada dia pelo único serviço útil que prestam. Os dois cachorros se plantam embaixo da gaiola ansiando que o empenado esmeraldino despenque do poleiro para receber a justa paga pelo arremedo debochado.
Já o Tonico e a Glorinha, desconsertados com o loro que os imita o tempo todo – “paiê”, “manhê”–, levaram um pito danado para “não torrarem a paciência com manhas e chateações”.
A ave vai longe demais e brinca com a sorte ao esculhambar a letra da marchinha mais querida das crianças da casa: canta tarde afora o “macha sodado cabeça de pél; quem não macha direito vai peso po catél, tél, tél”.
Quem busca encontra; quem procura acha: o papagaio buscou, o papagaio encontrou! Mariana perde a paciência e soca o empenado por minutos no frízer. Os cães festejam o acontecido com pulinhos de súbita e efusiva alegria em torno da patroa, que estranha a repentina festa, tributada mais nas horas do repasto canino e no retorno da família de passeios mais demorados.
Na fria solidão do desterro, o loro arrepia-se ao ver nu e congelado o frango do almoço de domingo. Aterra-se com o fim do colega bípede, e se pergunta sobre o “que terá feito esse infeliz para acabar assim?”. Imagina ser essa também a sua sina. Ao ser retirado do alvo e glacial mundo, em agradecimento pelo indulto, o loro mergulha num mutismo inusitado. Mariana e as crianças julgam que congelara a língua e, prontas a zarparem ao veterinário, são detidas pela Margarida que as faz notar o negro, roliço e impiedoso membro palrador da ave a sacar com destreza as sementes de girassol da casca.
Instala-se o sossego no reino dos Larletos. Mariana, enfim, estuda com afinco.
Os poucos dias que antecedem o exame fazem Júlio e os filhos mais velhos considerarem a severidade com que os examinadores tratam as vítimas a quem chamam de candidatos. O Zégas ouve de raspão essa conversa e matuta que “Se algum... (censurado) examinador xingar minha mãe, eu vou descer o cacete no... (censurado)”. Por vias das dúvidas, o garoto – que nunca anda armado–, resolve emprestar do Museu do Ipiranga o arcabuz e a borduna que o encantara no fim de semana anterior. Desconfiado de que não lhe emprestarão tais benesses, decide armar-se de estilingue e nutrida munição de bolinhas de gude. Ao camuflar a atiradeira com refinada habilidade num saquinho de amendoim torrado -sem abrir o lacre, o que lhe surrupiou um tempo danado-, suspira aliviado por não ter que ocultar um arcabuz e uma borduna. Caso o revistem na entrada da defesa de tese de sua mãe, não pedirão para abrir o lacre de um saquinho de doces. Agora se sente preparado para o que der e vier.
Irrompe o dia e a hora da defesa do mestrado. Como é habitual nessas ocasiões, há poucos assistentes no auditório da Faculdade de Pedagogia da USP. Deduz-se que parentes e amigos poupam de constranger os pobres examinandos ao não presenciarem os insultos que padecem. Só comparecem os mais íntimos, já acostumados aos choros e dores dos candidatos.
A primeira fila de poltronas acomoda Júlio, marido da Mariana, e os oito filhos do casal. Espalhadas pelo auditório estão algumas amigas da candidata... Ah, quase me esqueço: estou atrás do Júlio, meu velho amigo. Ando ansioso para ouvir a tese da Mariana, pois além da importância do tema, Júlio me adiantou lances curiosos. Ao não conhecer o assunto, me esforçarei para reter conceitos. Pronto para a largada, empunho caneta e papel.
A defesa principia. Na banca, doutores e doutoras ouvem a candidata expor sua tese com soltura e determinação. Mariana traz a opinião de graúdos cientistas e pesquisadores do mundo afora.
Anoto em garranchos o que consigo entender: a educação infantil alcança melhor resultado acadêmico e de socialização, além da diminuição da violência, em salas de aulas só de meninas ou só de meninos. Sou apresentado ao sistema chamado educação diferenciada. Pasmo; nunca havia pensado no assunto. Ligo as antenas - nem pisco- e descubro que as diferenças de sexo não são apenas anatômicas, mas de modo de sentir o mundo e de captar as informações. Meditativo, coço o queixo.
Em certo momento a candidata diz que o ensino mais natural às operações intelectivas de cada sexo é feito por professores aos meninos e professoras às meninas.
O Zégas cochicha com o Augusto:
-Os jogos que as professoras obrigam a gente fazer enchem o... (censurado) e são chatos pra chuchu.
Barbaridade! Petrifico-me ao temer que a banca ouvira, assim como eu, as impressões nada científicas do garoto. Não ouviram. Então, escapo ao passado e me vejo apaixonado pelas professoras que tive: se belas, me desligava das aulas e sonhava em me casar com elas, principalmente com a que os garotos apelidaram de colírio! Jamais pensei tais coisas em aulas com professores... Mas as razões da Mariana para a configuração professor/aluno e professora/aluna certamente serão outras.
Minha atenção retorna à exposição. Chovem dados estatísticos das cem melhores escolas do Reino Unido, da França, Austrália, Estados Unidos, que aplicam com sucesso o tal ensino diferenciado. Perco-me entre os gráficos de Harvard University. Sinto-me burro como uma porta e admiro a desenvoltura da candidata.
Sou apresentado a tal de neurociência. Técnicas não invasivas de ressonância magnética e tomografia demonstram, com imagens em tempo real, como os mesmos fatos se dão em partes distintas no cérebro de cada sexo. Estupefato abro a boca ao notar o fluxo sanguíneo e a química hormonal do homem e da mulher se deslocarem para pontos distintos de cada cérebro. Tudinho manifestado desde a infância.
Sentencia Mariana:
-Afirmar que o comportamento de cada sexo é simplesmente o resultado da educação recebida, e que inexistem diferenças físicas entre o cérebro masculino e feminino, é coisa do passado e de fraca ciência.
Navego...
Rabisco que o homem tem mais massa cinzenta no cérebro e a mulher mais massa branca. Babo ao saber que a branca favorece a ágil conectividade entre os centros de informação e processamento emocional do cérebro feminino, dando a elas mais facilidade de linguagem e mudança repentina do foco da conversa, ação impossível para os homens. Admiro-me com a afirmação de uma pesquisadora de nome impossível de ser anotado de bate-pronto: “o cérebro feminino é uma máquina construída para a conexão”. Fico a invejar as mulheres, dada a minha lentidão cerebral. Mas como são coisas do Fabricante, aplaudo e me ponho feliz em ser como sou. Volto-me à tese e descubro que a tal massa branca facilita às Evas o desempenho simultâneo de multitarefa, sendo pechincha para elas cuidar do bebê, trabalhar no computador e controlar a panela de pressão no fogo. Já os Adões são uns desastres ao cuidarem da criança enquanto consertam o cano da cozinha: pai e filho se encharcam e correm o risco de se afogarem ou griparem-se!
Retornamos à tal de neurociência, agora em socorro dos maridos: no cérebro da mulher a linguagem ocorre nos dois hemisférios; no do homem, apenas no esquerdo. Eis porque elas usam mais palavras num dia do que eles. Em que isso favorece aos maridos? Em saber que devem dar no pé quando colérica a esposa, pois liberado nela os circuitos verbais, jamais silenciarão um ninho de metralhadora em ação!
A examinanda afirma que as meninas expressam mais facilmente seus sentimentos que os meninos, pois desenvolvem as áreas do cérebro referentes à linguagem antes que os meninos da mesma idade; e que esse processamento se dá em pontos diferentes do cérebro de cada sexo.
Bastou o dito para que as irmãs olhassem ufanas aos vis seres ali presentes alcunhados de irmãos. Margarida, Janaina e Maria Cecília até ajeitam o cabelo em desprezo àqueles paspalhos. Ao que Zégas e Augusto outra vez desenham nos lábios silenciosas palavras que me parecem dizer:
-Fofoqueiras precisam falar mais cedo.
Elas captam o recado e lhes mostram a língua.
Risos da platéia pela sentença de uma pesquisa referendada: por ter amídalas maiores, o homem, se furioso, tem os circuitos verbais fechados e sua expressão de emoção se torna mais física. Sendo seu estoque de testosterona e vasopressina vinte vezes maior que o da mulher, sente diminuído o interesse de falar e crescido o de agressividade e competitividade. Risos porque Mariana concluiu o dito afirmando que mulher sábia não remexe pólvora com tição quente.
Nisso, uma luz ilumina o rosto do Zégas, que acaba de entender porque o Tio Faié (corruptela de Rafael), irmão da Mariana, quando irado diante das mil diabruras dos sobrinhos, fecha os dentes e desce o porrete neles sem pronunciar palavras...
Outra pérola completa a afirmação anterior: “as mulheres são pobres no hormônio testosterona e os homens num tal de ocitocina”. Benditas carências que farão Adões e Evas eternamente se necessitarem!
Anoto atropeladamente que se o homem se sente atraído pela ternura feminina e a mulher pela impulsividade e determinação masculina, é porque cada sexo busca no outro o que naturalmente carece e lhe é necessário.
Coço o pescoço e a queixada ao perceber que a natureza humana desautoriza a auto-suficiência de cada sexo.
A platéia ouve:
-A natureza é sexuada –masculino e feminino; macho e fêmea– e a sexualidade determina o que cada um é, e não o que gostaria de ser.
Agora coço o cocuruto da cabeça e a meneio: “sim, sim”. Sempre me dá comichão quando descubro uma verdade.
Mais artigos de especialistas nos são despejados. Inteiro-me que o cérebro masculino tem períodos de descanso e se desconecta de pensar em algo várias vezes ao dia. Já o feminino, sempre em atividade e hiperconectado, impede a mulher de relaxar e se distender. Ao compreender, então, porque as mulheres estão sempre se cobrando, me dá coceira no nariz! Divertidamente Mariana diz que a não compreensão dessa realidade pode levar a esposa a discutir tolamente com o marido, julgando-o indiferente, alheado.
Falha-me a maldita caneta; sinto ímpeto de atirá-la pela janela. Chacoalho e no tranco ela pega. Ligeiro copio de um slide: “a estrutura curva do assoalho inferior do ventrículo lateral do cérebro masculino dificulta a irrigação entre a memória e os centros emocionais e verbais. Por isso os homens logo esquecem as discussões, enquanto as mulheres –mais irrigadas– mantêm a lembrança dos dissabores por longo tempo”. Mariana diz que os sentimentos de desconcertos persistem por mais tempo no ânimo das mulheres que no dos homens.
O Zé olha para Ciça e compreende a razão de ainda não ter sido perdoado pela irmã ao utilizar a velha calça jeans dela no judas caceteado no Sábado Santo; o mesmo não ocorreu com o Augusto, que logo esqueceu de sua camisa utilizada para o mesmo fim.
Um dado nos fez abrir a boca: as mulheres, porque têm vinte por cento mais de fluxo de sangue no cérebro, avaliam facilmente contextos como expressões faciais, tons de voz, situações de desconforto e tensão, o que as faz sofrer mais e a tender a não suportar situações de pressão nas empresas.
Essa capacidade de percepção feminina se manifesta já nos três primeiros meses de vida, onde uma menina tem tanto neurotransmissor estrogênio no cérebro quanto uma mulher adulta, o que aumenta nela a habilidade de contato visual e de observação quatrocentas vezes mais que um menino da mesma idade.
É mole ou quer mais?, insinuam com ufanos olhares as irmãs daqueles ouriços ali presentes. Então o Zégas faz menção de cochichar algo à Ciça, e aproxima o oco de sua mão ao ouvido da irmã, e esta inclina a cabeça para ouvi-lo. Então o moleque mira pelo buraco da mão como em uma luneta e diz:
-Dentro do seu cérebro não tem nada; só há um fio segurando as duas orelhas!
A irmã lhe dá um pisão no pé e o garoto acusa com “ui” abafado e dolorido. Júlio percebe a briga e lança um olhar severo aos dois filhos, que silenciam.
Mariana cita outros pesquisadores, aos quais fico a dever os nomes dada minha lenta irrigação cerebral no campo da linguagem, pior se estrangeira –coisas da espécie, mais acentuada em alguns primatas–, e fico a saber que as meninas amadurecem mais rapidamente que os meninos.
As filhas da mestranda, desde seus assentos, se inclinam com um arzinho besta de superioridade e desdém para os mesmos tipos de sempre; estes não deixam por menos e replicam com caretas e descrevem nos lábios surdas palavras que me parecem palavrões.
Divertido momento da exposição ocorre quando Mariana, preparando-se para citar alguns autores, dirige o olhar aos filhos e é imitada pelos examinadores. As crianças vendo-se na mira de tantos mestres se põem sérias e intimidadas:
-Os meninos brigam mais do que as meninas e até se divertem no embate. Ao saírem juntos, as irmãs interpretam como agressões as brincadeiras provocativas dos irmãos. Em grupos separados, os meninos disputam entre si, importunam-se e retornam felizes e sem reclamação alguma para casa, pois o jogo e a competição moram em suas entranhas.
Irmãos e irmãs mesmo sem entreolharem-se endossam as sábias palavras da mãe com um sim de cabeça, e os examinadores, que lhes mantém sob foco, riem. Os filhos da Mariana permanecem sérios e sem compreenderem o motivo dos risos. Encontrando-me atrás do Zégas ouço-o cochichar à Ciça:
-Viu como vocês são chatas e não entendem a gente!
Em tão solene momento a irmã não lhe pode dar mais que uma cotovelada no baço, até porque ainda estavam sob a mira dos professores.
Júlio não percebe as traquinagens dos filhos. Portando no colo o pequenino Thiago, nota-se que reza recolhido e com intensidade para que Mariana se saia bem e sejam coroados de êxitos seus esforços de esposa, mãe e acadêmica.
De repente divago. Considero o que presencio: uma mulher com oito filhos a buscar um título de mestre! Vem-me à mente a entrevista de uma badalada revista com mulheres em cargos executivos e excelentes carreiras: parte das entrevistadas dizia não se sentir realizada enquanto não casasse e tivesse filhos, mas não casara porque não queria abrir mão do prestígio que diziam encontrar na profissão; a outra parte casou e teve filhos, com a meta de retornar à vida profissional. As que regressaram se sentiam doloridas pelo pouco tempo dedicado à família. Tudo me pareceu uma eterna insatisfação. Entendiam essas mulheres que o trabalho do lar –que as construiu como pessoas e as inseriu na vida social– as inferiorizava. Injustiça de cuspir no próprio prato é ter em pouco o âmbito que cuidou da nossa meninice, que nos vela nas enfermidades e se manterá de sentinela na nossa velhice, além de suprir cada dia a frágil e vulnerável corporeidade humana, tão carente de cuidados materiais: quem dos cuidados do lar se privou, imaturo ficou e de complicada afetividade se tornou. Que falta faz uma boa antropologia que reafirme a dignidade do trabalho doméstico, que tem as mãos como a principal executora das iluminações da inteligência e a materialização do amor. Oh, mãos, mãos, instrumentos de instrumentos; ferramentas de ferramentas: é por vocês que o corpo manifesta os seus sentimentos e a alma a sua inteligência. Que injusto tributo lhes pagamos, mãos, por tornarem o nosso habitat em condições de nos fazer crescer humana e espiritualmente! Se os palmípedes humanos receberam mãos tão especiais é porque inteligentes são. E no lar, mais do que em qualquer outro lugar, as mãos abrem aos homens um espectro de possibilidades criativas: nele habitamos casas –e não tocas– que limpamos, decoramos e perfumamos, e por isso não vivemos pneumônicos ou tuberculosos; nele não nos alimentamos brutamente, mas aprendemos a arte e a ciência da gastronomia, que dominou o fogo -do qual fogem todos os animais- para cozer, acalentar e fundir; nele mais que cobrir nossas debilidades com peles, aprendemos a arte de tecer e combinar cores e criamos a moda. Oh, insatisfeitas executivas, saibam que o lar –onde só há opção de amor– tudo se originou. Pode-se contradizer palavra com palavra, mas a vida não se contradiz com palavras: não há grande empresário sem um grande lar.
Volto com a mente ao auditório e ouço Mariana afirmar:
- As crianças naturalmente procuram as de mesmo sexo.
Irmãos e irmãs entreolham-se e notam-se sentados em grupos separados. Surpreendem-se com a acuidade da mãe, pois não haviam combinado esse isolamento. Os mais novos concluem que Mariana tem o poder de lhes ler os miolos, e concluem que não devem pensar tantas asneiras.
A frase a seguir, pinçada de um autor, soa a elogio aos meninos que, esnobes e gordos de empáfia, miram as irmãs sem se darem conta de que o dito os desqualificava:
“O risco e o perigo divertem os meninos. Temerários, machucam-se mais que as meninas. Estas, ao captarem melhor o risco, necessitam ser estimuladas a se atreverem”.
Mariana conclui que tal comportamento deve ser levado em conta no aprendizado de cada grupo, o que não ocorre em salas mistas.
Cochicham os irmãos que todos já foram carregados nos braços dos pais aos diversos hospitais da cidade, fato nunca ocorrido com as irmãs, excetuando-se a Glorinha pelo tombo feio ao fugir de um fantasma.
Com olhos fixos na banca, Mariana diz:
-A disciplina autoritária, como a vigilância de um professor em sala de aula, desconcerta as meninas e deve ser levada em conta no processo educativo! Aos meninos o controle externo não lhes causa problema algum, pois aceitam esse fato como as regras de um jogo.
Outra frase da candidata:
- A hierarquia destrói a amizade entre as meninas; e reforça-a entre os meninos, pois estes admiram e aceitam a autoridade daqueles que realizam proezas.
O Zégas vira-se para mim e diz:
- A gente gosta pra chuchu e respeita pra caramba o Zé Fofinho e o Chico Porco (Francisco Leitão), porque um é craque de bola e o outro do tênis de mesa!
Faço sim com a cabeça e ponho o indicador na boca indicando silêncio ao Zé, que me sorri. Volto a atenção à mesa, de onde ouço:
- A auto-revelação é admirada pelas meninas e a intimidade é desvelada mais frequentemente entre elas. Para os meninos tudo isso é desnecessário.
Irmãos e irmãs entreolham-se e confirmam com a cabeça a verdade dessas afirmações. Augusto diz ao ouvido do Zégas:
-É que elas são mais fracas.
Não é preciso dizer que o Zégas concordou com a observação. Mas o silêncio entre ambos revela que desconfiam serem outras as razões da mãe a esses fatos.
Viajo outra vez em ponderações. Concluo no que antes matutava: como Mariana concilia família e estudo? Júlio certa vez me falou sobre o sentido profissional com que a esposa conduz o lar, e que a família se sente muito valorizada com isso. Aí está o segredo: Mariana tem a família como sua principal atividade profissional, pois viu na fundação de um fecundo lar a vontade de Deus para ela: ou seja, sua vocação. Ao encontrar na família que fundou o porquê de sua vida, não considera conflitante o tempo dedicado ao cuidado do marido e dos filhos com o dedicado à sua segunda profissão, a pedagogia. Essa hierarquia de valores a faz estar em paz ao realizar o que deve ser feito em cada momento. A perseverança em planejar cada dia as mil tarefas do lar -das maiores às miúdas como dobrar um lençol-, e a de ajudar os filhos a crescerem humana e espiritualmente, o que os faz realizarem seus encargos por conta própria e se potencializarem para a vida, enriqueceu sua capacidade de estudo, como demonstra o fato de estar ali a defender sua tese de mestrado em educação.
Volto aos debates e ouço a mestranda afirmar:
- As meninas apreciam o estar juntas para conversar; a amizade delas tira força do diálogo, e não do jogo, que é mera desculpa para se reunirem. Já os meninos, quando juntos, não se ressentem pela falta de conversa, pois a amizade deles se liga a interesses comuns, como a vitória da equipe ou a realização de façanha temerária.
Mariana conclui o dito com a citação de uma de suas autoras preferidas que chama de Amizade cara a cara a das meninas, e de Amizade ombro a ombro a dos meninos. Coço o queixo, o nariz e a orelha. Essa foi muito boa!
Por fim, Mariana dá sua contribuição ao tema no modo de expor a cada sexo determinados conteúdos. Testou a veracidade de suas pesquisas nos próprios filhos, e na penca de amigos que eles têm. Sentiu falhar apenas na matemática com o Zé, o que a faz imaginar que por aí irá seu futuro doutorado... Talvez pós-doutorado, pois será façanha de titã conseguir algo nesse terreno com o filho, que jamais será um matemático!
Após horas de réplicas, tréplicas e de exposição de técnicas educativas onde mais do que boiar afundo com meu bote, os examinadores pedem a todos –incluindo a candidata– que deixem a sala por uns momentos, a fim de parlamentarem a sós e atribuírem nota à tese e à exposição. Após vinte minutos somos conclamados a retornar ao auditório. A Presidente da banca diz:
- A candidata foi aprovada por unanimidade e com nota dez. As pesquisas recolhidas de outros autores e as da própria candidata –que chora de emoção–, reforçarão os estudos que buscam o aprimoramento dos resultados educativos no ensino básico ou fundamental, pois se assentam na antropologia que assinala, a par da igualdade fundamental da dignidade entre homens e mulheres, a importância das diferenças entre os sexos, manifestadas desde a infância. Sendo desiguais –continua a Presidente da banca– é que homens e mulheres se completam e se ajudam mutuamente, já que a natureza não os supriu em tudo isoladamente –e conclui em tom divertido–, fazendo, assim, diminuir o risco de cada sexo pecar pela via do orgulho ou auto-suficiência.
Aplausos e cumprimentos. Mariana, às lágrimas, agradece cada componente da mesa. Júlio me abraça e tenta esconder seus olhos encharcados, o que me faz recordar que os homens não gostam de manifestar seus sentimentos.
Segue-se pequena confraternização com doces e refrigerantes numa sala contígua ao auditório da faculdade. A orientadora da tese se aproxima da Mariana, que tem nos braços o Thiaguinho, e diz sem se importar com a presença do Júlio e da minha:
-Mariana, gostaria de parabenizá-la e confessar que a invejo! Você fez a opção de primeiro formar uma família e depois sair em busca de títulos acadêmicos. Fiz o contrário: obtive títulos que poderiam aguardar outras épocas, e adiei os filhos que não poderiam aguardar outras épocas, pois já não os posso ter. Meu marido queria filhos, mas eu priorizava os compromissos acadêmicos. Hoje me culpo por nos sentirmos sós, e me dói essa realidade. Parabéns, Mariana, pela sua acertada escolha, pois a ciência e os homens envelhecem, mas é penoso envelhecer com títulos na parede e sem ter ao lado pessoas amadas.
Mariana ouve meditativa o que acaba de ser dito, e responde à orientadora que as mulheres afeitas ao estudo e à pesquisa acadêmica devem perseguir esse ideal, mas sem se deixar enganar pela forte campanha que contrapõe a carreira universitária à família. Mariana envolve com o braço a cintura do marido, e diz que ele tornou possível os estudos dela ao assumir o sustento econômico da casa, e agradece-o com um sorriso maravilhoso. Diz também:
- Professora, Deus permite que do mal tiremos um bem maior. Seja porta-voz dessa verdade que acaba de dizer, e faça o grande bem de desvelar às alunas que desejam constituir um lar, que a maior criação humana é a de gerar outras vidas e de educá-las numa família! Não basta gerar –os animais também fazem isso–, mas em concluir a obra iniciada com o educar. É nesse doar que o amor se refaz continuamente.
Despedi-me do Júlio, da Mariana e das crianças e fui para o trabalho.
Em casa, Mariana foi surpreendida com uma pequena e íntima festa. Júlio e as crianças antecipadamente prepararam os acepipes, escondendo-os na casa da tia Pina; esta ao receber do Augusto um telefonema com o resultado da defesa, rapidamente dispôs tudo para a chegada da estrela da noite. O Zégas se trancou no quarto dos meninos e retirou da cueca o seu estilingue, que não precisou utilizar, já que “os caras da banca foram muito legais com minha mãe”.
Copyright©Ariovaldo Esteves Roggerio. Conto registrado na Biblioteca Nacional, e disponível no site www.familiaemcontos.com.br.

