Seu Felizardo Bevilaqua »
Seu Felizardo Bevilaqua é um contemplador. Não há quem passe pela Rua Santo Antonio, no Bixiga, e não veja cada dia, no final da manhã e da tarde, em atitude de admiração, um mulato magro e elegante que beira os 70 anos, a trajar paletó, calça e chapéu, recostado com nobreza ao umbral da porta de sua casa, de onde dá baforadas num cachimbo de piteira curva.
Viúvo há 20 anos, foi casado com D. Letícia, mulher de espírito rico que utilizava bota com grande salto para suprir a deficiência da perna direita. O casal não teve filhos. Agora, aposentado, seu Felizardo hoje ocupa a edícula com quarto e banheiro ubicada nos fundos da casa da irmã casada. Vive sobriamente: cama, fogão de duas bocas, criado mudo, mini-geladeira, vasta estante de livros feita por ele com tábuas envernizadas e tijolo baiano pintados de rubro, um crucifixo na parede, e alguma outra coisinha. Diz não carecer de mais nada e até vendeu a televisão que ganhara de presente, pois notara que as imagens povoaram a sua mente e desalojaram os pensamentos e os sentimentos profundos, que sempre buscou nos livros e na interiorização de si mesmo. Também percebeu que a má companhia o fez instalar-se na preguiça a ponto de deixar a meditação diária junto ao seu crucificado -como quem sempre bateu papo em voz alta, já que mora só-, e deixara de visitar as crianças pobres nos leitos da Santa Casa, e por “falta de tempo”, não ajudava mais nos trabalhos da Casa de Dom Orione, anexa à Igreja da Achiropita, como sempre o fez. Ao retirar a televisão, constatou aliviado que as imagens vãs partiram no vácuo do aparelho e lhe voltou a disposição de servir aos demais.
Faz parte do homem de caráter dizer a verdade; verdade que sem pretender machucar tem certa agressividade. Por isso, a todos é sabido que dourar a pílula não é com seu Felizardo, não. Além de ser homem de uma cara só, esse contemplador tem algumas convicções que lhe pautam a vida: a inteligência é a faculdade mestra do homem, sem, no entanto, cair no racionalismo, pois dá muita importância à sua sensibilidade, emoções e paixões –que as sabe parte da natureza humana-, mas que devem ser reitoradas ou iluminadas pela inteligência. Outra convicção sua é que se a alma não for magnânima, se apega às práticas pequenas e chega a adquirir as proporções das coisas às quais se apega. Por isso, o que mais teme seu Felizardo é o excessivo cuidar do paladar, tato e ouvido, que rouba tempo das grandes descobertas do espírito e da apurada sensibilidade. Fez suas as palavras de João da Cruz de que “é coisa certa que pelo pouco saber de alguns, se servem das coisas espirituais só para a satisfação dos sentidos, deixando o espírito vazio”. Condói-se ao ver almas que não sabem senão se deleitarem nas coisas pequenas que passam sem deixar rastro, e por isso se fazem inteiramente mesquinhas e estreitas.
Também afirma seu Felizardo que a vida se animaliza ao não ser mais que uma série de sensações se vivida apenas pelos sentidos. O que não quer dizer que ele desaprecie música, pratos bem elaborados e um bom tinto da Borgonha, quando as economias lhe permitem. Mas se dá com moderação a essas alegrias. Quanto aos ouvidos, não compreende os que gastam dezenas de horas semanais a se deleitarem com a música a fim de fugirem de adentrarem em si mesmos, preferindo cultivar sensações passageiras para se desatenderem de ideais que tornam o mundo melhor.
É ladainha do seu Felizardo que “o viver na superfície da alma faz viver na superfície das coisas; quem se ocupa apenas do exterior dá importância demasiada às pequenezes e não compreende os vôos do espírito”. Por isso disse certa vez ao Júlio que não há homem mais feliz e mais em paz do que o que possui uma verdadeira vida interior. Só penetrando no íntimo da alma, onde habita a sabedoria e se recolhem as ideias, é que se descolam as patas do chão: “a formiga e a águia têm visão bem diferente do mundo” –diz seu Felizardo.
Então, ali junto ao seu portão, seu Felizardo Bevilaqua vela sempre pronto a arrancar o egoísmo arraigado nos corações rudes e crus que ignoram e têm por escassos os gozos da alma. Sua estada diária na atalaia do portão da rua tem caráter de contemplação da vida, apologético e de direção espiritual. Por isso dá preferência aos aficionados a prazeres imediatos e fáceis que povoam a superfície da terra e fogem dos trabalhos e lutas das profundidades.
E estando mais um dia junto ao portão da rua, seu Felizardo vê se aproximar um grupo de uns dez garotos da vizinhança.
- Olá, rapazes! Vejo que trazem as mãos ocupadas.
Os garotos tentam esconder pedras, paus e um cabo de aço enrolado.
- Seu Felizardo -diz o Zégas-, a gente vai brigar com uns moleques lá da Santo Antonio com a Praça das Bandeiras.
- Por que uma guerra, meus caros?
- Ah, seu Felizardo, eu e o Aristeu descíamos de carrinho de rolimã aquele trecho da nossa rua quando três garotos de um cortiço lá do Centrão pediram pra gente deixar eles darem uma volta também. A gente não deixou porque eles poderiam roubar os carrinhos. Aí eles disseram que arrancariam os carrinhos na marra. Então a gente veio aqui no campinho e reuniu a turma pra ver se têm coragem de arrancar. A gente vai até lá para dar um cacete neles.
-Entendi, rapazes. Mas dois carrinhos velhos e remendados devem ser a causa de uma luta armada?
- Ah, seu Felizardo, nós vamos porque não temos medo deles –diz Aristeu.
-Aristeu, a ausência de medo não deve ser causa que justifique uma ação, mas o bem que com ela se alcance. Qual o bem que vocês buscam com esse enfrentamento?
- Demonstrar que não somos covardes –afirma um dos garotos; e o motivo é repetido por vários outros.
-Então vocês querem lutar para demonstrar força!
- Ééé -respondem os garotos.
- Devo dizer que vocês lutarão por um motivo vil: o orgulho, que é vício ou defeito, e não bem maior que justifique a possibilidade de sofrerem ferimentos na luta.
Os garotos entendem o recado e abaixam os olhos. A voz de um menino se faz ouvir:
- Mas passar por covardes também não é um bem!
Todos concordam e acreditam que encontraram a razão para irem à luta.
Seu Modesto eleva o cachimbo até a altura do nariz, puxa pausadamente a fumaça e retorna o pito à posição original junto ao queixo –operação inteiramente acompanhada pelo subir e descer de silenciosas cabeças ali presentes.
- Zé Fofinho, para ser forte não basta não ser covarde. Só é forte quem compreende que a realidade pela qual deva lutar é grande e justifica o pôr em risco a vida ou receber ferimentos. O forte não busca o perigo -do qual não foge-, mas o bem a ser alcançado, que entende ser maior que sua integridade física.
Os garotos meditam nessas palavras e como estão com ganas de brigar, tentam justificar a ação:
- Mas a gente disse que ia, e se não formos ficaremos com fama de covardes –afirma o Zégas.
- Mas eu não disse que vocês não devam agir; apenas que devem avaliar qual a correta ação a ser praticada. Decidir pela luta sem avaliar com acerto a realidade é uma imprudência, e o imprudente não pode ser forte.
- Por que não pode ser forte o imprudente? –indaga um garoto que sempre ouve a mãe dizer ao pai -quando este dirige o carro- que é um imprudente. O garoto tem o pai por corajoso exatamente por dirigir com risco:
- Quem arrisca sua vida por algo desprezível é imprudente e ignorante: paga muito pelo que vale pouco. E como pode ser forte quem ignora o que irá perder? A verdadeira prudência não é covarde e impele à luta, se o bem a ser conquistado é maior que a possibilidade do ferimento.
Alguns segundos de silêncio intermedeiam os diálogos. Seu Felizardo volta à carga:
- Vocês ainda não encontraram uma razão que justifique a briga. Analisem melhor a situação.
- Se eles foram valentões a gente não pode afinar – afirma o Zégas..
- Eles não foram valentes por ameaçarem arrancar o que não lhes pertencia. O injusto não tem a virtude da valentia –que é um bem-, mas o vício ou defeito da brutalidade. Só há fortaleza quando ela é precedida da prudência e da justiça.
- Se eles não foram justos merecem apanhar.
- Eles sabiam que o ânimo de vocês era o de não emprestar o carrinho, direito que pertencia a vocês e que foi utilizado. Se tivessem aceitado a negação, teriam sido prudentes e vocês injustos ao atribuir a eles a condição de ladrões, já que poderiam não roubar os vossos carrinhos. Mas ao forçarem o uso do carinho foram injustos. Os dois grupos erraram e devem corrigir o erro não com a luta, mas reconhecendo o erro e pedindo mútuas desculpas.
- Ah, ah, duvido que peçam desculpas pra a gente –diz o Aristeu.
- Se não pedirem não terão a verdade com eles; e quem não possui a verdade não pode ser plenamente feliz.
- E se a gente tivesse emprestado e eles tivessem roubado os nossos carrinhos?
-Se eles tivessem roubado os carrinhos não seriam justos, pois o justo dá a cada um o que lhe pertence. Tirar o vosso carinho seria uma injustiça e uma demonstração de brutalidade e não de fortaleza, porque está exige que a ação além de prudente seja justa. A perda de dois carrinhos, quando vocês apenas queriam que eles se divertissem, poderia fazê-los pensar que teriam sido injustos com vocês, e o injusto é plenamente feliz. Por dois motivos teria valido a pena não desconfiar deles, mas ser generosos e correr o risco de emprestar o carrinho: ou vocês teriam ganhado três novos amigos, ou teriam feito que três injustos tivessem a consciência do mal que fizeram, mesmo que tardassem a chegar a essa conclusão.
Os garotos passam a confabular entre si, enquanto seu Felizardo dá baforadas no cachimbo de piteira curva. Após alguns instantes de confusas perguntas e respostas, onde todos falam ao mesmo tempo sem ouvir as razões dos outros, Aristeu toma a palavra:
- Ah, seu Felizardo, a gente não vai afinar, não.
- Afinar, fugir da briga? –pergunta seu Felizardo.
-Ééé –respondem em uníssono. Queremos ver se arrancarão o carrinho da gente –diz o Alemão.
- Ir para que ver o que vocês não gostariam que acontecesse?
- Olha, seu Felizardo, a gente já decidiu! Vamos até lá para quebrar a cara deles.
- Vocês seriam capazes de ferir outros garotos por causa de dois carrinhos de rolimãs ou para defender o vosso orgulho?
- Somos.
-Indo na condição belicosa irão como injustos e não como fortes. E tendo a certeza moral de que eles chamaram a turma deles, vocês irão também como temerários ao se arriscarem a se ferir tolamente por um mal e não por um bem. O verdadeiro forte só arrisca sua vida quando o bem a salvaguardar é maior do que sua integridade física. Quem ama teme e deve ser forte para enfrentar o medo. Quem não sabe o valor de sua vida não teme perdê-la, por isso não precisa ser forte. A fortaleza não deixa que o medo a force a agir mal. Vocês deveriam ir, sim, para emprestar o vosso carrinho e reparar com um ato bom o pensamento injusto que tiveram para não emprestar.
Os garotos entreolham-se em silêncio. Porém os mais obstinados começam a caminhar em direção à Praça das Bandeiras, certamente não para emprestar o carrinho, mas para quebrar o pau e se gabarem de sua epopéia. Aqueles que entenderam as razões do seu Felizardo titubeiam, mas por temer a alcunha de covardes não agem por conta própria e vão ao reboque dos demais.
Chegando ao campo de batalha encontram os três garotos que forçaram o uso dos carrinhos e outro rapaz de idade mais avançada. O Zégas e o Aristeu se postam na frente da turma que trouxeram e se põem a falar com os da outra turma:
- Viemos aqui pra vocês tirarem o nosso carrinho, caso tenham coragem.
Inicia-se um bate boca danado. O rapaz quase adulto que pertence ao outro grupo, sonado e de rosto inchado, apenas ouve os mútuos desaforos com as duas mãos junto às costas. De repente, cansado do diz que diz, o moço trás para adiante as mãos com algo capaz de mudar o curso das coisas: um facão de três palmos de comprimento. A turma do Zégas e do Aristeu ao ver aquela desgraça em mão alheia, se volta e desanda a correr. Como o Zégas e o Aristeu haviam tomado a dianteira do seu grupo, com a fuga deste, se vêm atrás de todos e sem espaço para correr. Então, com o moço a ciscar o facão para lhes dar cuteladas, correm e xingam os companheiros para lhes abrir passagem. O moço do facão não corre muito, pois parece cansado, o que é a salvação do Zégas e do Aristeu. Entretanto, o do facão não desiste de seguir no encalço dos covardes. A confusão chama a atenção dos passageiros e motoristas de ônibus da Praça das Bandeiras, que se divertem com o apuro dos que antes se ufanavam de sua valentia. A turma dos fugitivos sobe desesperada a Rua Santo Amaro e por grata coincidência encontra na parte alta da rua, já próximo ao Viaduto Jacareí, uma imensa quantidade de brita que será utilizada no recapeamento das vias locais. Então, cada um dos dez garotos da turma dos desesperados mete ambas as mãos na pilha de pedras e passa a atirá-las com veemência no moço do facão e seus três cupinchas. A saraivada que parte então de dez pares de mãos, que em bom cálculo somam vinte atiradeiras, faz desandar os perseguidores de volta ao seu refúgio.
A turma do Zégas e do Aristeu regressa ao Bixiga em silêncio. Não se ufana do feito porque tem presente que correu de medo e acha melhor não espalhar o fato pelo bairro. Já na Santo Antonio, os garotos do outro lado da rua observam seu Felizardo no portão da casa dele, e o bom homem, que desde a saída dos meninos não deixara de repassar as contas do terço com a mão metida no bolso, respira aliviado ao vê-los intactos. Prudente, não indaga sobre o ocorrido, pois fosse qual fosse –vitória ou derrota–, não poderia elogiá-los. Mas vendo quão jururu segue o grupo, que não ousa encará-lo, seu Felizardo deduz o resultado da contenda.
Copyright©Ariovaldo Esteves Roggerio. Conto registrado na Biblioteca Nacional, e disponível no site www.familiaemcontos.com.br.

